A política externa do Egito: entre Estado-Nação e pan-islamismo, por Natasha Pergher Silva & Pedro Perfeito da Silva

A análise histórico-estrutural do Egito permite identificar uma dualidade na política externa que se caracteriza pelos seguintes tipos ideais: por um lado, há um direcionamento rumo ao Estado-Nação orientado por valores ocidentalizantes, calcado na soberania política e na internalização do centro de decisões econômicas; por outro, há o fortalecimento de uma resistência da tradição islâmica pautada no pan-islamismo como utopia civilizacional. Sob esta ótica, os recentes acontecimentos no Oriente Médio – escalada do conflito Israel-Palestina e declaração da fundação do Estado Islâmico – evidenciam essa polarização e colocam questões relevantes para a agenda política egípcia. Abaixo, sistematizamos os impactos desses acontecimentos na política interna e externa do Egito, por meio de um resgate de médio prazo dos principais fatos políticos ocorridos no país.

A compreensão da conjuntura política egípcia passa pelo entendimento dos movimentos sociais e políticos testemunhados na região do norte da África e do Oriente Médio entre 2011 e 2012. Em todos estes se destaca o papel do islamismo político em suas diversas matizes, que vão desde um islamismo reificado – como partidos vinculados à Irmandade Muçulmana – até o tradicional – como vertentes derivadas da corrente teológica wahabita. Por reificação entende-se a aceitação do Estado-Nação e a disposição de governar junto a forças políticas não-islâmicas. Por outro lado, “tradição” significa, no limite, a utopia de reconstrução do califado original.

No Egito, o foco da análise recai sobre as relações de poder no tripé que sustentava o regime de Mubarak anterior a Primavera, formado pela elite política, pelas forças de segurança ligadas ao Ministério do Interior e pelas Forças Armadas. A primeira era constituída pelo grupo de lobistas liberais que circundavam Gamal Mubarak, filho do ex-presidente; a segunda correspondia aos operadores do Partido Nacional Democrático; e a terceira, aqui chamada de burguesia burocrática, concentra o poder militar e o controle do setor de infraestrutura – prioritário devido aos projetos relacionados ao Canal de Suez e à Represa de Assuã.

A adesão a reformas neoliberais pela elite política e pelas forças de segurança chocou-se com os interesses econômicos e estratégicos dos militares, os quais se movimentaram avalizando a ascensão da Irmandade Muçulmana. Soma-se a isso a insatisfação popular e das classes médias com o sistema político não-democrático, os baixos salários, os empregos de baixa qualidade e a sobrevalorização do aparato de segurança ligado à “Guerra ao Terror”.

Mouhamed Morsi, eleito em metade de 2012, teria de acomodar os interesses dos militares (ainda no controle do aparelho estatal), da classe média ocidentalizada e dos wahabitas, buscando a estabilidade interna do país, marcado por fortes divisões. Ao priorizar uma política externa de corte mais islâmico em detrimento da conciliação com os militares, estes protagonizam o golpe militar de julho de 2013 com o apoio dos partidos seculares e dos salafistas (wahabitas). O apoio destes pode ser entendido como um movimento tático para desalojar a direção moderada da Irmandade, hegemônica no islamismo político do Egito.

Esses fatos culminam na institucionalização do governo militar sob a direção do General Sissi, em maio de 2014. A conjuntura pós-eleição presidencial, portanto, se conforma da seguinte maneira: i) os militares governam de jure e de facto, devido à incapacidade dos partidos seculares em organizar sua base social; ii) a cúpula reificada da Irmandade Muçulmana está sob forte repressão, embora exista uma ampla base de apoio a ser disputada por militares e salafistas; iii) estes últimos, embora não tão numerosos, tem a alternativa de se vincular à estratégia do califado, impondo este tema à agenda política egípcia.

Nesse contexto, o conflito Israel-Palestina constitui uma parte relevante da agenda política egípcia. Tal conflito foi fundamental para consolidação do Estado-Nação egípcio – em processos como a Crise de Suez (1956) e a Guerra de Yom Kipur (1973) – o qual opunha o nacionalismo árabe nasserista a Israel tanto por questões energéticas e securitárias quanto pela necessidade de acomodar o discurso islâmico de solidariedade à Palestina. O cenário altera-se com os Acordos de Camp David (1978), em que os militares perdem um elemento de conciliação com o islamismo político e passam a enfrentar maiores dificuldades na política externa voltada ao Oriente Médio.

Sendo as divergências entre a Irmandade Muçulmana e os militares neste tema uma das causas da deposição de Morsi, o embate em Gaza durante julho de 2014 coloca um problema ao governo Sisi. Por um lado, a ascensão deste significou um endurecimento nas relações com o Hamas, por outro, o aprofundamento da conflagração colocou a necessidade do Egito oferecer-se (sem êxito) como mediador buscando acomodar o discurso interno islâmico pró-Palestina. Tal processo gera duas decorrências: i) a impossibilidade de omissão frente ao conflito Israel-Palestina por parte do Egito; e ii) o risco de que o não-equacionamento da questão acima pelo governo fortaleça os grupos salafistas e pró-califado.

Este último elemento trata da segunda questão indispensável para a estabilidade política do Egito: a recente declaração de criação do Estado Islâmico, por parte dos extremistas sunitas combatentes na guerra civil da Síria. O jihadismo atual tem sua gênese na fundação da Irmandade Muçulmana egípcia, em 1920, que tinha como telos a constituição do califado nos estados muçulmanos do médio oriente e norte da África –corrente wahabita ou tradicional. Nesse sentido, a afirmação do Estado Islâmico, embora desacreditada e ironizada por líderes muçulmanos – incluindo sunitas –, pode influenciar o movimento jihadista ao redor do mundo, através da radicalização de ações em prol do califado. Os recentes ataques nas fronteiras egípcias com Sudão e Líbia, protagonizados por grupos contrários ao governo Sisi, são exemplos evidentes da possível escalada de violência que a constituição do Estado Islâmico pode gerar na região.

As diferentes percepções sobre a declaração de criação do califado, liderado por Abu Bakr al-Baghdadi, e a propagação de uma ideologia radical de adesão à jihad mundial, sem que se abra um diálogo com as demais correntes muçulmanas distintas daquela seguida pelo califa, no entanto, levantam dúvidas quanto à real legitimidade desse movimento perante os próprios grupos islâmicos. Para os governantes do Egito, a desaprovação do califado inaugurado pela oposição síria e iraquiana pode representar um alento momentâneo e uma justificativa de longo prazo para a proibição da participação política institucionalizada dos partidos islâmicos dentro do Egito. É por isso que qualquer análise sobre a conjuntura atual do Oriente Médio deve levar em conta a política externa e os interesses egípcios.

Natasha Pergher Silva é Mestranda em Economia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – PPGE-ED/UFRGS, graduanda em Relações Internacionais pela mesma universidade e bolsista CAPES/CNPq (npergher@gmail.com)

Pedro Perfeito da Silva é mestrando em Economia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – PPGE-ED/UFRGS e bolsista CAPES/CNPq.

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