#BringBackOurGirls: A influência das mídias sociais em questões internacionais, por Joana Lacerda Soares

Nessa análise, será explorado o caso do sequestro das trezentas meninas na Nigéria, conhecido como “Bring Back Our Girls”, e o impacto que as redes sociais e hashtag tiveram sobre a mobilização ao redor do assunto. Assim, se buscará mostrar que essas novas mídias mudaram a abordagem internacional do caso em questão, transladando o foco de pressão dos atores estatais para a sociedade civil.

Um dos episódios recentes que evidenciou com mais força o poder e o alcance da mídia, e em particular das redes sociais, em questões de repercussão internacional foi o sequestro de meninas na Nigéria, ou “Bring Back Our Girls”. Em 14 de abril de 2014, a organização militante nigeriana Boko Haram atacou a capital Abuja, matando dezenas de pessoas e sequestrou um grupo de cerca de 300 meninas que prestavam um exame físico em uma escola.  O líder do grupo apareceu em vídeo para declarar que venderia as meninas no mercado, de acordo com a vontade de Allah. Boko Haram significa “a educação ocidental é proibida”. Segundo sua ideologia, meninas e mulheres não devem estudar, mas sim devotar-se completamente ao casamento(BBC, 2014).

Sem nenhuma medida concreta tomada pelo governo, a inquietação crescia na sociedade civil, e o advogado Ibrahim M. Abdullah criou a hashtag #BringBackOurGirls, ispirada no discurso da ex-ministra nigeriana Obiageli Ezekwesili. Celebridades nigerianas, como autores e jornalistas, além da própria ministra Ezekwesili, passaram a retwitar e utilizar a hashtag, chamando atenção para o assunto e difundindo a campanha (THE GUARDIAN, 2014).

A hashtag tomou as redes sociais de todo o mundo. Não faltaram fotos, posts e tweets em apoio à causa, assim como fotos de pessoas comuns e personalidades famosas segurando placas com o mote da campanha. Um dos expoentes foi a foto da primeira-dama norte-americana, Michelle Obama, twitada por seu perfil oficial, e que chegou às primeiras páginas de jornais em todo o mundo, dando ainda mais força e visibilidade ao movimento. Ela ainda foi ao programa de rádio e internet do presidente norte-americano, declarar que ela e Barack Obama viam nas meninas sequestradas suas próprias filhas, e condenar não apenas o sequestro, mas todos os atos que visam impedir que jovens garotas frequentem a escola e tenham acesso à educação (DW, 2014).
Hilary Clinton e sua filha Chelsea, a ativista Malala Yousafzai, entre outras personalidades fizeram coro à primeira dama.  Até o dia 7 de maio, a hashtag havia sido twitada 1,3milhão de vezes, sem contar sua presença em outras mídias sociais. A pressão da opinião pública colocou oficiais do governo nigeriano na defensiva, e os governos do Reino Únido, China, França e Canadá se dispuseram a ajudar na busca às vítimas sequestradas (G1, 2014). O presidente francês se ofereceu para ajudar nas negociações com o grupo islâmico, e o próprio presidente nigeriano passou a considerar aceitar a ajuda ocidental diante da pressão da opinião pública (MORSE, 2014) Posteriormente, a Austrália ofereceu para compartilhar informações obtidas por seus satélites, (O REPÓRTER, 2014) e militares americanos foram enviados pelo presidente Barack Obama à Nigéria para ajudar na localização (UOL, 2014).

Assim, a ação de um indivíduo, ao criar a hashtag #BringBackOurGirls, através das mídias sociais, repercutiu em todo o mundo. Ela não apenas chamou a atenção para uma questão local mas também gerou o engajamento de outras pessoas e entidades, e foi capaz de estimular uma resposta concreta dos próprios Estados, que são os atores mais proeminentes atualmente no cenário internacional. As redes assim amplificaram o papel do indivíduo na sociedade internacional, possibilitando a ele estimular mudanças concretas.

As mídias podem também servir como uma maneira de condenar diretamente os atores desse ato. Segundo Felicity Morse (2014), os próprios militantes têm acesso às redes sociais, e estão cientes da condenação de suas ações, o que pode levar a uma percepção de que o sequestro em questão na verdade frustra a sua causa, gerando mais hostilidade do que apoio a ela, inclusive entre seus pares, e pode leva-los a repensar as estratégias terroristas.

Essa sucessão de fatos se enquadra no processo maior de transformação das redes sociais em instrumento de luta e reivindicação. É visível que essas novas mídias foram usadas para internacionalizar e securitizar um assunto que inicialmente seria local, mas que traz em si valores universais, como o respeito aos direitos humanos, a busca da igualdade de gênero, a liberdade do indivíduo e o combate ao tráfico humano e à escravidão sexual. As redes sociais ajudam a mostrar que os obstáculos a esses valores existem em diversas regiões, gerando empatia e apoio por todo o mundo. É uma nova forma se combater tais problemas, através da pressão pública de atores não estatais, ONGs, personalidades de destaques e, principalmente, as pessoas comuns. É, também, uma nova forma do indivíduo se posicionar no meio internacional, uma nova voz, praticamente sem custos e com um alcance sem precedentes.

Referências Bibliográficas

BBC. Sequestro na Nigéria: saiba mais sobre o Boko Haram. Disponível em <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/05/140513_boko_haram.shtml> Acesso em 27 jun. 2014.

DW. Michelle Obama se diz chocada com sequestro das estudantes na Nigéria. Disponível em <http://www.dw.de/michelle-obama-se-diz-chocada-com-sequestro-das-estudantes-na-nig%C3%A9ria/a-17626972> Acesso em 27 jun. 2014.

G1. Michelle Obama entra na campanha contra sequestro de jovens na Nigéria. Disponível em < http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/05/michelle-obama-entra-na-campanha-contra-sequestro-de-jovens-na-nigeria.html> Acesso em 27 jun. 2014.

MORSE, Felicity. The Bring Back Our Girls Campaign is working: Boko Haram should be scared of a hashtag.Disponível em < http://www.independent.co.uk/voices/comment/the-bring-back-our-girls-campaign-is-working-boko-haram-should-be-scared-of-a-hashtag-9360830.html> Acesso em 27 jun. 2014.

O REPORTER. Satélites ajudam na buscas por garotas sequestradas. Disponível em < http://www.oreporter.com/Satelites-ajudam-na-buscas-por-garotas-sequestradas,12145798970.htm> Acesso em 27 jun. 2014.

THE GUARDIAN. # BringBackOurGirls focuses world’s eyes on Nigeria’s mass kidnapping. Disponível em < http://www.theguardian.com/world/2014/may/07/twitter-hashtag-bringbackourgirls-nigeria-mass-kidnapping> Acesso em 27 jun. 2014.

UOL. Obama envia 80 militares para busca de meninas sequestradas na Nigéria. Disponível em <http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2014/05/21/obama-envia-80-militares-para-busca-de-meninas-sequestradas-na-nigeria.htm> Acesso em 27 jun. 2014.

Joana Lacerda Soares é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (joanalsoares@gmail.com).

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