Desenvolvimento como segurança: ressentimentos, entraves e a chave para o conflito Israel-Palestina, por Bruno Hendler

Em uma relação conturbada como a questão Israel-Palestina, não se pode analisar os picos recorrentes de violência sem compreender as causas profundas e os principais atores envolvidos. Por trás da recente escalada de violência entre Hamas e Israel se escondem o que os historiadores chamam de “estruturas de longa duração”, ou seja, processos que se desenrolam por décadas (ou até séculos) e que têm relação direta com os fatos retratados pela mídia de forma inevitavelmente superficial.

Ressentimentos estruturais

Dois processos de longa duração permeiam esse conflito secular. Em primeiro lugar, trata-se do ressentimento que os povos árabes alimentam em relação ao Ocidente como reflexo dos tempos do imperialismo europeu, das promessas não cumpridas e da divisão arbitrária e conveniente (para Inglaterra e França) do mapa do Oriente Médio ao final da Primeira Guerra Mundial. Este é um ressentimento que adquire diversas roupagens, mas é comum em boa parte do mundo não europeu ou não ocidental: chineses, indianos, povos africanos e latino-americanos têm em suas narrativas históricas uma forte dose de ressentimento e denúncias pertinentes em relação ao imperialismo europeu.

No caso específico do Oriente Médio, a criação do Estado de Israel em decorrência da partilha da Palestina pela ONU em 1947 (uma parte árabe, outra judaica) canalizou esse ressentimento para uma luta, tida como legítima porquanto anti-imperialista, das nações árabes recém-independentes contra o Estado judaico. Essa ideia de guerra justa, associada ao contexto de uma revolta terceiro-mundista em plena Guerra Fria, teve mais a ver com a busca por legitimidade interna de líderes como o egípcio Gamal Abdel Nasser do que com uma real preocupação com a criação de um Estado Palestino. Não por acaso, de 1948 a 1967, o Egito ocupou Gaza, a Jordânia ocupou a Cisjordânia e ambos pouco contribuíram para as bases de um futuro Estado árabe na Palestina. Era mais conveniente colocar os palestinos no limbo jurídico, não conceder-lhes direitos de cidadania egípcia ou jordaniana e mantê-los insatisfeitos, como refugiados, no front contra Israel.

O segundo processo de longa duração decorre da ampliação do território de Israel a partir de 1967 por meio de assentamentos em territórios que eram de direito dos palestinos. A lógica de ocupar territórios para devolvê-los em troca de paz funcionou para Israel ao negociar com Estados soberanos como o Egito, mas não foi bem sucedida na relação com os palestinos. É bem verdade que em sua carta de fundação de 1964, antes mesmo do início dos assentamentos, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) já pregava a destruição do Estado de Israel – ainda que os ocupantes, naquele momento, fossem Egito e Jordânia.

Porém, com a construção e a ampliação dos assentamentos além das fronteiras de 1967, principalmente após a ascensão do Likud em 1977, os territórios incorporados por Israel gradualmente perderam o sentido de “margem de segurança” contra possíveis ataques, tornando-se motivo de humilhação concreta para os palestinos. Portanto, ainda que em nome da segurança em relação aos seus vizinhos que, na Liga Árabe, declaravam não negociar, não reconhecer e não celebrar a paz com Israel, este país passa a enfrentar o dilema de entregar totalmente Cisjordânia e Gaza para os palestinos e se expor a uma nova invasão a partir da Jordânia e do Egito; ou controlar esses territórios e incorporar a população palestina ao Estado de Israel, dando margem à ameaça demográfica sobre a identidade judaica. E a solução encontrada foi um meio termo com custo altíssimo no longo prazo: controlar partes de Gaza e Cisjordânia e não incorporar a população árabe a Israel, mantendo-a em um limbo jurídico aberto pela ocupação árabe e obstando a criação de um Estado palestino.

Assim, as duas estruturas de longa duração reforçaram ressentimentos mútuos ao longo das décadas: israelenses com o temor de que as nações árabes estariam dispostas a atacar a qualquer momento (como realmente o fizeram em algumas vezes); e palestinos com a crença de que Israel ocuparia toda a região em nome da segurança ou dos desígnios bíblicos. E, a partir dos anos 1980, a linha do tempo dos ressentimentos estruturais poderia facilmente ser chamada de “a história das oportunidades desperdiçadas pela intransigência de líderes de ambos os lados”.

Desenvolvimento como segurança

Seria muita pretensão diagnosticar as causas e apontar as soluções do impasse nas negociações de paz entre israelenses e palestinos. Ainda assim, é possível identificar dois grandes empecilhos e uma solução no longo prazo para essa controvérsia secular.

Assentamentos.

Os exércitos regulares dos países árabes não representam mais um perigo de ataque às fronteiras de Israel, de forma que a expansão dos assentamentos judaicos não tem legitimidade moral nem tampouco estratégica. Pelo contrário, o sequestro e assassinato dos três meninos judeus em junho deste ano só foi possível porque eles estavam em território ocupado, ou seja, os colonos não são apenas uma razão para a insatisfação dos palestinos, mas também um alvo para a execução de crimes fundados no ressentimento estrutural e, portanto, um entrave nas negociações. Diante da ascensão da direita (com o Likud) e da extrema direita israelense, o cenário neste caso não é promissor.

Terrorismo.

Pouco promissora é também a resposta de Israel aos constantes ataques terroristas do Hamas. Para além do famigerado dilema da proporcionalidade, a simples necessidade de reedição da incursão militar de 2008-2009 é argumento suficiente para demonstrar que, se Israel quer proteger seus cidadãos dos mísseis do Hamas, está fazendo isso errado. Novos túneis serão construídos com dinheiro de doações internacionais, novos escudos humanos serão utilizados e novos mísseis serão presenteados pelo Irã. O povo palestino, que elegeu democraticamente o Hamas em 2006, foi sequestrado por este mesmo grupo que travou uma guerra fratricida para expulsar o Fatah da Faixa de Gaza no ano seguinte.

Logo, o jargão utilizado por revistas e jornais mundo afora faz sentido: Israel ganha a batalha, mas perde a guerra. Perde porque na guerra do Hamas, “quanto pior, melhor”.

Um caminho a ser trilhado

Quando uma negociação internacional no âmbito político-militar é travada por uma sequencia infrutífera de rodadas de negociação, outros tabuleiros precisam ser colocados em jogo para, gradualmente, destravar o impasse central.

Por ser o lado mais forte e mais rico, Israel tem uma maior variedade de peças a sua disposição, mas insiste em usar sempre as mesmas. Devido ao histórico comprovado de ameaças militares à sua existência, a resposta do país a ataques palestinos tende a ser também militar. Não há dúvida que as intenções do Hamas são as mais pérfidas possíveis, mas o grupo não tem capacidade material para executá-las – e Israel confunde intenções com capacidades.

No momento em que Israel perceber que a ameaça à sua existência não é o Hamas e sim a inviabilidade econômica da Palestina, um passo importante terá sido dado. Em termos técnicos de Relações Internacionais, Israel precisa securitizar a inviabilidade econômica da Palestina, ou seja, perceber este fenômeno como uma ameaça e atuar de forma a reduzi-lo no longo prazo. Afinal, o terrorismo se alimenta sim de fanatismo religioso, mas surge também da pobreza e da falta de perspectivas de vida.

O remédio imediato para uma nação em crise pode se tornar um veneno para sua economia no longo prazo: as doações internacionais humanitárias. Se não calibradas na dose certa e na duração, as doações financeiras tendem a enriquecer uma elite política corrupta e descompromissada. Já as doações de materiais tendem a ser sequestradas por essa mesma elite que as revende no mercado negro, as utiliza para se perpetuar no poder e, no caso do Hamas, também as utiliza para alvejar civis do outro lado da fronteira.

Em um ambiente onde o ressentimento só faz crescer, a ideia de integração econômica pode parecer descabida, mas é a única solução no longo prazo. Israel deve investir na infraestrutura, na população, na indústria e nos serviços de Gaza e Cisjordânia, seja por meio do turismo religioso, da atração de investimentos externos ou da formação de profissionais em diversas áreas. Até mesmo adotar programas sociais inspirados no Brasil para injetar dinheiro nos territórios palestinos e ocupar o espaço do Hamas nos serviços sociais prestados à população.

É claro que a Palestina não tem grandes vantagens competitivas para atrair indústrias ou serviços, mas este poderia ser um caso excepcional de manipulação das leis de mercado para criar um ambiente artificial de desenvolvimento que, gradualmente, ganharia vida própria, fortaleceria a liderança do Fatah e destravaria o tabuleiro político. Israel precisa usar a variedade de peças não-militares que tem a seu dispor e confiar em líderes moderados do outro lado. Não há outra opção a não ser o desenvolvimento econômico da Palestina como sinônimo da segurança de Israel.

Bruno Hendler é professor do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba – Unicuritiba (bruno_hendler@hotmail.com)

1 Comentário em Desenvolvimento como segurança: ressentimentos, entraves e a chave para o conflito Israel-Palestina, por Bruno Hendler

  1. Você iniciou com uma ótima analise, mas esqueceu de pontos muito importantes e se perdeu no final com uma “escolha de lado”.
    Vou te explicar o porquê.

    Um dos pontos mais fundamentais do período de descolonização européia, foi a conjuntura local da população e seus desejos.
    A população árabe, desejava majoritariamente o “neo-califado”, politico, fatwazista, e centralizador, mas disputas religiosas e a incompreensão européia das estruturas de poder no mundo árabe, fizeram com que fronteiras rasgassem territórios e encapsulassem população com visões diametralmente opostas de mundo em estados artificiais.

    Outro ponto a se ressaltar, era de que nunca houve uma clara divisão populacional entre aqueles que habitavam damasco e aqueles que habitavam nablus, ou seja, nunca havia tido um povo exclusivamente palestino, ou exclusivamente sirio. Era tudo um só.
    Quando a frança e grã-bretanha dividiram suas colonias, dividiram a pequeníssima população árabe que residia na Samária de sua grande metrópole damasco.
    Por isso, houve uma inicial resiliência para que os britânicos considerassem uma palestina judaica, também árabe. Já que estes consideravam os aldeões, parte populacional da Siria.
    Isso, unido ao fato de que a palestina era então praticamente inabitada até o meio do século XIV, e tinha em sua parca população uma maioria judaica que foi constatada pelo britânicos devido ao censo de Montefiore, fizeram com que eles considerassem a Palestina, um direito histórico aos judeus na declaração Balfour, apesar da minoria árabes que habitava a região neste ano de 1918, ja que, por outro lado, havia minoria de judeus em novos países árabes, como siria, libano e iraque que nunca reclamaram dessas independências.
    O problema todo iniciou em 1922, quando os judeus refugiados da europa finalizaram as obras de drenagem e limpeza na região erradicando a malária, um dos principais motivos da Palestina ser inabitada até então, isso estimulou a moradia e o comércio na terra santa, que então trouxe milhares de imigrantes tanto árabes quanto Judeus.
    Esse fluxo migratório culminou em disputas nacionalistas e conflitos sangrentos como o massacre de judeus em hebron 1929.

    Mais um ponto interessante, é o caso dos 800 mil judeus refugiados que foram expulsos dos países árabes em 1948 e foram acolhidos em Israel. Inclusive, muitos desses com ambições nacionalistas em territórios como Sidon no libano, e Sura e Pumbedita no Iraque que nunca chegaram a ser realizados, assim como os desejos dos hoje palestinos.
    Este ponto inclui no pensar Israelense uma sensação de injustiça que impede qualquer confiança para diálogos, já que situações identicas são hoje tratadas de formas diferentes.

    Outros pontos mais modernos que entravam a paz e que valem ser lembrados, são:

    O contraprodutivo BDS, que pune inclusive os próprios palestinos, desempregando muitos que trabalham em empresas Israelenses como foi o caso da Sodastream.
    Esse movimento ainda cria a indignação daqueles que assistem mais um show de demonização de Israel do que a busca verdadeira por Paz.
    E por fim, o movimento ainda é um tiro no pé, já que o movimento reativo StandWithUs gerou mais investimentos extras em Israel POR CAUSA do movimento, do que os que resolveram efetivamente boicotar.

    Mais um ponto que vai de encontro com a paz, é a DES-educação em territórios palestinos, que praticam o boicote ao diálogo e o incentivo ao conflito para as novas gerações. Livros escolares que apagam Israel como um todo do mapa, ou acampamento de férias que mais parecem com trinamento de guerrilhas para crianças, não são racionais em um plano futuro de Paz.

    Veja que agregando esses pontos, a analise fica bem concisa e realista, e permite uma real busca de soluções.