A emergência do ISIS/ISIL e as ameaças ao equilíbrio de forças no Oriente Médio, por Carmen Lícia Palazzo

O Oriente Médio, palco de incessantes conflitos com profundas raízes históricas, viu surgir recentemente um ator que é motivo de preocupação tanto regional quanto internacional já que prega a abolição de fronteiras, o desmantelamento dos estados nacionais e a imposição estrita da sharia, a lei islâmica. Trata-se do grupo que ficou conhecido como ISIS ou ISIL, siglas referentes às denominações de Islamic State of Iraq and Syria ou Islamic State of Iraq and Levant, uma organização muçulmana sunita que defende a jihad para alcançar seu objetivo final, o retorno ao califado extinto em 1924, e que deverá se sobrepor à ideia de pertencimento nacional. Para o ISIS o califado, e portanto a umma, comunidade dos muçulmanos, é a única referência legítima de união dos fiéis.

A decisão das lideranças do ISIS de apoiar os rebeldes sírios coloca o grupo geograficamente próximo ao Iraque cujo governo xiita tem discriminado sua população sunita. Esta, então, tende a ver os jihadistas com certa simpatia. Além disto, fazendo causa comum com os rebeldes que desejam a queda do ditador sírio Assad, o ISIS se fortalece, levantando uma bandeira que não necessariamente tem a ver com o fundamentalismo religioso mas que, no momento atual, granjeia diversos apoios. O sucesso do grupo na região e sua eventual chegada a um poder, ainda que parcial, na Síria ou no Iraque, onde já tomou territórios, poderá conduzir à consolidação do sunismo em sua vertente mais radical e, numa etapa seguinte, a um estrito controle não apenas político mas de comportamentos dos próprios sunitas moderados.

Uma das vozes mais lúcidas no Iraque tem sido a do Grande Aiatolá Ali al-Husayni al-Sistani que no passado foi duramente perseguido pelos sunitas no governo de Saddam Hussein. Al-Sistani pertence à corrente denominada “quietista” do xiismo, com pouco envolvimento em assuntos políticos, mas tem insistido na necessidade de que o Iraque impeça o avanço do ISIS em suas fronteiras, o que o grupo vem fazendo a partir de suas bases na Síria. Ele argumenta que a luta contra o ISIS deve ser de todos e não apenas dos xiitas pois o projeto do califado levará ao fim das nacionalidades e consequentemente do Iraque como país. Como pode ser visto na versão eletrônica do jornal libanês Daily Star, o ISIS distribuiu fotos mostrando sua ação nas fronteiras da Síria e do Iraque, sob o título de Smashing the Sykes-Picot border, uma clara contestação das fronteiras do Oriente Médio (Daily Star, 2014). Al Sistani conclamou a população a se unir contra este tipo de agressão que, segundo ele, coloca em risco a independência do país que é múltiplo tanto do ponto de vista religioso quanto étnico. De acordo com suas próprias palavras: “Nossa chamada [à luta contra o ISIS] foi para todos os iraquianos e não para uma seita particular [a dos xiitas]” (NPR, 2014).

O atual governo iraquiano do Primeiro Ministro Nuri al-Maliki, porém, não tem dialogado com os demais grupos do país e são constantes as críticas da parte de curdos, de árabes sunitas, de cristãos e até mesmo de outros xiitas. A brigada Mahdi, criada pelo clérigo Muqtada al-Sadr em 2003, e que enfrentou as forças americanas após a invasão, está entre os que não confiam em al-Maliki, declarando que combaterá os jihadistas sunitas mas sem nenhuma associação com o atual governo.

Com o avanço do ISIS no norte e oeste do Iraque e com a tomada de Mosul, a segunda maior cidade do país, estratégica em virtude de seus poços de petróleo, os jihadistas passaram a ameaçar diretamente as populações curdas e cristãs. O líder curdo Massoud Barzani declarou, no dia 27 de junho, que não pretende abrir mão do controle de Kirkuk, uma rica cidade multiétnica que os curdos, graças às suas bem equipadas forças militares, conseguiram defender dos violentos ataques do ISIS (Daily News, 2014). No rastro, portanto, destes enfrentamentos, os curdos do Iraque reafirmaram sua autonomia e se posicionaram de modo a deixar claro seu peso estratégico e político. Bem organizados e acostumados a viver em prontidão, são essenciais na defesa das fronteiras do norte do país, e o primeiro ministro al-Maliki ou qualquer outro governo que o suceda, não pode prescindir de seu auxilio.

Vali Nasr, analista atento das questões sectárias no Oriente Médio já se referiu, antes mesmo da emergência do ISIS, à difícil situação que se delineava no Iraque com a ascensão ao poder dos xiitas, majoritários no país. Para Nasr, durante a fase inicial de reestruturação após a derrubada de Saddam, os grupos xiitas consideraram o novo Estado como o seu estado enquanto para os sunitas, as forças de segurança que estavam se organizando eram xiitas, e não nacionais. Os confrontos foram frequentes e as divergências sectárias se mantiveram constantes (Nasr, 2006).

Com tantos conflitos, não é de se admirar que o ISIS tire partido da situação para fomentar o desmembramento do Iraque, o que servirá a seu propósito de enfraquecer sentimentos nacionais que possam se sobrepor à ideia do califado. No entanto, como o grupo jihadista ameaça outros poderes também sunitas, como a Jordânia, a Arábia Saudita e a Turquia, é possível que se aperte o cerco a ele, com apoios heterogêneos em torno do inimigo comum.

Os Estados Unidos continuam, ainda que de forma limitada, a auxiliar os rebeldes da Síria e apostam na possibilidade de que os grupos moderados venham a derrubar Assad. Trata-se, porém, de um cálculo perigoso que pode levar à abertura de mais espaço para o ISIS dentro do país. A Turquia teme a fragmentação do Iraque e o fortalecimento das reivindicações independentistas curdas nas suas fronteiras. O crescimento do fundamentalismo interno também é motivo de preocupação na sociedade turca e um hipotético retorno ao califado questiona, em última análise, todo o seu processo de modernização no decorrer do século XX, bem como sua aproximação com a Europa. Quanto aos xiitas iranianos e iraquianos, sua preocupação maior é o crescimento do terrorismo jihadista por parte dos sunitas radicais que atacam com muita frequência

mesquitas e outros lugares sagrados do xiismo.

Entre as informações mais recentes chegadas da região está a de que o atual governo do Iraque, embora alinhado aos americanos, começa a demonstrar simpatia pelas ações de Assad no combate ao ISIS. Al-Maliki declarou ao BBC’s Arabic Service que apoia os ataques aéreos que o governo sírio realiza na fronteira entre o Iraque e a Síria (BBC, 2014).

Neste contexto, o que se pode esperar, no Iraque, é o acirramento da violência sectária, e na Síria, o fortalecimento de Assad que cada vez mais contará com o apoio dos xiitas iranianos e mesmo iraquianos, como al-Maliki já sinalizou. Quanto ao Irã, este pode se beneficiar de um certo alívio das pressões norte-americanas na medida em que se torne um ator importante para conter a agressiva expansão do ISIS.

Nas próximas semanas deve haver uma recomposição de forças que inclua diversos países na tentativa de assegurar as fronteiras iraquianas mas também de impedir que o grupo fundamentalista se apodere de todas as ações contra Assad. Os Estados Unidos continuam fornecendo alguma ajuda aos rebeldes sírios moderados, o que, no entanto, talvez já seja um pouco tarde dada a considerável infiltração do radicalismo do ISIS no país. No Iraque, é possível que se tente um governo de união nacional e al-Maliki poderá ter dificuldades para se manter no poder, já que desagrada não apenas a curdos e sunitas mas também a diversos grupos xiitas, tendo recusado por diversas vezes o pedido de um encontro da parte do respeitado aiatolá Sistani. São muitas as mudanças que podem ocorrer e é difícil fazer previsões de médio prazo para um conflito de tamanha complexidade. A única certeza é a de que o atual equilíbrio de forças na região dificilmente se manterá por muito tempo sem alterações significativas.

Referências:

BBC, June, 27, 2014, Disponível em: [www.bbc.com/news/world-middle-east-28033684] Acesso em: 27/06/2014.

DAILY NEWS, June, 27, 2014. Disponível em: [http://www.dailystar.com.lb/News/Middle-East/2014/Jun-27/261832] Acesso em: 2/06/2014

DAILY STAR, June, 27, 2014. Disponível em: [www.dailystar.com.lb/News/Middle-East/2014/Jun-27/261767-despite-jihadist-drive-mideast-colonial-borders-seen-intact.ashx#axzz35nR98S7O] Acesso em: 27/06/2014

NASR, Vali (2006). The Shia Revival. New York; W.W. Norton, p.202.

NPR, June, 24, 2014, Disponível em: [ http://www.npr.org/blogs/parallels/2014/06/24/325169087/ ] Acesso em: 26/06/2014.

Carmen Lícia Palazzo é Doutora em História pela Universidade de Brasília -mUnB, Pesquisadora associada do Centro Universitário de Brasília – UniCeub, Consultora do PEJ/UnB e Pesquisadora do Grupo Officium da Universidade Federal da Paraíba – UFPB (carmenlicia@gmail.com).

2 Comentários em A emergência do ISIS/ISIL e as ameaças ao equilíbrio de forças no Oriente Médio, por Carmen Lícia Palazzo

  1. Acredito que o Curdistão se organizará como uma nação e não como califado. A questão é que o Curdistão pode se transformar em uma Palestina, com a Turquia exercendo o papel de Israel com relação a Cisjordânia, pois certamente as fronteiras turcas seriam repelidas por uma nação curda emergente, já que do outro lado a maioria é etnicamente curda. Ademais, acho que a integridade do Iraque são águas passadas. Os erros de Bush com os Mahdi (do clérigo Muqtada al-Sadr) foram determinantes para que o terrorismo se instalasse de forma incontornável e provocasse a impossibilidade de convivência entre sunitas e xiitas. Agora só resta ao Ocidente se dar por vencido e aceitar a retalhação do país.

  2. Sem dúvida o Curdistão não será parte de algum futuro califado mas, na verdade, não acredito que o califado se concretize. É uma reivindicação totalmente utópica mas que funciona como “palavra de ordem” para unir diversos grupos sunitas. Os xiitas, com exceção do período do califado Fatímida, sempre foram perseguidos pelos sunitas e foram considerados cidadãos de segunda categoria na estrutura das cortes califais. Também acho que pode haver o desmembramento do país mas tenho a impressão de que a fratura entre sunitas e xiitas tem raízes históricas muito profundas e dificilmente haveria algum acordo razoável, mesmo que não tivesse havido um Bush e seus inúmeros erros. Não sei até onde a divisão é o pior para o Ocidente, difícil prever. A Jordânia está entre os países que se sentem mais ameaçados pelo ISIS e, apesar do perfil baixo, está agindo.