Crianças Soldado e as Relações Internacionais como disciplina, por Patrícia Nabuco Martuscelli

O recrutamento e uso de Crianças Soldado na Colômbia e as respostas dadas pela comunidade internacional para esse fenômeno parece inicialmente um tema de pesquisa exótico para as Relações Internacionais (RI). Primeiramente, porque grande parte da literatura sobre o tema se baseia em conflitos africanos, como por exemplo o Best-seller “Muito Longe de Casa” de Ishmael Beah (2008) (ex-criança soldado em Serra Leoa). Contudo, esse é um tema que merece maior atenção da disciplina exatamente por envolver questões de segurança regional e internacional, desenvolvimento e direitos humanos. Sendo assim, esse também é um problema de estudo que concorda com a perspectiva de Sato (2010), ao considerar que estudar RI é importante e está em crescimento no período da globalização porque afeta “um aspecto central do modo de vida e das preocupações que afetam as sociedades em nossos dias” (p. 335).

Se o indivíduo permanece como ator último das RI, isso decorre também da construção da disciplina a partir prioritariamente da definição do conceito de Estado Nacional. Nessa lógica ainda predominante na teoria das RI, a ideia de soberania recebe especial atenção. Na era da globalização e com o advento de novas perspectivas teóricas, a visão tradicional do Estado como único ator das Relações Internacionais vem sendo desafiada. Novas teorias começam a surgir que colocam a pessoa humana no centro do estudo, como as abordagens feministas e os estudos normativos.  Durante muito tempo, temas que levavam ao questionamento de uma visão clássica do Estado como agente único foram silenciados na disciplina. Como ressalta Sato (2010), os temas tradicionais de guerra e paz migraram para o campo da economia, tornando a temática das RI mais voltada para temas econômicos como a agenda dos países do “Terceiro Mundo” sobre desenvolvimento. Contudo, apesar de uma visão clássica da economia manter o foco em cálculos racionais de custo-benefício feitos em último caso por indivíduos, isso nem sempre foi suficiente para trazer o indivíduo como centro nos estudos internacionais.

Dessa forma, crianças soldado, tema que possui o foco na criança como indivíduo que merece a atenção da disciplina, entra nesse rol de temáticas silenciadas. Sendo assim, duas abordagens teóricas podem trazer o foco para esse tema; A primeira delas é a teoria de Direito Internacional das três vertentes de proteção da pessoa humana. A segunda é o trabalho de Allison M. S.Watson (2006) que estuda crianças como atores das RI que devem ser considerados como tal pela disciplina. Por outro lado, estudos de teóricas feministas também têm trazido o foco sobre o papel da mulher nas RI e releituras de conceitos tradicionais da disciplina como a ideia de Cynthia Enloe (1990) de agência invisível.

Outro tema que muitas vezes não é considerado como participante do rol do estudo das RI são as migrações. O tema do uso de crianças soldado na Colômbia dialoga com essa questão exatamente porque existe um ciclo que se autoalimenta entre deslocamento forçado e recrutamento de menores, ou seja, muitas famílias e crianças se deslocam para evitar que estas sejam recrutadas, por outro lado, ao se deslocarem se tornam mais vulneráveis ao recrutamento. Sato (2010) define as migrações como “um dos melhores indicadores de que importantes transformações estruturais estavam em curso uma vez que o movimento das populações sempre reflete crises, problemas e oportunidades que se apresentam diante das sociedades” (p. 353).  As teorias migratórias tendem a colocar o indivíduo como centro de estudo, buscando explicar as causas, consequências, fluxos, origens e destinos dos fenômenos migratórios. Nesse sentido, o campo das Relações Internacionais teria muito a ganhar com um maior diálogo com outras disciplinas que já estudam mais profundamente essa questão tais como a sociologia, antropologia, demografia, geografia e outros. Ao mesmo tempo, uma visão das migrações a partir das lentes das RI traria uma ótica mais sistêmica e política para o tema, o que falta muitas vezes nos estudos migratórios.

Outro ponto interessante discutido por Sato (2010) sobre a consolidação das RI como disciplina, é o fato de que a análise das RI se desenvolveu principalmente no mundo anglo-saxão com o estudo sistemático e o uso de modelos e ferramentas do pensamento científico para tentar tornar a política internacional mais previsível e evitar catástrofes. O advento da era da globalização e a modificação na natureza dos conflitos mostram claramente que não é possível criar uma teoria que torne as RI mais previsíveis. Isso decorre em última instância do fato de que a natureza humana e os indivíduos que são os tomadores de decisão nas RI são imprevisíveis. Adotar uma pretensão científica positivista não modifica essa questão.

Também o predomínio do pensamento anglo-saxão na disciplina impede a inserção de novos temas na agenda de pesquisa que não sejam dos interesses dos principais centros de produção do conhecimento, evita que novas visões vindas de fora do centro sejam consideradas e silencia diversos fenômenos como o uso de crianças soldado na Colômbia. É interessante observar como a construção do discurso da Colômbia como país democrático em desenvolvimento permitiu que seu conflito armado interno que já dura mais de 50 anos e todos os crimes de guerra e contra a humanidade decorridos dele sejam mantidos no silêncio, visto que a Colômbia não se encontra na agenda do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Ao mesmo tempo, isso impede que novas perspectivas teóricas e visões de países do Sul e mesmo daqueles do Norte que se encontram na semi-periferia sejam consideradas nas Relações Internacionais. Se tais ideias e abordagens fossem consideradas, haveria uma diversificação e fortalecimento da construção das RI como disciplina e campo de estudo independente.

A era da globalização também leva a um grande fluxo de informações e permite um maior acesso a dados e temas sobre o que acontece nas diversas partes do mundo. Se por um lado isso facilita a pesquisa em Relações Internacionais, por outro se deve ter cuidado com as fontes de informação. Assim como as teorias, as informações tendem a ser feitas por alguém, para alguém e com certos propósitos. Sendo assim, é fundamental que a pesquisa em RI considere essas questões e a não neutralidade da informação. Se não há como eliminar o caráter político do conhecimento, ao menos se pode entendê-lo e reconhecer seus limites. Além de tudo, a quantidade de informações não reflete necessariamente a sua qualidade e a pesquisa de campo, cada vez menos utilizada nas RI, pode trazer visões e explicações que não são fornecidas pela literatura.

Sato (2010) é muito sensato ao remarcar que o período da globalização apesar de ter trazido altas taxas de crescimento levou a um aprofundamento das desigualdades em diversos sentidos. A desigualdade econômica e social é uma explicação para muitos fenômenos estudados nas RI que nem sempre é considerada. No uso de crianças soldado na Colômbia, a desigualdade social e a falta de perspectivas para superá-la é uma questão que motiva muitas crianças a se tornarem soldados tanto em grupos guerrilheiros como em paramilitares. Contudo, a literatura tradicional sobre o tema, mais embasada em conflitos africanos fornece maior atenção para a questão da pobreza do que para a desigualdade. No contexto latino americano, a desigualdade social têm se acirrado ao longo dos anos, o que explica em muitos casos o aumento da violência na região. Ao mesmo tempo, as RI nem sempre estudam tão profundamente essa temática que também impacta fortemente a divisão do mundo em Norte-Sul e o momento pós-conflito.

Referências:

ENLOE, Cynthia. Bananas, Beaches and Bases. Making Feminist Sense of International Politics. Berkeley: University of California Press, 1990.

SATO, Eiiti. Relações Internacionais Como Área do Conhecimento e Sua Consolidação Nas Instituições De Ensino E Pesquisa. In: POSSAS, Lídia M. Vianna; SALA, José Blanes (orgs). Novos atores e relações internacionais. São Paulo: Cultura Acadêmica; Marília: Oficina Universitária, 2010, pp. 335-382

WATSON, Alison M. S. Children and International Relations: a new site of knowledge? Review of International Studies, vol. 32, 2006, pp. 237- 250.

Patrícia Nabuco Martuscelli é mestranda em Relações Internacionais pela universidade de Brasília

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