E depois da Copa? Uma análise da política econômica brasileira em período de eleição, por Maria Fernanda L. F. Del Ducca

Mesmo antes do maior evento do ano começar, o Brasil já vivenciava uma série de manifestações, críticas e acusações tanto no âmbito econômico quanto no político. Mesmo com os consideráveis retornos por meio de investimento em infraestrutura, o principal questionamento passa a ser em que medida a Copa irá afetar a economia e a política brasileiras após a finalização do evento e, ainda mais, qual será o efeito direto nas eleições presidenciais deste ano? A presente análise de conjuntura, portanto, tem o objetivo de analisar o modo como a política econômica brasileira, em tempos de eleição, será afetada pelos efeitos do mundial.

Desde meados de 2013 emergiram no país uma série de manifestações reivindicando melhorias no transporte e na educação, além de uma maior transparência nos gastos públicos, principalmente no que tange aos investimentos realizados para o campeonato de 2014. Esses crescentes protestos foram considerados os maiores desde a ditadura militar, com fim em 1985. Os protestos com maior visibilidade aconteceram nas cidades que hoje são sedes das partidas de futebol (ROMERO, 2013). Nesse sentido, essa mistura de questionamentos e indignações acerca do sistema econômico e político brasileiros apresentam uma intensa preocupação para os candidatos à presidência no Brasil em 2014.

Mesmo com a grande quantidade de protestos no ano passado, a eleição ainda em primeiro turno da presidente Dilma era considerada viável naquele período. A respeito disso, os índices confirmavam a vitória com uma porcentagem de aprovação da candidata em cerca de quase 50% (THE ECONOMIST, 2014). No entanto, o crescente processo inflacionário, os escândalos de corrupção e desvio de verba e a própria Copa do Mundo representam uma alteração nesses paradigmas e a então possibilidade de derrota da candidata. Esse fato é representado pela análise dos dados da popularidade dos candidatos, como a atual presidente Dilma Rousseff que em meados de 2013 era responsável por quase 50% dos votos e agora, em julho de 2014, detém apenas 38% (ELEIÇÕES 2014, 2014).

Um dos principais agravantes possíveis para o resultado das eleições é a saída do Brasil do mundial. É de se esperar que, caso o país venha a ser eliminado antes do fim do campeonato, haja um aumento no número de manifestações e protestos não só contra o próprio evento como também, e principalmente, contra a política brasileira. Nesse âmbito, esses acontecimentos podem gerar ainda mais alterações nos índices de popularidade dos candidatos, afetando os próximos anos da política no país.

Desde 1994 há uma direta correlação entre a política econômica brasileira e os eventos promovidos pela FIFA. Por exemplo, naquele ano houve a implementação do Plano Real, objeto de resolução dos problemas monetários e inflacionários enfrentados pelo Brasil nos anos anteriores. Agora em 2014, tem-se a mesma correlação, mas em um âmbito um pouco distinto na medida em que o mundial tem influência direta nas eleições presidenciais do país sede, as quais afetam incisivamente a saúde financeira do mesmo.

Com relação à estimativa de faturamento decorrente do evento, acredita-se que a Copa do Mundo de 2014 terá um retorno de cerca de US$ 10 bilhões apenas em receita direta (ERNEST; YOUNG, 2010). Além disso, os dados apresentam um impacto direto no PIB brasileiro advindo apenas das construções e reformas necessárias. Assim, em função da Copa, o maior crescimento porcentual do PIB acredita-se que será no setor de eletrodomésticos mas, em termos absolutos, o aumento do PIB será maior no setor de máquinas e equipamentos (ERNEST; YOUNG, 2010). No entanto, o crescimento do PIB brasileiro é considerado baixo e, em conjunto com a alta carga tributária, esses são apenas alguns dos fatores que afetarão, não só as eleições presidenciais, mas também os anos subsequentes.

É certo que os três principais candidatos à presidência da república possuem metas para melhorar a saúde econômica do país. No entanto, a grande preocupação se releva na questão a respeito dos investidores estrangeiros e seu comportamento interno. Nesse âmbito, é possível prever e compreender as possibilidades e comportamentos econômicos após as eleições de outubro.

Apesar de ainda ter um investimento elevado se comparado aos outros anos, acredita-se que o investimento estrangeiro tenderá a se reduzir com a vitória da atual presidente, fato decorrente da queda nos índices de confiança externos (FORBES, 2014; VALOR ECONÔMICO, 2014). Essa redução do investimento não terá tantos efeitos diretos na taxa de juros, na medida em que a mesma já se encontra um tanto quanto alinhada à taxa de inflação. Mas esse acontecimento pode ter influências no mercado de ações e, principalmente, no mercado de câmbio, no qual é esperada uma desvalorização da moeda brasileira (FORBES, 2014).

Sob a ótica interna, espera-se que a líder das intenções de voto se articule em um modelo de desenvolvimento voltado para a atividade produtiva, afetando tanto os capitalistas desse setor, quanto os trabalhadores. Além disso, o foco do discurso do atual governo permeia acerca dos benefícios do programa “Bolsa Família”, o qual é um ingrediente essencial tanto na política realizada para a população, quanto para efeito nas urnas em outubro.

Na medida em que investimento estrangeiro está diretamente relacionado com expectativas, é muito provável que o capital especulativo aumente com a vitória do segundo candidato na lista de favoritos: Aécio Neves. Caso isso tenda a ocorrer, nada mais esperado do que um aumento da oferta monetária de dólares no mercado e, portanto, uma redução na taxa de câmbio (FORBES, 2014). Além disso, as ações da Petrobrás tendem a aumentar na medida em que há um aumento da popularidade do candidato, o que é animador para a economia brasileira (O GLOBO, 2014). Já conhecido em Minas Gerais, esse candidato apresenta políticas como uma reforma tributária, conversão das metas de inflação para um valor abaixo do atual e a consequente elevação da taxa de juros, corroborando para a confirmação do comportamento dos investidos estrangeiros.

O terceiro candidato na lista de favoritos, Eduardo Campos, ainda possui destinos um tanto quanto incertos no comportamento dos investidos estrangeiros. No entanto, pode ser que haja um padrão parecido com o do segundo candidato (FORBES, 2014). Dentre as propostas que o candidato apresenta, estão a formalização da independência operacional do Banco Central e a redução das metas de inflação atuais. Além disso, propõe uma reforma tributária no longo prazo.

Com uma inflação passando da margem de 6% e um crescimento baixo mesmo com a influência do mundial, é um desafio compreender a política econômica posterior às eleições. Certamente, uma saída precoce do país no mundial será um dos principais determinantes para o resultado das eleições de outubro e, consequentemente, para a saúde política e financeira do país nos próximos anos. Nesse aspecto, ainda hoje é uma dúvida se sediar a Copa do Mundo de 2014 foi algo benéfico para o país e a boa notícia, até agora, é que os aproximadamente US$ 12 bilhões de gastos em conjunto com o aumento do orçamento para saúde e educação geraram alguns resultados positivos para as famílias brasileiras.

Referências Bibliográficas

ECONOMIST, The. Dilma’s fragile lead. S.l.: The Economist, Abr. 2014. Disponível em: [http://www.economist.com/blogs/americasview/2014/04/brazils-election]. Acesso em: 04 jul. 2014.

ELEIÇÕES 2014. Pesquisa eleitoral para presidente. S.l.: Eleições 2014, Jul. 2014. Disponível em: [http://www.eleicoes2014.com.br/pesquisa-eleitoral-para-presidente/]. Acesso em: 04 jul. 2014.

ERNERST; YOUNG. Brasil sustentável: Impactos socioeconômicos da Copa do Mundo 2014. 2010. Disponível em: [http://www.sebrae.com.br/setor/textil-e-confeccoes/o-setor/mercado/Brasil_Sustentavel_Copa_do_Mundo_2014.pdf]. Acesso em: 27 dez. 2013.

FORBES. Three scenarios for Brazil after elections. S.l.: Forbes Magazine, Jun. 2014. Disponível em: [http://www.forbes.com/sites/kenrapoza/2014/06/16/three-scenarios-for-brazil-after-elections/]. Acesso em: 04 jul. 2014.

O GLOBO. Bolsa sobe 3,5% e tem a maior alta em sete meses após pesquisa mostrar queda de popularidade do governo. São Paulo: O Globo, 23 mar. 2014. Disponível em: [http://oglobo.globo.com/economia/bolsa-sobe-35-tem-maior-alta-em-sete-meses-apos-pesquisa-mostrar-queda-na-popularidade-do-governo-12001519]. Acesso em: 04 jul. 2014.

ROMERO, Simon. Thousands gather for protests in Brazil’s largest cities. The New York Times, Jun. 2013. Disponível em: [http://www.nytimes.com/2013/06/18/world/americas/thousands-gather-for-protests-in-brazils-largest-cities.html]. Acesso em: 04 jul. 2014.

VALOR ECONÔMICO. Importação reflete economia fraca. S. l.: Valor Econômico, 03 jun. 2014. Disponível em: [http://www.valor.com.br/brasil/3572100/importacao-reflete-economia-fraca]. Acesso em: 05 jun. 2014.

Maria Fernanda Lopes Ferreira Del Ducca é graduanda de Relações Internacionais na Universidade de Brasília – UnB (lopesferreira.mf@gmail.com )

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