Esporte, relações internacionais e a diplomacia esportiva brasilera, por Elói Martins Senhoras

O esporte tem tradicionalmente ocupado um relevante papel nas relações internacionais contemporâneas em função de sua dimensão fática axiológica e fática, tanto, na projeção econômica de interesses de grandes grupos empresariais, cuja força tem uma natureza paradiplomática, quanto, na projeção política dos Estados Nacionais por meio de um padrão de poder inteligente, seja como meio de difusão de softpower, seja como fim promoção do hard power com o adestramento das forças armadas.

Por um lado, os megaeventos esportivos consolidaram-se como uma via de expressão de diferentes padrões de poder econômico nas relações internacionais, haja vista o seu impacto no avanço de uma significativa paradiplomacia esportiva, a qual é ligada à atuação de grandes organizações financeiras, esportivas e de empresas de telecomunicações, equipamentos esportivos e construção civil, bem como de uma diplomacia esportiva, focalizada na promoção econômica dos países (PORTELA, 2014).

No plano da paradiplomacia, o esporte passa a ser considerado um relevante negócio internacional a partir dos megaeventos que mobilizam bilhões de dólares por meio da atuação de empresas monopolísticas de materiais esportivos e comunicações, ou ainda, grupos financeiros de apostas e corporações de construção civil responsáveis pela edificação de equipamentos e sedes dos eventos esportivos para um público global de consumidores presenciais e a distância.

No plano da diplomacia esportiva, a busca pela construção de soft power está ligada ao poder de atração visado pelos Estados Nacionais para a realização de grandes eventos esportivos, já que estes se tornam em uma espécie de vitrine internacional de determinadas cidades, as quais passam a ser expostas para o mundo, podendo atrair investimentos no longo prazo em função da exposição midiática (NYE, 2004).

Segundo Vasconcellos (2011), durante o século XX, os grandes eventos esportivos se tornaram em um dos alvos de interesse da nova ordem mundial, principalmente após a Guerra Fria, quando houve uma crescente participação de grupos empresariais (paradiplomacia esportiva) e maior atuação dos Estados empreenderem investimentos para sediarem os eventos (diplomacia esportiva), tendo em vista que a necessidade de novos cenários, novas trincheiras, mais sutis e positivas, que acomodem lides internacionais por protagonismo, poder e prestígio.

Por outro lado, o esporte se manifesta como palco de disputas e convergências entre Estados Nacionais, o qual se caracteriza como espírito construtivista de difusão de um positivo valor de uma sociedade internacional e de projeção propagandística dos Estados, empresas e esportista, em contraposição aos resquícios de seu espírito realista no treinamento de tropas para a guerra.

No plano do espírito construtivista, os Jogos Olímpicos da Era Moderna, propostos por Pierre de Coubertin, e as Copas do Mundo da FIFA, surgidas na década de 30 do século XX, a cada ano foram ganhando mais destaque dentro do cenário internacional, razão pela qual muitos Estados Nacionais perceberam a oportunidade de serem vistos dentro da comunidade mundial por meio de uma ativa diplomacia esportiva.

No plano do espírito realista, em celebração aos 50 anos de término daSegunda Guerra Mundial, surgiram os Jogos Olímpicos Mundiais Militares em 1995, com o objetivo de abrirem uma positiva competição entre militares competidores de diferentes países, os quais deixam de se enfrentar nos campos de batalha para disputarem medalhas nos campos esportivos.

Compreendendo a importância crescente que o esporte tem nas relações internacionais contemporâneas, tanto, no plano diplomático em função das oportunidades trazidas pelos megaeventos esportivos com a conformação de parcerias inter-estatais, quanto, no plano paradiplomático em razão do fomento à oportunidades de negócios internacionais, o governo brasileiro institucionalizou de maneira incremental o esporte como um eixo de soft power na sua política externa por meio de duas etapas.

Em um primeiro momento, no ano de 2004, a iniciativa de envio da seleção brasileira de futebol ao Haiti no ano de 2004 foio primeiro empreendimento da política externa brasileira, em parceria com a Federação Internacional de Futebol (FIFA), que teve o objetivo de criar uma imagem positiva do Brasil junto à população local por meio de uma diplomacia da bola, e, por conseguinte, do papel do Brasil na Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH).

Em um segundo momento, no ano de 2008, a criação da Coordenação-Geral de Intercâmbio e Cooperação Esportiva (CGCE) no Ministério de Relações Exteriores se tornou no lócus de institucionalização do esporte como eixo de soft power na política externa brasileira, ao trazer o objetivo de projetar o país por meio da promoção da cultura esportiva brasileira no exterior, a qual está claramente identificada pela diplomacia da bola, um vez que segundo o embaixador Roberto Jaguaribe, “o melhor embaixador do Brasil é o futebol” (RESENDE, 2000).

Ambos os momentos foram fundamentais para construir uma concepção de instrumentalização do esporte na política externa, na qual o futebol fornece uma concepção político-identitária e comercial à diplomacia esportiva brasileira que visa participar e influenciar crescentemente organizações internacionais, fomentar negócios com países europeus e os Estados Unidos (megaeventos da Copa e Olimpíadas), bem como aumentar a influência do país por meio de parcerias na África, Oriente Médio, Ásia e América Central (cooperação esportiva).

focos da diplomacia da bola no mundo

No Brasil, a diplomacia da bola engendrada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva, sob a coordenação do Ministro Celso Amorim representou a concepção maior da ideologia presente na diplomacia esportiva do país, haja vista que o futebol brasileiro representa, tanto, a construção da identidade (inter) nacional do Brasil, quanto, a naturalização versátil, forte e astuta de um país emergente no mundo.

Fundamentado em uma diplomacia da bola, o CGCE possui cinco flancos de ação: 1) Negociação de cooperação esportiva com países parceiros; 2) Atuação na realização de megaeventos em megaeventos esportivos no Brasil e no exterior; 3) Acompanhar, instruir e supervisionar a posição oficial brasileira em organismos internacionais esportivos; 4) Interlocução com atores internacionais e intra-nacionais de âmbito governamental, esportivo e acadêmico; 5) Promoção de ações pontuais de capacitação e de natureza epistêmica ou técnica em relação ao esporte (BRASIL, 2008).

Os objetivos de projeção internacional por meio da diplomacia da bola não são originais, mas antes resgatam uma visão nacional desenvolvimentista presente na diplomacia brasileira de natureza Varguista e que repercutiram, após a II Guerra Mundial, na exposição do Brasil como sede da Copa de 1950, com estádios nas cidades deBelo Horizonte,Curitiba, Porto Alegre,Recife,São Paulo, e Rio de Janeiro, onde foi construído o maior estádio à época, o Maracanã (BIAZZI e FRANCESCHI NETO, 2007).

Diferentemente dos resultados da década de 1950, a atual diplomacia esportiva do Brasil tem muito rapidamente deteriorado a sua capacidade de positiva projeção internacional do país, uma vez que as parcerias de cooperação sul-sul têm baixo potencial de encadeamento nos países de destino e as infra-estruturas dos megaeventos se estruturaram em um período de desaceleração da economia internacional e do próprio Brasil, claramente diferente do momento de projeção internacional do país à época da candidatura.

Observa-se, portanto, que o período que vai entre os anos de 2004 a 2014 finda um decênio de implantação gradativa da diplomacia esportiva brasileira, cujo balanço institucional se mostra ao final menos positivo e promissor em relação objetivos iniciais de sua construção frente, devido à projeção de um discurso ideal de soft power que teve pouco pragmatismo operacional em grande parte aos problemas de sua instrumentalização por parte do governo brasileiro.

Embora a diplomacia esportiva do Brasil tenha uma extraordinária capacidade de projetar a imagem brasileira no exterior, ela carece de resultados no curto prazo à medida que, tanto, busca construir no longo prazo um ambiente de colaboração internacional baseado em uma reciprocidade difusa, sem necessárias contrapartidas, quanto incorre em problemas de operacionalização e efetivação de compromissos assumidos com países ou organismos esportivos.

No Haiti, logo após a população da capital, Porto Príncipe, ter parado para assistir ao “Jogo da Paz” entre Brasil e Haiti, a positiva diplomacia esportiva alicerçada na imagem dos craques brasileiros, presentes como embaixadores da promoção da paz durante 5 horas no ano de 2004, muito rapidamente se esvaiu diante de um hiato de anos em que restaram apenas as tropas militares.

No Brasil, o clima político de tensão na Copa das Confederações (2013) e na Copa do Mundo (2014), devido às manifestações sociais contrárias à má qualidade dos serviços públicos, os excessivos gastos públicos com os preparativos dos megaeventos esportivos, bem como os atrasos e cancelamentos de algumas obras de infra-estrutura, fizeram com que a projetada construção de imagem positiva do país, como global player, se revertesse em clara deterioração e questionamento no contexto internacional.

Por mais que os megaeventos, como a Copa, representem um momento propício para aproximar e catalisar relações bilaterais do Brasil com outros países (PORTO, 2014), são questionáveis os ganhos marginais oriundos de negociações de bastidores, haja vista as suspeitas de corrupção, desperdício e rentseeking, bem como os custos à operacionalidade da soberania nacional no Brasil, com as excessivas ingerências contra legem de organizações internacionais, como registrado pela FIFA (FARENA, 2014).

Conclui-se, com base nestas discussões, tanto, teóricas sobre o esporte e as relações internacionais, quanto, analíticas, sobre a diplomacia esportiva brasileira, que o esporte, embora materialize um fato político e econômico complexo nas sociedades modernas, o qual é tido como meio e fim permeado pelas dinâmicas de competição e cooperação, também, se caracteriza como um valor de hibridação de diferentes interesses entre Estados Nacionais, organizações internacionais e empresas, já que transmite uma ideologia de prestígio, de status, de nacionalismo, de internacionalismo, de guerra e diplomacia.

Referências bibliográficas

BIAZZI, A.; FRANCESCHI NETO, V. (2007). “Futebol e política externa brasileira: entre o político-identitário e o comercial”. Revista Digital, Buenos Aires, año 11, n. 104, Enero.

BRASIL. Ministério de Relações Exteriores. (2008). “Coordenação-Geral de Intercâmbio e Cooperação Esportiva – CGCE”. Sítio eletrônico do Ministério de Relações Exteriores. Disponível em: <www.itamaraty.gov.br>. Acesso em 29/06/2014.

CHADE, J. “Futebol vira trunfo do governo brasileiro nas relações diplomáticas”. Estadão, seção de Esportes, 15 de Fevereiro, 2014. Disponível em: <www.esportes.estadao.com.br>. Acesso em 29/06/2014.

FARENA, D. V. M. (2014). A Copa da Corrupção. São Paulo: All Print Editora, 2014.

NYE JR., J. S. (2004). Soft Power: The Means to Success in World Politics. New York: Public Affairs.

PORTELLA, V. Q. (2014). O esporte como instrumento de soft power nas relações internacionais. Trabalho de Conclusão de Curso em Relações Internacionais. Boa Vista: UFRR, 2014.

PORTO, L. F. S. (2014). “A Copa do Mundo como estratégia de aproximação e catalisadora de relações bilaterais do Brasil com outros países: um balanço das negociações firmadas”. Boletim Mundorama, vol. 82, junho.

RESENDE, C. A. R. (2010). “O Esporte na Política Externa do Governo Lula: o importante é competir?”. Revista Meridiano 47, vol. 11, n. 122, 2010.

VASCONCELLOS, D. W. (2011). Esporte, poder e relações internacionais. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão.

Elói Martins Senhoras é professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR). O autor agradece à bolsa PRÓ-PESQUISA/UFRR para o desenvolvimento da presente pesquisa (eloisenhoras@gmail.com). 

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