O conflito em Gaza e o esfacelamento do modelo ONU, por Gisele Passaúra

A recente situação em Gaza tem tornado evidente a completa exaustão do modelo ONU concernente à garantia tanto de direitos fundamentais do ser humano, quanto à tão cobiçada “paz mundial”. Contudo este não é um debate recente haja vista que o histórico depõe contra este organismo internacional.

Durante a Guerra Fria o mundo presenciou uma existência praticamente simbólica do Conselho de Segurança, já que o poder de veto atribuído a EUA e URSS (como membros permanentes) impedia qualquer ação concreta do organismo. Após a queda de Berlin, a situação não se alterou e a impassividade do órgão frente aos mais sangrentos conflitos internacionais mostrou-se constante. Neste sentido, o Conflito da Bósnia (1992 – 1995) pode ser considerado o primeiro grande evento em que uma limpeza étnica incalculável fora utilizada sem que uma intervenção internacional fosse feita. Aliás, o início da guerra lembra muito o estágio atual em Gaza: Sarajevo sofreu um cerco que impossibilitava o acesso da população a recursos como água, eletricidade e ajuda humanitária. Isto sem contar os esforços sérvios em exterminar seus oponentes, inclusive no que dizia respeito às futuras gerações. Além dos assassinatos de civis masculinos (fossem eles idosos, adultos ou crianças), Sérvia ainda promoveu a instalação de “campos de reprodução” em que milhares de mulheres bósnias, confinadas, sofriam estupros diários na intenção de reprogramar uma nova geração de sérvios e impedir a perpetuação do lado oposto.

O genocídio de Ruanda em 1994 pode ser percebido como outro exemplo fatídico desta ineficiência, uma vez que em apenas três meses acredita-se que oitocentas mil pessoas tenham sido assassinadas sem a menor mediação das Nações Unidas. Ainda no final daquela década o mundo assistiu com olhos apáticos o maior conflito, em número de mortes e quantidade de países envolvidos, desde a Segunda Guerra Mundial, a saber: o conflito na República Democrática do Congo (RDC) entre os anos de 1998 e 2004. Neste contexto ao menos oito países tiveram participação direta no episódio (RDC, Angola, Namíbia, Zimbábue, Chade, Ruanda, Uganda e Burindi) e outros tantos indiretamente, sendo que a África do Sul e a Líbia foram os exemplos mais evidentes. Para ter-se uma ideia da gravidade deste evento é importante destacar que as consequências do conflito podem ser sentidas até hoje. Ou seja, durante duas décadas, a guerra chegou a atingir o patamar dos seis milhões de mortes e apenas recentemente a ONU autorizou os seus capacetes azuis a intervirem na situação.

Já no terceiro milênio assistiu-se ao último suspiro do agonizante Conselho de Segurança, quando contrariando a todas as decisões deste órgão, os EUA invadiram o Iraque (2003) com o falacioso argumento acerca das “armas de destruição em massa” que Saddam possuía. Vale lembrar que isto fora resultado direto da Guerra ao Terror motivada pelos ataques de 11 de Setembro. Aliás, interessante destacar também que foi apenas naquela ocasião que diversas organizações nacionais ao redor do mundo receberam a alcunha de “grupos terroristas”, literalmente da noite para o dia. Quer dizer, inimigos foram forjados num estalar de dedos. Só para citar dois exemplos emblemáticos, o Al-Shabab na Somália e (pasmem!) o Hamas: antes de 2001 não eram considerados terroristas pelos Estados Unidos.

A atual situação em Gaza, portanto, apenas reforça a nulidade deste modelo de “gestão” da ONU embasado em cinco membros do Conselho de Segurança que possuem o poder de vetar quaisquer propostas que lhes desagradem. Neste sentido, a presente conjuntura possui ainda um fator agravante no que diz respeito às farpas trocadas entre EUA e Rússia, situação que se prolonga há anos e não somente após o incidente com o MH17. Só para citar os exemplos mais recentes desta “nova” bipolarização, os eventos envolvendo Síria e Irã, evidenciaram uma vez mais que o padrão de veto entre os membros está ultrapassado e não condiz com as dinâmicas internacionais hodiernas.

Para os palestinos em Gaza resta a luta armada, uma vez que Israel não apenas possui ao seu lado um membro do Conselho de Segurança que discordará de qualquer proposta para a limitação da investida israelense, como ainda em outros âmbitos, Israel não possui o costume de acatar as recomendações das Nações Unidas. Ou seja, se de um lado Golias, bem amparado pela ineficácia do sistema internacional, não deve cessar suas incursões, por outro, Davi não poderá aceitar qualquer oferta inferior ao fim do boicote à Gaza, caso contrário, as quase duas mil mortes e os mais de sete mil feridos teriam sido em vão. De qualquer maneira, o prognóstico não parece animador.

Gisele Passaúra é mestranda em Antropologia Social pela Universidade Federal do Paraná – UFPR (giselepassaura@hotmail.com)

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