A saída pelo meio: aspectos geopolíticos da escolha, pelo governo Dilma Rousseff, dos aviões caça suecos GRIPEN-SAAB, por Samuel de Jesus

Em 2011, durante a visita do presidente estadunidense Barack Obama ao Brasil, a presidenta Dilma Rousseff proferiu discurso em que pedia o apoio para a pretensão brasileira em ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.  Em 2013, pouco antes de sua primeira visita oficial aos Estados Unidos, foi divulgada, pelo agente da NSA Edward Snowden, a informação de que milhões de brasileiros e a própria presidente foram grampeados pela agência de inteligência dos Estados Unidos NSA, órgão de espionagem vinculada a CIA. Eram informações, como por exemplo, relativas à concessão para a exploração do Campo de Libra do pré-sal.

A presidente Brasileira, em seu discurso na ONU, declarou que a rede global de espionagem eletrônica montada pelos Estados Unidos causaram indignação e repúdio da opinião pública mundial. Afirmou ainda que no Brasil os dados pessoais de cidadãos foram indiscriminadamente interceptados, assim como informações empresariais de alto valor econômico e estratégico, representações diplomáticas brasileiras e sua própria comunicação presidencial.

Senhor Presidente,

Quero trazer à consideração das delegações uma questão a qual atribuo a maior relevância e gravidade.

Recentes revelações sobre as atividades de uma rede global de espionagem eletrônica provocaram indignação e repúdio em amplos setores da opinião pública mundial.

No Brasil, a situação foi ainda mais grave, pois aparecemos como alvo dessa intrusão. Dados pessoais de cidadãos foram indiscriminadamente objeto de interceptação. Informações empresariais – muitas vezes, de alto valor econômico e mesmo estratégico – estiveram na mira da espionagem. Também representações diplomáticas brasileiras, entre elas a Missão Permanente junto às Nações Unidas e a própria Presidência da República tiveram suas comunicações interceptadas. (ROUSSEFF, 2014)

A espionagem dos Estados Unidos colocou em xeque a aproximação do Governo Dilma (2011-2014) com os Estados Unidos, o que levou ao cancelamento da visita que faria aos Estados Unidos. Dilma afirmou que a interferência na vida de países, ao ponto de violar sua soberania, é uma afronta aos princípios que devem reger as relações entre nações amigas. As desconfianças da governante brasileira estão descritas na seguinte passagem:

Imiscuir-se dessa forma na vida de outros países fere o Direito Internacional e afronta os princípios que devem reger as relações entre eles, sobretudo, entre nações amigas. Jamais pode uma soberania firmar-se em detrimento de outra soberania. Jamais pode o direito à segurança dos cidadãos de um país ser garantido mediante a violação de direitos humanos e civis fundamentais dos cidadãos de outro país. (ROUSSEFF, 2013)

Este incidente, certamente foi decisivo para que os Estados Unidos perdessem a concorrência em relação à venda dos aviões-caça F-18 Super Hornet para os suecos, modelo Gripen NG, da Saab. O Brasil comprou dos suecos 36 caças para reequipar a Força Aérea Brasileira, por US$ 4,5 bilhões.

A justificativa do governo brasileiro foi a de que o Gripen NG é o modelo mais barato, além de existir a possibilidade de transferência de tecnologia, o que não era possível no caso dos Estados Unidos devido às imposições do Congresso estadunidense.

O governo Dilma, ao não escolher os aviões-caça da francesa Rafalle, procurou se distanciar também da França que vinha aumentando sua cooperação com o Brasil, por exemplo, o caso da cooperação franco-brasileira para a produção de submarinos. O Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) da Marinha do Brasil prevê a construção de quatro submarinos convencionais chamados S-BR (submarino brasileiro), da classe Scorpène, de tecnologia francesa. A projeção de termino é para o ano de 2016 sendo entregue à Marinha no início de 2017.

Existem ainda, outros acordos entre Brasil e França, inclusive a transferência de tecnologia de fabricação das armas. Esse acordo também prevê o Projeto H-X BR, que consiste na compra de 50 helicópteros de médio porte e aeronaves modelo EC 725, através da parceria entre a empresa francesa Eurocopter e a brasileira Helibrás. Em 2010 o ex-presidente Lula anunciou publicamente sua preferência pelos aviões-caças FX do consórcio francês Dassault Rafale. Esse gesto representou, naquele momento um avanço das relações bilaterais entre Brasil e França.

A Suécia não é uma parceira estratégica do Brasil. Ao que sabemos as cooperações entre Suécia e Brasil são incipientes, ao contrário da França que inclusive tem estimulado intercâmbios culturais como o ano do Brasil na França e o ano da França no Brasil. O Brasil se tornou o único cliente externo da sueca Saab, após os suíços rejeitarem a compra dos aviões caça Gripen. Caso o Brasil não escolhesse o caça sueco, o projeto de fabricação do Gripen ficaria inviabilizado, pois era necessária a exportação de pelo menos 20 unidades para que o projeto fosse iniciado. Após um referendo popular que continha mais de 50 mil assinaturas, os suíços rejeitaram a compra dos aviões caças suecos sob a alegação de que faz 200 anos que a Suíça não participa de guerra alguma. (CHADE, 2014)

A notícia de que a Suécia fez um acordo militar secreto com a Arábia Saudita abalou as estruturas da política sueca, ou seja, esse acordo secreto previa a construção de uma usina militar na Arábia Saudita, o que acabou com  a imagem de neutralidade que os suecos sempre tentaram construir e em certo medida obtiveram êxito. Pesou também a estreita cooperação com um governo ditatorial, considerado por analistas internacionais uma das ditaduras mais duras do mundo. (Disponível em:http://www.defesanet.com.br/geopolitica/noticia/5518/armas-para-a-arabia-saudita-ou-algo-cheira-mal-na-suecia Extraído em: 01/07/2014).

A título de informação, os partidos de oposição criticam o governo sueco pela demora em aprovar restrições de venda de armas aos países que são classificados como autoritários. Essas restrições seriam possíveis se estes países fossem classificados não mais como autoritários, mas ditatoriais. É o caso de países como a Arábia Saudita. (disponível em:http://www.forte.jor.br/2012/08/17/nova-lei-sueca-para-controle-de-armas-pode-desagradar-a-exportadores/Extraído em 01/07/2014).

Ao escolher a sueca Gripen, a presidenta Dilma sai pelo meio, evitando uma influência francesa por um lado e a estadunidense por outro. Pode ser um sinal de independência. A indústria bélica Sueca precisa firmar parcerias com países da dimensão e estabilidade democrática como o Brasil, sobretudo para alavancar suas exportações na área militar. Momentaneamente, poderá ser uma boa para o Brasil prescindir da influência francesa e estadunidense e apostar em um país relativamente neutro. Veremos! O tempo dirá.

Referências Bibliográficas:

 

ROUSSEFF, Dilma. Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, na abertura do Debate Geral da 68ª Assembleia-Geral das Nações Unidas – Nova Iorque/EUA. Portal do Planalto — publicado 24/09/2013 11:40, última modificação04/04/2014 21:03 Disponível em:http://www2.planalto.gov.br/acompanhe-o-planalto/discursos/discursos-da-presidenta/discurso-da-presidenta-da-republica-dilma-rousseff-na-abertura-do-debate-geral-da-68a-assembleia-geral-das-nacoes-unidas-nova-iorque-eua Extraído: 24/06/2014

Opção do Planalto por caças suecos tem razões dúbias que ultrapassam as frágeis explicações oficiais  ucho.info, 19/12/2013. Disponível em: http://ucho.info/opcao-do-planalto-por-cacas-suecos-tem-razoes-dubias-que-ultrapassam-as-frageis-explicacoes-oficiais Extraído em: 24/06/2014

Nova lei sueca para controle de armas pode desagradar a exportadores, 12 de agosto de 2012, disponível em:http://www.forte.jor.br/2012/08/17/nova-lei-sueca-para-controle-de-armas-pode-desagradar-a-exportadores/ Extraído em 01/07/2014.

CHADE, Jamil. A Suiça rejeita compra de caças e futuro do Gripen agora depende do Brasil. 18.05.2014, disponível em: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,suica-rejeita-compra-de-cacas-e-futuro-do-gripen-agora-depende-do-brasil,185206e Extraído em: 01/07/2014.

Samuel de Jesus é professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – UFMS – campus de Coxim/ MS ( samdeje@yahoo.com.br)

2 Comentários em A saída pelo meio: aspectos geopolíticos da escolha, pelo governo Dilma Rousseff, dos aviões caça suecos GRIPEN-SAAB, por Samuel de Jesus

  1. Um “acidente” mencionado pelo autor, não é determinante das estratégias.E qual é a estratégia da política externa brasileira? Provavelmente não se alinhar com uma das potências como EE UU, França ou outros membros do CS da ONU. Em especial tudo indica nesta tática é ficar distante dos EE UU apesar de ser um dos maiores parceiros comerciais e financeiros. Mas, o que deve ter pesado é a ilusão de transferência de tecnologia que EE UU não permitem. E quanto de tecnologia própria os suecos tem? Na barganha de uma compra desta natureza, o caso do Sivam também aconteceu assim, Brasil em geral exige muito e ganha pouco. Quanto aos suecos é bom lembrar como a neutralidade sueca financiou a recuperação financeira dos regimes do Mussolini e Hitler ( referência artigo na The Economist) um dos maiores escândalos financeiro da época da pré Segunda Guerra Mundial.

  2. Há uma informação incorreta no texto, quando o mesmo menciona que “[o] Brasil se tornou o único cliente externo da sueca Saab”. Na realidade, a empresa sueca Saab é uma das maiores empresas de material de defesa do mundo, inclusive no ramo da tecnologia aeronáutica e na produção de aviões de caça. O fato é que o avião selecionado para reequipar a FAB – o Gripen NG – é uma versão mais moderna de uma plataforma já existente, o Gripen, que equipa forças aéreas do mundo todo, incluindo a Republica Tcheca e a África do Sul.