A ciência & tecnologia dos Estados Unidos ON THE STAKE: O que os indicadores mostram?, por Fabricio Padilha

Este texto tem por objetivo elucidar algumas disparidades, em termos de Ciência e Tecnologia, entre os Estados Unidos (EUA) e os demais países. De fato, um conjunto de elementos diferencia os Estados Unidos dos outros países industrializados e em industrialização. Alguns indicadores, tais como gastos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), Educação, Pesquisadores, Publicações, Patentes, Exportação, e capacidade “científico-tecnológico-militar”, são relevantes para a presente análise. A busca por eles, bem como suas definições, foi feita através de leituras bibliográficas e verificações estatísticas. Para todos os efeitos, a finalidade é mostrar que gaps, quando se estabelecem nas relações internacionais, mesmo que em termos de C&T, demonstram relações de poder.

Um dos principais elementos que retroalimenta o poder dos Estados Unidos no Sistema Internacional e que faz manter um gap significativo entre ele e os demais países é a sua capacidade científico-tecnológico-militar. O país detém uma indústria de tecnologia militar própria, supridora de material avançado de defesa (SEMPERE, 2006). Ademais, seu material tecnológico-militar é uma referência mundial para a maioria das operações militares – além de estarem longe de sua obsolescência, são eficientes e superiores em comparação aos demais sistemas modernos.Os EUA passam por um ciclo de renovação rápida, apesar de diferentes passos, como foram a partir da II Guerra Mundial. Além disso, dispõem de instituições, organizações e recursos humanos necessários ao suporte dos seus sistemas tecnológico-militares – de sua concepção a sua execução; é explícito o peso das disciplinas avançadas em engenharia de sistemas e pesquisa de operações, principalmente nas Forças Armadas; e há uma ampla experiência em gestão, planejamento e aquisições ligada ao debate público sobre os objetivos e resultados de seus programas de defesa (SEMPERE, 2006).

Além de sua capacidade científico-tecnológico-militar, outros indicadores são indispensáveis para se pensar em recurso de poder, mesmo que não seja amplamente discutido. Os Estados Unidos é o maior investidor em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) do mundo. De acordo com a base de dados do Banco Mundial, a World Bank, Data & Statistics, os EUA dedicaram mais que 2,5% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em investimentos com pesquisa e desenvolvimento tecnológico desde a metade dos anos 1990, mantendo e superando essa faixa até os dias atuais. Entre 1996 e 2009, o investimento em P&D dos Estados Unidos em relação ao seu PIB superou a média dos investimentos dos países membros da Organisation for Co-operation and Development (OCDE) e a média mundial; além disso, manteve uma larga diferença em relação aos gastos em P&D da Rússia. A fim de esclarecimento, gastos em pesquisa e desenvolvimento são despesas correntes e de capital (públicos e privados) com o trabalho ‘criativo’ realizado de forma sistemática para aumentar o conhecimento, incluindo o conhecimento da humanidade, da cultura e da sociedade, bem como o uso do conhecimento para novas aplicações, cujo índice abrange a pesquisa básica, a pesquisa aplicada e o desenvolvimento experimental.

Não obstante, os Estados Unidos atribuem substancial importância ao papel que o Governo Federal, as Universidades e as Indústrias desempenham no fortalecimento de sua estrutura científica e tecnológica (MOWERY; ROSENBERG, 1993). De acordo com os dados fornecidos pelo Banco Mundial, desde os últimos anos da Guerra Fria, o país dedicou consideráveis proporções do seu PIB às despesas com Educação. De 1986 a 2010, os gastos em educação relativos ao PIB dos EUA alcançaram uma média de 5,5% ao ano e mantiveram superiores níveis em relação aos gastos dos países membros da OCDE na maior parte desse período. Este índice marca o total das despesas públicas (correntes e de capital) em educação, expresso em percentagem do PIB, em um determinado ano. As despesas públicas em educação incluem os gastos do governo em instituições de ensino (públicas e privadas), administração educacional, e transferências e subsídios para entidades privadas.

Ademais, os Estados Unidos dispõem do maior número de pesquisadores em P&D por milhão de habitantes. Entre 1997 e 2007, o país superou os índices da Rússia. Em 2003, marcou seu nível crítico e quase alcançou a faixa de cinco mil pesquisadores em P&D por cada milhão de pessoas que vivem no país. Consideravelmente diferente dos indicadores anteriores, nesse mesmo intervalo, a Rússia conseguiu competir com o padrão dos países da OCDE e atingiram aproximadamente 3.415 pesquisadores em P&D por milhão de habitantes em 2007. Esta marca mostra claramente uma herança das políticas soviéticas em Ciência & Tecnologia (C&T) da Guerra Fria. Pesquisadores em P&D são os profissionais que trabalham na concepção ou criação de novos conhecimentos, produtos, processos, métodos ou sistemas, e na gestão de projetos. Doutorandos de pós-graduação em P&D estão incluídos.

Do final da última década da Guerra Fria até 2009, os Estados Unidos publicaram, anualmente, em média, 200.000 artigos científicos e técnicos. Artigos científicos e técnicos de revistas se referem ao número de artigos científicos e de engenharia publicados nas seguintes áreas: Física, Biologia, Química, Matemática, Medicina Clínica, Biomedicina, Engenharia e Tecnologia, e Ciências Espaciais e da Terra. Em 2009, os Estados Unidos, sozinhos, produziram o equivalente a um quarto da produção mundial em artigos. Todos os países do mundo publicaram em revistas científicas e técnicas aproximadamente 800.000 artigos.

Neste mesmo ano, as aplicações em patentes por seus habitantes e suas exportações em alta tecnologia, simultaneamente, declinaram – talvez, a Crise Financeira de 2008 explique essa variação. As aplicações de patentes são os patenteamentos arquivados através do procedimento previsto no Tratado de Cooperação de Patentes ou com um escritório nacional de patentes de direitos exclusivos para uma invenção – um produto ou processo que fornece uma nova maneira de fazer algo ou oferece uma nova solução técnica para um problema. Uma patente fornece proteção para a invenção ao dono da patente por um período limitado, geralmente 20 anos. As aplicações de patentes nos Estados Unidos por seus residentes acompanharam um crescimento constante entre 1991 a 2007, e declinaram desde então. Em 2011, o número de patenteamento do país por seus residentes equivaleu a aproximadamente nove vezes o número de aplicações da Federação Russa; e a quantidade de registros de patentes nos países da OCDE, nesse mesmo ano, equivaleu a aproximadamente três vezes as aplicações americanas.

Apesar dos gastos americanos em P&D e Educação serem as maiores do mundo e possuir a maior quantidade de pesquisadores por milhões de habitantes, em 2007 o número de aplicações de patentes nos países da OCDE superou três vezes a quantidade de registros e cinco vezes as exportações de alta tecnologia dos EUA. Alta tecnologia é um produto com elevada intensidade de P&D, tais como as do setor aeroespacial, de computadores, produtos farmacêuticos, instrumentos científicos, e equipamentos elétricos. A entrada de dólares através das exportações de produtos tecnológicos de alta intensidade nos Estados Unidos entre 1998 e 2008 atingiu uma constante de US$ 200 bilhões. Enquanto que os países da OCDE conseguiram movimentar mais de US$ 1 trilhão somente em 2011, a Rússia, desde o fim da Guerra Fria, não superou a entrada de US$ 6 bilhões com vendas de produtos high-tech ao exterior.

Referências

MOWERY, David C.; ROSENBERG, Nathan. (1993). The U.S. National Innovation System. In: NELSON, Richard R. National Innovation Systems:a Comparative Analysis. New York, Oxford University Press.

SEMPERE, Carlos Martí. (2006). Tecnológía de la Defensa. Análisis de la situación española. Madrid: Instituto Universitario General Gutiérrez Mellado.

WORLD BANK. (2014). World Bank, Data & Statistics. Disponível em: data.worldbank.org

Fabricio Padilha é mestre em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas da Universidade Estadual de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas e Pontífica Universidade Católica de São Paulo – UNESP/UNICAMP/PUC-SP. (fabapps@hotmail.com)

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