Copa do Mundo 2014: o que está realmente acontecendo no Brasil?, por Alex Alves

Nesse mês de junho, o mundo todo está acompanhando o Brasil. Muito em razão da Copa do Mundo, que tem sido bastante agradável de assistir. Isso porque o Brasil está com um clima agradabilíssimo, e um ânimo muito favorável também.

No entanto, demorou um pouco para esse ânimo surgir. O País estava um pouco receoso com a Copa, muito devido às manifestações de um ano atrás, às obras de infraestrutura terminadas a poucos dias do início dos jogos, e à própria seleção de futebol, que estava alternando boas partidas com outras nem tanto.

Mas chegou a Copa do Mundo, com ela os turistas, a movimentação diferenciada, ares cosmopolitas inéditos por essas terras, que apesar de muito miscigenada, nunca viu tantas pessoas de nacionalidades diferentes convivendo ao mesmo tempo em vários pontos de seu grande território.

Além de ter colocado gente de todo o mundo para circular em nossas diversas cidades, a Copa, com sua variedade de cidades-sede, uniu o País de ponta a ponta numa única celebração. Diante desse cenário, pode-se referir a esse torneio como a Copa da Integração, conforme sugeriram pelas redes sociais, no último dia 11 de junho, as Chefes de Estado do Brasil e da Argentina, Dilma Rousseff e Cristina Kirchner.

Quem viaja para um torneio esportivo dessa magnitude espera um País receptivo, caloroso, com estrutura de porte, bons passeios turísticos, restaurantes e opções de diversão. E os turistas estão encontrando isso no Brasil.

Boa parte dos cidadãos brasileiros, no entanto, gostaria de receber os turistas num país de infraestrutura impecável, seguro, avançado tecnologicamente e com elevado índice de desenvolvimento humano. Quanto a esses temas, apesar dos avanços das últimas duas décadas, ainda há um longo caminho a percorrer.

Então é essa a razão do clima um pouco apático que tomou conta do País em plena véspera da Copa do Mundo, e só foi se alterando quando o torneio começou a acontecer? Parece incompreensível que a população do “país do futebol” estivesse receosa em celebrar com todas as honras esse momento grandioso.

Para compreender o que realmente está acontecendo no Brasil e chegar a uma boa resposta, é preciso levar em conta três fatores: 1) a Copa do Mundo ocorre cerca de sete anos depois da festejada escolha do Brasil como País-sede da Copa de 2014; 2) ocorre um ano depois de uma série de manifestações por mais qualidade nos serviços públicos e contra gastos públicos excessivos com os preparativos da Copa do Mundo; e 3) ocorre às vésperas da campanha eleitoral em nível federal e estadual, que ocorre entre julho e outubro deste ano.

  1. O contexto da escolha do Brasil como País-sede da Copa do Mundo de 2014

O Brasil foi anunciado pela FIFA como País-sede da Copa de 2014 em 30 de outubro de 2007, em notícia bastante festejada à época. O Brasil vivia o segundo mandato do Governo Lula (que governou entre 2003-2006 e 2007-2010), do Partido dos Trabalhadores (PT), e vivia boa situação nas políticas interna e externa.

Isso porque o governo do ex-operário de origem humilde que alcançou o mais alto cargo da República – e ganhou fama, nos bastidores do Poder, de melhor gestor de Recursos Humanos da Esplanada dos Ministérios, ao cercar-se de técnicos qualificados e escutar com atenção seus interlocutores – angariou simpatia no Brasil e no Exterior.

No Brasil, a economia teve dias de pujança e crescimento. Políticas de inclusão social e de ampliação da oferta de crédito possibilitaram o acesso a bens de consumo por parte camadas mais pobres da população; os reajustes ao funcionalismo e a melhoria dos salários fruto do aquecimento da economia permitiram à classe média gastar mais com bens de luxo e viagens ao Exterior; e o incentivo à indústria agradou aos empreendedores.

Dessa forma, Lula desfrutou de grande aprovação das famílias mais pobres, da classe média e também das camadas mais abastadas da sociedade, que se beneficiaram do aquecimento da economia, prestígio que só se abalou com denúncias de corrupção ou quando, contrariado politicamente, o então Presidente alegava ser o representante dos pobres contra “as elites”. No plano político, cogitou-se, por várias vezes, alteração constitucional para permitir um terceiro mandato de Lula, o que foi fortemente rechaçado pela oposição e parte da opinião pública.

Na política externa, sob a batuta do chanceler Celso Amorim e com o apoio da figura emblemática de Lula, o Brasil viveu dias de grande projeção. A dupla buscou ampliar a posição de liderança do Brasil junto aos países da América Latina e da África, ampliando as relações com países com governos de esquerda e com as antigas potências socialistas, sem deteriorar, no entanto, as relações com os Estados Unidos e os grandes países europeus. O Brasil também passou a tomar posição em situações internacionais por toda a parte do globo, vivendo dias de protagonismo em sua diplomacia.

Vieram a participação expressiva nos fóruns sobre meio ambiente, como a COP-15, realizada em 2009 na Dinamarca; a participação expressiva na consolidação do G-20 como fórum de articulação internacional, com a participação das potências emergentes; a aposta dos economistas do mundo no potencial do B dos BRICS; e os dois grandes eventos de projeção mundial para os quais o Brasil foi escolhido como sede (além da Copa do Mundo, que acontece em diversas partes do País, o Rio de Janeiro será a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016).

Aquele era, portanto, um contexto festivo, num bem avaliado Governo Lula, com o Brasil em franco crescimento e vivendo momento de grande projeção internacional. Ao saber da escolha para sediar os jogos da Copa, os brasileiros festejaram, pois visualizaram mais investimentos para o País, aumento do número de turistas, da projeção internacional, bem como a modernização do País e melhoria geral de sua infraestrutura, de modo a estar adequadamente preparado para receber eventos desse porte.

  1. As manifestações de junho de 2013

Em junho de 2013, às vésperas e durante a Copa das Confederações, evento que antecede em um ano a Copa do Mundo, ocorreram diversas manifestações populares. O tema inicialmente foi o aumento das passagens de transporte público em algumas capitais, principalmente em São Paulo, mas logo o fenômeno se alastrou pelo País, somando-se à pauta de reivindicações temas como combate à corrupção, maior qualidade de serviços públicos.

Notou-se, especialmente, uma insatisfação da sociedade quanto às escolhas de gasto público, uma vez que foram noticiados investimentos de bilhões de reais nas obras dos estádios construídos para sediar os jogos da Copa do Mundo, ao tempo em que ocorreram diversos atrasos nas obras de infraestrutura relacionadas direta ou indiretamente ao evento, o que contempla, além dos estádios, viadutos, veículos leves sobre trilhos, aeroportos. Nesses seis anos, escolas públicas e hospitais públicos não sofreram melhorias significativas aos olhos da população.

A imprensa, os políticos e a sociedade passaram um período sem saber exatamente como agir. A imprensa ora chamou de vândalos, ora enalteceu os manifestos. Os políticos, idem. Esperaram o quanto puderam até tomar decisões efetivas sobre a forma de o Estado lidar com os protestos. E a população que não estava envolvida nos protestos viveu períodos de incerteza, sensação de “clima ruim” generalizada, receio de sair de casa para trabalhar ou de abrir seu comércio em razão da possibilidade de endurecimento dos protestos.

A presidente Dilma Rousseff e a maioria dos governadores de Estado, todavia, agiram de forma serena, evitando derramamento de sangue em grandes proporções, apesar de ter havido algumas fatalidades e casos pontuais de violência. Sobraram, ainda, críticas sobre a forma de agir de ambas as partes (polícia e manifestantes).

Houve radicalização, com protestos mais violentos, por parte dos chamados black blocs, mas a maioria dos manifestantes agiu de forma pacífica, fazendo valer seu direito constitucional de manifestação. Aos poucos, os movimentos foram arrefecendo, até que o País voltou à sua rotina normal.

Muitas pessoas mundo afora fizeram a seguinte pergunta: como a população de um País que é conhecido como o país do futebol, e que tanto festejou a conquista do direito de sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas, pode estar contra a Copa?

Na verdade, a parcela da população que participou das manifestações não estava contra a Copa, mas contra a lentidão nas transformações pelas quais acreditavam que o Brasil teria passado até a Copa se iniciar.

Isso porque, como dito, a classe média passou a viajar mais, as camadas mais pobres, a ter mais acesso a educação formal e informação. A sensação de descasamento entre o gigantesco orçamento público, fruto de elevada carga de impostos, e as melhorias pouco perceptíveis na prestação dos serviços públicos, num País onde a classe média, além dos impostos, paga por saúde, educação e eventualmente segurança privadas, ajudou a gerar essa insatisfação.

Nesse cenário, os serviços públicos acabam sendo destinados à população de menor renda, que por sua vez não consegue atendimento em hospitais ou matricular seus filhos em escolas públicas sem esperar em longas filas ou eventualmente não encontrar atendimento e estrutura adequados.

Portanto, as manifestações de 2013 não foram conta a Copa em si – cuja escolha foi festejada em 2007 –, ou contra os gastos que normalmente se esperaria para um evento dessa magnitude, mas contra a qualidade desses gastos e a dificuldade do País em traduzir investimentos nos serviços públicos em resultados efetivos para a população. Boa parte da população se decepcionou ao imaginar que o Brasil a ser visitado pelos turistas no ano seguinte não seria o País avançado que os brasileiros ansiavam por mostrar.

  1. A alegria da Copa da Integração e as eleições

Mas o Brasil está fazendo uma boa Copa. No começo, com algum receio, sem a mesma euforia e animação demonstrada pela população quando o País disputava torneios em outros países. Agora, na metade do torneio, com a alegria pelos muitos gols, pelas torcidas animadas, pela quantidade expressiva de visitantes. O brasileiro demorou a enfeitar suas ruas e carros com as cores do País, mas enfeitou e aderiu à celebração. Mas com serenidade e reflexão.

Reflexão sobre os caminhos que o País tomou, sobre os resultados dessa característica cultural pela qual o País se notabilizou – o jeitinho brasileiro, marcado pela tolerância em termos éticos –, e também por características como deixar as coisas para a última hora, não planejar. O País se pergunta quais as vantagens de ser o País do carnaval e do futebol, e se pergunta se não seria possível ser o País também do carnaval e do futebol, mas que se destacasse por aspectos como a qualidade dos serviços públicos, que poderia ser próxima à dos países do welfare escandinavos, com os quais sua carga tributária se assemelha percentualmente.

A reflexão se deu ainda sobre a responsabilidade pelo fato de o País não ter alcançado as realizações que almejava. Esta não pode ser creditada exclusivamente aos políticos, ou à mídia, ou ainda a qualquer potência estrangeira. Afinal de contas, Estados Unidos, China, Rússia são parceiros comerciais estratégicos, e certamente só teriam a se beneficiar com a melhoria dos padrões de gestão brasileiros. Ou seja, por mais que certas vezes relutemos, está a cargo da sociedade brasileira a responsabilidade por seu desenvolvimento.

É certo que o alcance desse País que se almeja passa pela melhoria da qualidade do gasto público; pelo investimento em educação pública de qualidade; pela ampla conscientização acerca dos objetivos nacionais (a população não sabe qual papel o País pretende exercer para os próximos 30 anos, por exemplo); pela regulação dos serviços de saúde, cada vez mais precários, inclusive na rede particular; pela formação de jovens líderes na política e nos setores público e privado; pela desburocratização; pelo investimento em pesquisa e tecnologia; e, principalmente, pelo despertar dos cidadãos para a participação em instituições coletivas, como assembleias de condomínio, reuniões de pais e mestres, clubes e associações.

E a Copa do Mundo acontece às vésperas do período eleitoral, que ocorrerá de julho a outubro deste ano. As pesquisas apontam que Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT) lidera com vantagem, na casa dos 30% de intenções de voto, mas também assinala que seus dois principais concorrentes Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), tido como de direita, na faixa dos 20%, e Eduardo Campos, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), de centro-esquerda, na faixa dos 10%, também têm se tornado mais populares nos últimos meses.

Esse três candidatos têm um histórico político respeitável. Dilma Rousseff (PT) participou da resistência contra a ditadura militar na década de 1960, quando ainda era estudante. Com a redemocratização, foi aliada de Leonel Brizola e ocupou cargos gerenciais no Estado do Rio Grande do Sul e, já no Governo Lula, foi Ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, tendo sido escolhida como candidata à sua sucessão ao final do segundo mandato de Lula, quando se sagrou vencedora do pleito eleitoral.

Aécio Neves (PSDB) é neto de Tancredo Neves, que seria o primeiro presidente do País após a ditadura militar, mas que faleceu acometido por enfermidade antes de poder exercer suas funções. Aécio foi deputado federal por quatro mandatos, sendo inclusive presidente da Câmara dos Deputados; foi Governador do Estado de Minas Gerais, quando se notabilizou por avanços na qualidade da gestão pública; e atualmente é Senador pelo mesmo Estado.

O também economista Eduardo Campos (PSB) é neto do líder de esquerda Miguel Arraes. Foi deputado estadual, deputado federal, Ministro de Ciência e Tecnologia no Governo Lula e Governador do Estado de Pernambuco, também com notáveis progressos na qualidade da gestão e na atração de investimentos para o Estado. Trouxe para sua chapa, como candidata a vice-presidente, Marina Silva, líder ambientalista, ex-senadora e ex-Ministra de Meio Ambiente do Governo Lula. O partido de Campos, PSB, por ser de centro-esquerda, esteve sempre próximo ao PT ideologicamente, mas iniciou rompimento a partir de 2012, quando começou a se desenhar o cenário de candidatura própria.

As manifestações de 2013, a cobrança cada vez mais forte da sociedade por avanços desde então e o grau competitivo desses números têm feito o debate elevar seu nível. O noticiário já aponta que os candidatos estão se cercando de grandes nomes técnicos para elaborar seus planos de governo, e que pretendem focar o debate em propostas concretas para atender aos anseios da população. O tema qualidade da gestão pública perpassa os programas dos três candidatos.

A única ameaça ao avanço da sociedade brasileira é um discurso carregado de ranço que vem surgindo fruto de uma polarização entre discursos de esquerda e de direita reproduzidos por militantes ou simpatizantes de partidos ou correntes ideológicas nas redes sociais ou em debates nas universidades e locais de trabalho, volta e meia recorrendo ao perigoso e contraproducente argumento da luta de classes e reproduzindo discursos que remontam à polarização da época do regime militar. São camadas minoritárias, mas que acabam afastando e constrangendo a maioria da população, de posições ponderadas e que ora podem ter um ponto de vista mais identificado com ideologias de esquerda, ora mais com a direita.

Enquanto os diversos segmentos da população não se unirem com foco no desenvolvimento da Nação, deixando de lado divergências ideológicas e buscando construir um novo jeitinho brasileiro, que leve em conta a recompensa pelo esforço (no pain, no gain), a meritocracia e o respeito aos direitos de cidadania de si próprio e do próximo, mantendo uma linha coerente de construção incremental, independentemente da linha política de governo (mais à esquerda ou mais à direita), o Brasil continuará a ser o doce País do Futuro, agradável para se visitar a passeio, mas com uma série de pontos a aprimorar para atender aos anseios de quem nele vive.

Não se pode negar, no entanto, que o Brasil é um País com instituições consolidadas e bom grau de garantias individuais, que respeita a diversidade e que, apesar das dificuldades que enfrenta, mantém sempre viva uma característica relevante: o bom humor de sua população para enfrentar os desafios, sejam eles do presente ou do futuro.

Alex Alves é Coordenador do Movimento Gestão Pública Eficiente – MGPE (movimento@gestaopublicaeficiente.com.br )

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