Para que serve o embargo russo sobre alimentos do Ocidente nas negociações sobre a Ucrânia?, por Thiago Lima

A escalada da tensão entre a Rússia e o Ocidente chegou ao campo agroalimentar. Como resposta às sanções do Ocidente, A Rússia adota a proibição total para a importação de carne de vaca, porco, verduras e hortaliças, frutas, aves, pescado, queijos, leite e produtos lácteos de União Europeia, Estados Unidos, Austrália, Canadá e Noruega, anunciou o primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev” (Exame.com. Rússia fecha mercado a quase todos os alimentos de UE e EUA. 07 de agosto de 2014. – http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/russia-fecha-mercado-a-quase-todos-os-alimentos-de-ue-e-eua).

A mídia tem noticiado que os principais beneficiários nessa medida serão os países latino-americanos, com destaque para o Brasil, especialmente no caso de carnes. Mas qual o potencial de o embargo russo alterar a posição negociadora do Ocidente? O que essa medida representa na mesa de negociação? A avaliação dessas questões deve levar em conta que embora a interrupção das compras russas deva causar perdas para as exportações agrícolas dos países do Ocidente, ainda que em graus variados, ela pode significar mais do que a simples interrupção das vendas de alimentos.

Como todo embargo direcionado a produtos específicos, o objetivo é afetar os atores domésticos nos países do Ocidente, de modo que esses pressionem seus governos a modificarem sua política externa a fim de que possam retomar os seus negócios. Nesse caso, o primeiro alvo dos russos são os produtores agropecuários que, como enfatiza a literatura de ciência política, possuem um poder político desproporcional nos países ocidentais – sua influência política é muito superior à sua contribuição para o PIB e para o conjunto da força de trabalho.

A interrupção das compras russas, entretanto, gera dois efeitos negativos além do mais imediato, que é a diminuição da receita dos agroexportadores. Em primeiro lugar, ela abre o mercado russo para competidores tradicionais e novos. Ela oferece a oportunidade de os consumidores russos conhecerem novos produtos e fornecedores, podendo levar a uma mudança no padrão das importações russas no longo-prazo. Adicionalmente, o embargo abre uma janela de oportunidade para que os competidores do Ocidente invistam no aumento da produtividade e da qualidade.

Dois episódios dos anos 1970 dão a dimensão do problema. 1) O desenvolvimento da soja no Brasil recebeu um grande impulso japonês quando os EUA unilateralmente bloquearam suas próprias exportações do produto. O Japão fomentou a produção da soja brasileira para ter um fornecedor alternativo, contribuindo para o surgimento de um formidável rival para os americano. 2) A imposição, pelo presidente Carter, de um embargo às exportações de trigo para a URSS foi enfraquecida pela ira dos exportadores americanos que tinham no bloco uma mina de ouro. Eles não só fizeram forte pressão política contra a medida, como também furaram o embargo ‘triangulando’ suas vendas.

Por outro lado, a diminuição da receita dos exportadores do Ocidente pode significar dificuldades de investimento, o que leva ao segundo efeito negativo. Efeito este que aumenta em relevância conforme se retrai a capacidade de inversão dos produtores agropecuários.

A produção agropecuária de ponta, como é a do Ocidente, é altamente intensiva em tecnologia. Isso significa que o que ocorre dentro das fazendas é intimamente dependente de

insumos industriais, químicos, de biotecnologia, entre outros. A diminuição da receita dos exportadores significa, portanto, que as vendas desses fornecedores de insumos serão afetadas. Estamos agora falando dos interesses de empresas gigantescas como Monsanto, Cargill, Archer-Daniels-Midland, John Deere e Dupont, para ficar somente com as de sede nos EUA. A relação entre esses capitais e o Estado pode ser muito mais estreita do que a dos exportadores agrícolas.

Adicionalmente, e em conexão com o primeiro efeito, se a intenção e a capacidade de investimento aumentam nos países latino-americanos, as gigantes do agronegócio podem também direcionar seus investimentos para esses países, deixando desfalques nos ocidentais.

A produção agropecuária altamente intensiva em tecnologia normalmente ocorre viabilizada por empréstimos que são contraídos a cada novo ciclo produtivo. A interrupção da receita das exportações pode implicar que esses agroexportadores terão dificuldades para quitar suas dívidas, o que pode reverberar no sistema bancário, particularmente de bancos rurais. Agentes financeiros são atores com estreitas relações com o Estado, como se sabe. Além disso, se a receita esperada das fazendas diminui, tende a diminuir também o valor da terra, e a terra é um dos principais ativos utilizados como garantias para a contração de novos empréstimos.

Por fim, a queda da receita dos exportadores normalmente é amortecida com o aumento dos subsídios agrícolas nos países do Ocidente. Isso significa aumentar a pressão sobre o orçamento num momento em que muitos daqueles países passam por crises fiscais.

A Rússia é um dos 5 maiores importadores mundiais de alimentos segundo a OMC. Em que medida seu embargo causará danos no Ocidente? Depende do grau de vulnerabilidade dos segmentos agroexportadores de cada deles ao mercado russo, isto é, da capacidade de encontrarem compradores alternativos. Essa tarefa pode ser mais difícil para eles, especialmente para os europeus, do que a da Rússia de encontrar fornecedores para suas demandas básicas. É provável, aliás, que os consumidores russos também sejam afetados negativamente pela medida pelo menos num primeiro momento, tanto em termos de custos quanto de hábitos alimentares, mas ao que parece o sistema político da Rússia é menos poroso a interesses societais do que os dos ocidentais.

Num cenário ampliado, embora a medida possa parecer insignificante do ponto de vista das grandes economias ocidentais, ela pode ser bastante atrativa para os países latino-americanos e pode aproximá-los um pouco mais da Rússia. Para o Brasil, isso pode representar não apenas uma oportunidade para expandir as exportações e conquistar um olhar mais benevolente dos russos para não sofrer com os frequentes embargos a carne, mas também uma via para intensificar suas relações transnacionais com o parceiro do BRICS, ao mesmo tempo em que reafirma a autonomia de sua política externa.

Thiago Lima é  Professor Adjunto de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba – UFPB (thiagolima3@gmail.com).

2 Comentários em Para que serve o embargo russo sobre alimentos do Ocidente nas negociações sobre a Ucrânia?, por Thiago Lima

  1. A pergunta é: a produção agropecuária brasileira tem capacidade produtiva ociosa para direcionar suas exportações ao grande mercado da Rússia sem danificar mercados-alvo tradicionais? Essa questão determina, na minha opinião, se teremos como aproveitar essa “janela de oportunidade” ou perdê-la para quem quer que seja.

  2. E interessante que a Russia tenha encontrado um mecanismo especificode resposta. Embargo com embargo embora bem especifico sobre o que sofre sancoes. Comeca um jogo de consequencias imprevisiveis mas que tera significado economico e financeiro parav as partes e para terceiros. A Russia mostra assim que tambem possui instrumentos para contrapor-se ao Ocidente nao so na arena militar…Acredito que em funcao do poderio da agroindustria americana esta utilize seus lobbies em Washigton para amainar o ambiente e trazer de volta um mercado importante para si. A Monsanto e suas congeneres nao vao ficar sentadas a espera que o problema da Ucrania se resolva…