O Potencial de Gás Natural da Ásia Central, por Paulo Duarte

Segundo o Global Business Reports, a região do Cáspio possui “reservas comprovadas de gás natural de mais de 6 triliões de metros cúbicos”, a maior parte das quais detidas pelo Turquemenistão e Uzbequistão (2012: 1). Por outro lado, a Rússia é umatorfundamental no que respeita ao setor do gás natural centro-asiático, sendo que “ao importar este recurso da região, Moscovo pode protelar a sua própria (e mais dispendiosa) produção de gás em Yamal e nos mares de Barents e de Kara, sem sofrer perdas nas exportações e no consumo” (Azarch, 2009: 61). 

De acordo com a Energy Information Administration, “o Turquemenistão está, atualmente, posicionado entre os seis países detentores das maiores reservas de gás natural do mundo, e entre os 20 maiores Estados produtores de gás natural do mundo”, possuindo “reservas de aproximadamente 7 triliões de metros cúbicos em 2012, um aumento considerável face a cerca de 2 triliões de metros cúbicos, em 2009” (Country Analysis Briefs – Turkmenistan, 2012: 4). Segundo Vladimir Socor (2012), o Turquemenistão produziu 59.5 biliões de metros cúbicos (bmc) de gás natural em 2011 – uma pequena fração de um vasto potencial ainda por explorar – sendo que as exportações de gás turquemeno, nesse ano, foram de 10 bmc para a Rússia, outros 10 bmc para o Irão e 14 bmc para a China.

O Turquemenistão tem vindo a tornar-se, cada vez mais,o foco dos investidores internacionais, nomeadamente “desde a confirmação, por parte da consultora energética Gaffney, Cline & Associates, de que as reservas de gás natural turquemenas podem, na verdade, estar classificadas entre as cinco mais importantes do mundo” (Downs, 2011: 76). O gigante South Yolotan-Osman, localizado no sudeste do Turquemenistão, detém, só a título individual (isto é, sem se tomar, aqui, em consideraçãoas outras jazidas do país),entre 4 a 14 triliões de metros cúbicos de gás natural (Chazan, 2008). Além disso, existem várias jazidas nas bacias do Amu Darya, do Murgab e do sul do Cáspio (Pannier, 2008). As duas principais jazidas de gás natural são o Dauletabad e o Shatlyk (Bahgat, 2009; CIA World Factbook, 2013).

A infraestrutura de transporte energético existente no país está, fundamentalmente, direcionada para a Rússia, frutodo legado de mais de um século de ligações, primeiro à Rússia czarista e,posteriormente, à União Soviética. O falecimento de Niyazov, em dezembro de 2006, alimentou uma certa esperançade que o Turquemenistão abrisse o seu setor energéticoao mercado internacional (Daly, 2008).Naturalmente, os grandes atores, isto é, “os Estados Unidos, a União Europeia e a Rússia querem adiantar-se enquanto parece haver sinais de uma certa abertura” (Chivers, 2007: para.6). Os três maiores investidores, que têm celebrado vários acordos energéticos com o Turquemenistão, desde a sua independência, são a russa Gazprom, a argentina Bridas, e a norte-americana Unocal (WorldPress.org, 2010).

Quanto ao Uzbequistão, o país é um dos maiores produtores de gás natural da Comunidade de Estados Independentes,“com cerca de 1,8triliões de metros cúbicos de reservas comprovadas de gás natural em 2012”, o que faz dele “o terceiro maior produtor de gás da Comunidade de Estados Independentes e um dos 10 maiores a nível mundial” (Energy Information Administration, 2012: 4). Embora as suas reservas de petróleo não sejam consideráveis – o The Oil and Gas Journal (2013)estima que o Uzbequistão possuía 594 milhões de barris de reservas comprovadas de petróleo em 2012 -o país é, contudo, rico em gás natural e dotado de uma posição geográfica propícia ao trânsito de energia para a China ou para o sudeste asiático. Por outro lado, segundo Michael Denison, “existem promissoras reservas energéticas na bacia do Mar de Aral e no planalto do Ustyurt, no Uzbequistão ocidental, que podem ser facilmente conetadas à infraestrutura, mais ampla, de trânsito regional” (2009: 8). De acordo com a Energy Information Administration, “o Uzbequistão produz gás natural a partir de 52 jazidas”, sendo que 12 delas são responsáveis por “mais de 95% da produção de gás do país” (Eshchanov, 2006: 12). Estes depósitos estão concentrados na margem uzbeque da bacia do rio Amu Darya, na região sudeste e no planalto central do Ustyurt, próximo do Mar de Aral, na zona ocidental do país (Energy Information Administration, 2012).

Já o Cazaquistão, onde, como refereo The Business Year (2013),existem cerca de 2 triliões de metros cúbicos de reservas de gás natural (as 14 maiores do mundo), éo 27º maior produtor mundial de gás natural, tendo produzido 1.3 bmc em 2010. De acordo com a AzerNews (2013), a produção de gás natural, em 2012, no Cazaquistão, aumentou 1.5% face a 2011, o equivalente a 40.1 biliões de metros cúbicos. Segundo o GlObserver, “o Cazaquistão é um importante país de trânsito, no âmbito das exportações de gás natural, a partir do Uzbequistão e do Turquemenistão, para a Rússia e para a China” (2011: para. 7). A maior parte das reservas de gás natural cazaques situa-se na região ocidental do país, sobretudo no campo de Karachaganak, que se estima possuir “reservas comprovadas de aproximadamente 1 trilião de metros cúbicos” (GlObserver, 2011: para. 1).

De acordo com a Global Security, “o Quirguistão possui cerca de 5.6 biliões de metros cúbicos de reservas de gás natural, embora estas sejam tecnicamente difíceis de explorar” (2013: para. 3). Atualmente, “o Quirguistão não dispõe de infraestrutura nem de capital financeiro para aumentar a exploração das suas reservas de gás natural, sendo que o país importa a maior parte do gás que consome do Uzbequistão” (Global Security, 2013: para. 4). Esta relação comercial tem sido difícil para ambos os países, tendo em conta que “o Quirguistão se atrasa, com frequência, no pagamento” e, por conseguinte, “o Uzbequistão interrompe o fornecimento de gás natural aos quirguizes”, o que causa “sérios problemas no inverno”, já que “o gás natural é utilizado quer para o aquecimento, quer para a produção de eletricidade” (Global Security, 2013: para. 4).

Por fim, estima-se que o Tajiquistão possua, à semelhança do Quirguistão, “também 5.6 biliões de metros cúbicos de reservas de gás natural” (Global Security, 2013: para. 6). Em 2000, “o Tajiquistão iniciou operações  no campo de Khoja Sartez, na região de Khatlon, e intensificou a exploração da jazida de Qizil Tumshuq no distrito de Kolkhozobod” (Global Security, 2013: para. 6). No entanto, uma vez que a sua produção doméstica de gás natural é escassa, “o Quirguistão importa aproximadamente 95% do gás que consome” (Global Security, 2013: para. 9).

Bibliografia

AzerNews, January 30, 2013, http://www.azernews.az/oil_and_gas/49040.html

Bahgat, G. (2009). Exporter Updates: Azerbaijan, Kazakhstan, and Turkmenistan, OIL & GAS Journal, 23, 23-24

Chazan, G. (2008), Turkmenistan Gas Field is One of World’s Largest, Wall Street Journal, October 16, http://online.wsj.com/article/SB122409510811337137html

Chivers, C. (2007).Turkmenistan Hails Leader and New Era After Election, New York TIMES, http://www.nytimes.com/2007/02/15/world/asia/15turkmenistan.html.

Daly, J. (2008). Analysis: Turkmenistan, Russia, and China, Energy Tech, http://www.energydaily.com/reports/Analysis_Turkmenistan_Russia_and_China_999.html.

Daly, J. (2008). World Politics Review, December 22, http://www.upstreamonline.com/live/article1323384.ece

Denison, M. (2009) Turkmenistan’s foreign policy: positive neutrality and the consolidation of the Turkmen regime, Central Asian Survey, 28: 4, 429-431

Denison, M., (2009). The EU and Central Asia: Commercialising the Energy Relationship, EUCAM Working Paper N.º 2

Downs, E. (2011). Inside China, Inc: China Development Bank’s Cross-Border Energy Deals, John L. Thornton China Center Monograph Series, Number 3

GlObserver, June 25, 2011, http://globserver.cn/en/kazakhstan/natural-gas

Global Security, 2013, http://www.globalsecurity.org/military/world/centralasia/tajik-energy.htm

Pannier, B. (2006).Economic Ties the Focus as Shanghai Group Meets, Radio Free Europe, Radio Liberty. September 15,http://www.rferl.org/featuresarticle/2006/09/416d92cb-03f1-4cbe-a9d5-fc6e37321147.html

Pannier, B. (2008). Independent Audit Shows Turkmen Gasfield ‘World Class’, Eurasianet Business & Economics, October 19, <http://www.eurasianet.org/departments/insight/ articles/pp101908.shtml>

U.S. Energy Information Administration, September 4, 2012, http://www.eia.gov/countries/analysisbriefs/Kazakhstan/kazakhstan.pdf

Paulo Duarte é investigador do Instituto do Oriente em Lisboa e doutorando na Université Catholique de Louvain (duartebrardo@gmail.com)

Seja o primeiro a comentar