O Pensamento chinês nas Relações Internacionais: Um breve Estado da Arte, por Renan Holanda Montenegro

O potente desenvolvimento econômico da China nas últimas décadas, sobretudo no período pós-1979, despertou a atenção da comunidade acadêmica internacional no sentido de melhor compreender o fenômeno do socialismo de mercado. A discussão desencadeou, em concomitância e também na sequência, uma série de estudos sobre as razões do crescimento do país, as particularidades do Partido Comunista, as contradições internas. Mais recentemente, aspectos da Política Externa e da visão que os chineses têm do resto do mundo viraram temas amplamente discutidos no locus acadêmico das Relações Internacionais.

 Um recente movimento criado pelos próprios pesquisadores chineses, no entanto, tem levantado um polêmico debate a respeito da necessidade de se analisar as ações da China com as lentes adequadas. Para eles, muitas conclusões tiradas são infundadas, já que teriam sido fruto de argumentos justificados pela ótica da teoria tradicional das Relações Internacionais. Zheng (2010) enaltece que a necessidade de se criar, ou fortalecer, uma teoria das RI com aspectos chineses é urgente porque as teorias existentes são inadequadas para entender o comportamento internacional do país, “uma vez que a China é percebida a depender do referencial teórico empregado”.

Neste artigo, tentaremos dar um breve panorama do desenvolvimento de um suposto pensamento chinês das Relações Internacionais. De início, cabe a ressalva de que o estudo das RI tem negligenciado ou, em alguns momentos, até esquecido o mundo não-ocidental no âmbito do desenvolvimento da disciplina. Quando se fala na evolução do campo teórico, essa constatação é ainda mais gritante. Acharya e Buzan, por exemplo, já questionam em um artigo escrito em parceria: Por que não existe uma teoria das relações internacionais não-ocidental?

Os autores notam que há certas semelhanças entre a evolução da Teoria das Relações Internacionais  (TRI) no ocidente e além dele, sobretudo na Ásia. Dois pontos são mencionados: 1. assim como a teoria ocidental utiliza de obras clássicas de Tucídides, Hobbes, Maquiavel e outros como ponto de partida, há também figuras clássicas centrais no pensamento religioso, político e até militar de nações asiáticas, como Sun Tzu, Confúcio e Kautilya; 2. em segundo lugar, o pensamento de líderes como Mao, Nehru e até Xiaoping traz bases sólidas para a interpretação da ordem internacional sob o viés asiático (ACHARYA & BUZAN, 2010).

 Essas constatações trazem à tona a questão de uma possível construção de uma nova teoria das RI com características chinesas. Qin (2010) nota que os aspectos teóricos das Relações Internacionais sempre foram tema de interesse da comunidade acadêmica chinesa e que, embora o país tenha desempenhado um papel importante como player internacional ao longo da história e possua uma tradição intelectual consolidada, não se pode falar na existência de uma teoria local da Política Internacional, embora as bases fundacionais dela já estejam plantadas.

Song e Chan (2000) explicam que, até os anos 1980, o ensino da Teoria das Relações Internacionaisvcomo conhecemos no Ocidente não existia na China. O que era ensinado sob o título de “Teoria da Política Internacional”, na verdade, consistia em interpretações do ponto de vista de autores como Marx, Engels, Lenin, Stalin e Mao. Foi somente após Xiaoping cunhar o termo “socialismo com características chinesas” que os pesquisadores nativos das RI começaram a discutir uma possível TRI chinesa.

O próprio desenvolvimento da TRI como campo de estudo fértil na China passou por variadas intempéries pelo fato de haver poucas obras clássicas disponíveis em mandarim. As primeiras traduções só começaram a ser disponibilizadas já nos anos 1990, sendo “A Política entre as Nações”, de Hans Morgenthau, o ponto de partida para esse processo. Dado que o ano de publicação da primeira edição da obra foi em 1948, pode-se inferir que o delay para que o livro chegasse em chinês foi de pouco mais de 40 anos (QIN, 2010).

Foi somente com as traduções de livros de pesquisadores como Keohane, Gilpin, Waltz, Buzan, Bull e outros – todos essenciais para um acurado estudo da evolução da disciplina da TRI – que a comunidade das Relações Internacionais na China começou a distinguir mais claramente a pesquisa das RI enquanto esforço acadêmico e enquanto uma ferramenta política. Até então, apenas a segunda faceta recebia maior atenção.

Sendo assim, de um lado, pode-se entender que uma suposta Escola Chinesa seria uma espécie de bloco de teorias de RI com características próprias da China mais do que uma escola  ideologicamente coesa, como nos moldes de uma Escola Inglesa, por exemplo. No entanto, desperta-se o questionamento sobre – tendo a China sua própria riqueza histórica, filosofia e ideais políticos – o porquê de não ser construída uma teoria autônoma com base nesse importante legado intelectual (Xiao, 2010).

É mister ressaltar que uma suposta Escola Chinesa não deve ter um compromisso ideológico em justificar ações feitas pelo governo central na seara externa, mas outrossim funcionar como um novo paradigma com critérios científicos, podendo ser usado amplamente dentro das discussões no âmbito da disciplina das Relações Internacionais. Pelo menos até o momento, os próprios acadêmicos envolvidos nessa discussão são, em geral, uníssonos em afirmar que uma Escola Chinesa tem potencial para existir, mas ainda não existe.

Hueckel (2012) explica que a busca por um corpo teórico de teorias das relações internacionais com valores da China tem sido baseada, assim como na economia, em uma combinação da modernização ocidental com as características nativas. Isso porque os acadêmicos têm trabalhado com análises ex-post, influenciadas pelo conhecimento já estabelecido pelos scholars ocidentais das RI. Ao concordar com essa visão, Cox (2011) argumenta que a mentalidade chinesa está situada em um contraste entre os princípios morais de virtude, elaborados por Confúcio, e uma espécie de “legalismo” que muito se assemelha ao realismo.

Nesta altura do debate, é possível identificar que a discussão sobre os aspectos chineses das RI ainda se encontra em estágio inicial. A dimensão que o tema vem ganhando recentemente, todavia, tem despertado cada vez mais interesse dos acadêmicos da disciplina, principalmente daqueles que já estudavam a China e dos que desenvolvem estudos no campo teórico. A emergência de novas matrizes de discussões teóricas no âmbito das RI fora dos países tradicionais – notadamente Estados Unidos e Inglaterra – reflete com clareza não só o reordenamento de forças em curso no sistema internacional, como também a necessidade de se pensar a disciplina sob novos prismas.

Referências Bibliográficas

ACHARYA, Amitav; BUZAN, Barry (2010). Non-Western International Relations Theory: perspectives on and beyond Asia. New York: Routledge.

COX, Robert W. (2010). “Historicity and international relations: a tribute to Wang Gungwu”. ZHENG, Yongnian (ed). China and international relations: The Chinese view and the contribution of Wang Gungwu. New York: Routledge. pp. 3-16

HUECKEL, Bettina (2012). “Theory of International Relations with Chinese Characteristics”. Diskurs. Vol. 8, nº2. pp. 34-65.

QIN, Yaqing. (2010) “Why is there no Chinese international relations theory?” Non-Western International Relations Theory: perspectives on and beyond Asia. New York: Routledge.

SONG, Xining; CHAN, Gerald (2000). “International relations theory in China”. HU, Weixing; CHAN, Gerald; ZHA, Daojiong. China’s International Relations in the 21st Century.Maryland: University Press of America.

ZHENG, Yongnian (2010). China and international relations: The Chinese view and the contribution of Wang Gungwu. New York: Routledge.

XIAO, Ren (2008). “Toward a Chinese school of International Relations?” ZHENG, Yongnian; GUNGWU, Wang. China and the New International Order.New York: Routledge.

Renan Holanda Montenegro é mestre em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ (renanholanda@bol.com.br)

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