Pés no Chão no Combate ao ISIS, por Thiago Borne

Na semana passada, diversas autoridades norte-americanas se posicionaram sobre a decisão de Barack Obama de não enviar tropas terrestres para combater os avanços do Estado Islâmico (ISIS) no Oriente Médio. Em discurso para militares no Comando Central (Tampa, FL), no dia 10 de setembro, Barack Obama afirmou que os Estados Unidos irão “caçar” terroristas que ameaçarem o país onde quer que eles estejam. Segundo ele, isso significa que os EUA “não hesitarão em agir contra o ISIS também na Síria”. Além disso, Obama colocou ainda que o combate ao ISIS “não é e não será uma luta exclusivamente americana”. O discurso não surpreende. Desde que o ISIS começou a ganhar terreno no Iraque, a diplomacia estadunidense vem tentando mobilizar aliados no Oriente Médio para combatê-lo.

Obama foi enfático, e os Estados Unidos de fato não hesitaram em expandir seu teatro de operações. Os ataques a alvos do ISIS em território sírio começaram na noite do último dia 22. Segundo o Departamento de Defesa, os catorze ataques registrados na Síria até o momento contaram com o suporte de aeronaves da Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos e Jordânia.

O que chamou a atenção dos comentadores para o discurso de Obama, contudo, não foi seu posicionamento assertivo quanto à necessidade de vencer o ISIS no Iraque e na Síria, mas a ideia de fazê-lo sem envolver tropas americanas em uma nova guerra de atrito. Dirigindo-se para os militares no Comando Central, Obama foi claro ao afirmar que não comprometeria as forças armadas em operações terrestres. A participação dos Estados Unidos no conflito, segundo Obama, será de mero suporte às forças locais. Por isso, tudo leva a crer que os Estados Unidos e seus aliados continuarão a apostar no poder aéreo como principal meio de combate aos insurgentes, pelo menos por ora.

A decisão americana de evitar pôr os pés em solo iraquiano/sírio no combate ao ISIS se explica, em parte, pela dificuldade que Obama teria para justificar uma nova incursão armada no Oriente Médio, sobretudo depois que as tropas começaram a deixar o Iraque no final de 2011. Nem por isso a decisão do Presidente deixou de ser criticada. Um dia depois do discurso de Obama na Flórida, o Gen. Martin Dempsey, Presidente do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, afirmou que o emprego de tropas terrestres pode ser uma opção caso as incursões aéreas se mostrem insuficientes.

Opiniões semelhantes foram emitidas por outros militares, ex-militares, e políticos norte-americanos e aliados. Segundo o Gen. James Conway, ex-comandante dos Corpo de Fuzileiros Navais e veterano da Guerra do Iraque de 2003, a estratégia de Obama está fadada ao fracasso: “o plano do Presidente não tem nem uma chance em um milhão de dar certo”. O ex-Secretário de Defesa Robert Gates também foi enfático ao colocar para a CBS que as forças armadas “não alcançarão sucesso contra o ISIS somente através do céu ou pela ação isolada de forças iraquianas, peshmergas [curdas], ou de tribos sunitas”. Segundo ele, o sucesso da estratégia depende da atuação de tropas terrestres americanas.

Além disso, Robert Gates disse ainda que Obama estaria se “encurralando” ao repetir continuadamente que os EUA não atuarão em solo. Nas palavras do Gen. James Mattis, ex-comandante do Comando Central do Estados Unidos, “você não conta ao seu inimigo o que você não irá fazer com antecedência. Não podemos assegurar que eles [o ISIS] jamais enfrentarão as forças terrestres mais habilidosas do mundo”.

Apesar de concordar com a decisão americana de buscar apoio na região, enfatizando a necessidade de sinalizar a outros grupos terroristas que ações como as do ISIS não serão toleradas, o ex-Primeiro Ministro britânico Tony Blair falou à CNN que a ofensiva deve evoluir no futuro, e que certamente envolverá tropas terrestres. Tony Blair não foi claro, contudo, quanto à origem dessas tropas.

A resposta do ISIS às declarações de Obama – divulgada pela NBC e atribuída ao porta-voz do grupo, Abu Mohammed al-Adnani -, não poderia ter sido mais cética. “Mobilizem suas tropas, armem-nas, preparem-nas, planejem, ameacem-nos, ataquem-nos, matem-nos e destruam-nos. Isso de nada lhes servirá. Vocês serão derrotados”. Além disso, o comunicado ainda ridicularizou a estratégia americana: “será que os Estados Unidos e seus aliados não conseguem descer ao solo”?

Conforme sugerem os comentadores, a decisão americana parece ir contra tudo aquilo o que anos de combate no Afeganistão e no Iraque – em tese – ensinaram. A História mostra que, sobretudo a partir da Segunda Guerra Mundial, quando as teorias sobre poder aéreo começaram a ser colocadas em prática, operações pelo ar desacompanhadas de ofensivas terrestres raramente funcionam. Basta recordar do blitz alemão sobre a Inglaterra e, mais recentemente, do desastre das operações da OTAN nas guerras de dissolução da Iugoslávia. O fracasso, em cada caso, ocorreu por motivos diferentes. No primeiro caso, a Alemanha pensava que poderia dobrar a moral inglesa a partir do céu, mesmo sendo incapaz de determinar os alvos prioritários da Luftwaffe. No segundo, ainda que os bombardeiros da OTAN tenham alcançado algum grau de sucesso, esse só foi possível graças ao desgaste causado ao longo do tempo por ações combinadas. Apesar dessas diferenças, ambos os casos ilustram a ideia de poder aéreo não como solução isolada, mas como multiplicador de força.

Apesar disso, os Estados Unidos continuam apostando na precisão e letalidade de seus sistemas de armas ao invés de aprender com lições como essas. Como foi dito, nem mesmo as dificuldades encontradas em uma década de guerras no Afeganistão e no Iraque – as baixas taxas de reposição das forças, o baixo apoio popular, a reincidência de ataques contra homens e instalações, etc. – levaram o país a repensar suas estratégias de combate a forças irregulares em ambientes complexos. Pelo contrário: o país parece investir cada vez mais em formas de higienizar a guerra. É o caso, por exemplo, dos infames assassinatos seletivos (targeted killings) perpetrados por sistemas não-tripulados (drones), uma tentativa de ressuscitar antigas estratégias de decapitação [2] notadamente ineficientes [3].

Na medida em que o ISIS confirma seu domínio sobre cidades como Mosul e Sinjar, no Iraque, e avança no norte da Síria, fica cada vez mais difícil que a estratégia americana de lutar apenas pelo céu logre sucesso. Ambientes complexos já demonstraram que não é possível fazer da guerra algo limpo. A insurgência é, por natureza, suja. Ela ocorre no meio do povo, entre edifícios, esgotos, becos e vielas, e por isso demanda tropas treinadas e dispostas a enlamear os coturnos. Como os casos do Afeganistão e do Iraque também demonstraram, é mais fácil começar uma guerra do que terminá-la. Nesse sentido, “destruir” o ISIS, como colocou Obama, vai demandar recursos, planejamento, suporte internacional e doméstico e, acima de tudo, persistência, tanto em campo de batalha quanto nas escolas militares. Repensar a guerrilha continua necessário.

[2] Estratégias de decapitação têm como objetivo minar as cadeias de comando e controle do inimigo, seja através do assassinato de seus líderes, seja através da destruição de infraestruturas críticas.

[3] Segundo o site Out of Sight, Out of Mind, entre 2004 e 2013 os EUA empreenderam 383 ataques com drones no Paquistão, gerando a morte de 3213 pessoas. Dessas, apenas cinquenta eram alvos de alta prioridade.

Thiago Borne é doutorando em Estudos Estratégicos Internacionais – PPGEEI pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (thiago.borne@ufrgs.br)

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