Os objetivos da Turquia na Ásia Central, por Paulo Duarte

Até à dissolução da URSS, em 1991, a Turquia não dispunha, propriamente, de uma ‘estratégia’ face à Ásia Central, devido às suas políticas de segurança condicionadas pelos imperativos da era da Guerra Fria (Hunter, 2001; Aras, 2000). Por sua vez, como constata Hakan Fidan, “a opinião pública turca mostrava-se muito mais sensível em relação às comunidades turcas da Ásia Central, as quais são, muitas vezes, percebidas como ‘a pátria turca’” (2010: 110). No entanto, no pós-1991, “a opinião pública e os decisores políticos turcos viriam a desenvolver um maior interesse pela região” (Fidan, 2010: 110).

Henderson e Weaver informam que “a Turquia foi um dos primeiros países a reconhecer as Repúblicas da Ásia Central, imediatamente após a independência destas, no início da década de 90” (2010: 111). Segundo Bulent Aras, “o surgimento de ‘Estados irmãos’, às vezes designados de ‘Repúblicas túrquicas’, precipitou um surto de entusiasmo em quase todas as alas políticas na Turquia” (2008: 1). William Hale refere, por sua vez, que “a ideia de um mundo túrquico, desde o Adriático até à Grande Muralha da China”, se converteu num “novo tema de discussão nos círculos políticos turcos e nos meios de comunicação” (2000: 188).

A Turquia aspira a tornar-se “o novo centro energético na região”, um Estado-chave no trânsito de petróleo e gás natural,“ligando a Europa, a região do Cáspio, o Médio Oriente e o Mediterraneo” (Eissler, 2012: para. 1). Na verdade, a Turquia desempenha um papel cada vez mais importante a respeito do trânsito de petróleo, estando estrategicamente localizada no cruzamento entre as Repúblicas centro-asiaticas, ricas em recursos energéticos, o Médio Oriente e os centros de consumo europeus (U.S. Energy Information Administration, 2013). Como esclarece Mehmet Öğütçü, “ser um núcleo energético regional não significa, naturalmente, possuir apenas oleodutos e gasodutos cruzando o seu território” (2013: para. 39). Para a Turquia operar como um núcleo de gás natural, necessita de “ser capaz de importar uma quantidade de gás suficiente para satisfazer quer a sua própria procura doméstica, e qualquer compromisso de reexportação, bem como fornecer capacidade para transportargás do Cáspio e do Médio Oriente para a Europa” (Öğütçü, 2013: para. 39). No coração da política energética de Ancara existe uma economia em rápido crescimento, com níveis extremamente elevados de dependência face às importações de energia, e uma intenção do Governo em reforçar a posição da Turquia como potência regional (The Journal of Turkish Weekly, 2013; OECD, 2013; Daily News, 2012).

Quer a Turquia, quer os países da região do Cáspio, são, hoje, confrontados com ameaças, de vária ordem, à segurança das rotas de transporte e da infraestrutura, suscetíveis de perturbar, ou mesmo de interromper o fluxo de energia na região. As companhias petroliferasinternacionaisdependem significativamenteda passagem de petroleiros pelo Bósforo, uma via de navegação que mede apenas “700 metros de largura” no seu ponto mais estreito, sendo “um dos pontos de estrangulamento marítimosmais movimentados do mundo, por onde transitaram 2.9 milhões de barris de petróleo diários, em 2010” (New World Encyclopedia, 2013: para. 2). As autoridades turcas estão conscientes de que um acidente com um petroleiro, ou um ataque terrorista, poderiam levar ao encerramento do Bósforo, o que teria, naturalmente, graves consequências económicas, políticas e ambientais, em primeiro lugar, para a Turquia. Por outro lado, note-se que o Partido dos Trabalhadores do Curdistão tem, por diversas vezes, levado a cabo ataques contra os oleodutos e gasodutos a nível doméstico, “o que não deixa de ter um impacto no estrangeiro” na medida em que a Comunidade Internacional se questiona se a Turquia é, efetivamente, capaz de proteger as infraestruturas energéticas que se encontram no seu território” (Weiss et al, 2012: xii).

O colapso da União Soviética trouxe novas perspetivas e oportunidades – que estavam, anteriormente, fora do horizonte da política externa turca – em especial no Médio Oriente, no Cáucaso e na Ásia Central. Economicamente vibrante e politicamente “mais nacionalista e autoconfiante”, hoje Ancara não pretende mais continuar a desempenhar o papel de ‘parceiro subordinado’, tendo, inclusive, demonstrado, por diversas vezes, que as preocupações dos Estados Unidos pesam menos nas suas decisões de âmbito regional (Cornell, 2012: 17-18). Atualmente, a maioria dos desafios de segurança da Turquia estão concentrados no Cáucaso e no Médio Oriente, em particular no Iraque e Irão. Assim, por necessidade, Ancara tem vindo a aumentar a sua atenção nestasáreas (Gökhan Saz, 2011).

A energia é uma questão importante nos planos, simultaneamente, doméstico e externo da política turca, refletindo as necessidades de uma economia em rápido crescimento (European Bank for Reconstruction and Development, 2013). Dados do Ministério dos Negócios Estrangeiros turco (2013) indicam que o Produto Interno Bruto da Turquia aumentou 171% entre 1990 e 2008. A taxa de crescimento do país foi de 9% em 2010, e de 8.5% em 2011. A Turquia recuperou “de forma relativamente rápida” da crise económica que teve início em 2008 (Rodrik, 2012: 47). Este crescimento, no entanto, realizou-se à custa de uma dependência extremamente elevada face às importações energéticas, uma vez que “com reservas domésticas bastante limitadas, a Turquia importa quase todo o petróleo que consome” (U.S. Energy Information Administration, February 1, 2013). A título ilustrativo, em 2010, “a produção energética da Turquia satisfez apenas 29% da sua procura energética”, o que constitui“um dos principais problemas da segurança energética do país, que se repercute na sua política externa” (Tulin, Politika Academisi, 2013: para. 3). Segundo Mehmet Öğütçü, “o défice de abastecimento energético da Turquia” acaba, no fundo, por ser compensado pela extraordinária posição geográfica do país, localizado “entre o segundo maior mercado de gás natural, a Europa continental, e as reservas substanciais de gás natural da Rússia, da bacia do Cáspio e do Médio Oriente” (2013: para. 31). Esta localização proporciona à Turquia “a oportunidade de ser o principal núcleo de gás natural europeu, e um ator vital face à política de gás natural em toda a região” (Öğütçü, 2013: para. 31).

A principal prioridade energética do Governo turco consiste em garantir a segurança do abastecimento a preços acessíveis (Balat, 2010; Yıldız, 2010). A vitalidade económica do país, os seus fortes laços transatlânticos, e a infraestrutura energética existente, fazem da Turquia um parceiro atrativo para países europeus importadores de recursos energéticos (U.S. Commercial Service, 2013). De acordo com o ex-Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Stephan J. Hadley, “a Turquia tornou-se um dos cinco ou seis países mais importantes do mundo”; (…) “É irónico… se olharmos para a sua performance económica, ficamos na dúvida se é a Turquia que deve aderir à União Europeia ou a União Europeia que se deve juntar à Turquia” (Cit. porAyhan Simsek, 2012: para. 1).

A localização da Turquia permite-lhe um acesso fácil a abastecimentos provenientes do Mar Cáspio, Médio Oriente, Rússia e norte de África. Os responsáveis turcos regozijam-se com o facto de “70% das reservas [mundiais] comprovadas de petróleo e gás natural se encontrarem na sua vizinhança imediata” (Tulin, 2013: para. 1). O país desempenha um papel importante no trânsito de petróleo e gás natural a partir destas regiões. Vários oleodutos e gasodutos trazem quantidades significativas de petróleo e gás natural, desde a Rússia e o Azerbaijão, para a Turquia, sendo que grandes quantidades de petróleo russo e cazaque são expedidas através do Bósforo (Corkill, 2010). A Turquia fornece, igualmente, uma saída importante para o crude iraquiano, através do oleoduto Kirkuk-Ceyhan, construído no fim dos anos 70 (Openoil, 2013).

Bibliografia

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Balat, M. (2010). Security of Energy Supply in Turkey. Challenges and Solutions, Energy Conversion and Management, 51.

Cornell, S. (2007). Commentary, so far, Europe’s approach to Central Asia has been moralistic and counter-productive, Europe’s World

Corkill, BIMCO News, July 21, 2010, https://www.bimco.org/en/News/2010/07/21_Feature_Week_29.aspx

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Öğütçü, M. (2013).Todays Zaman, January 23,http://www.todayszaman.com/news-304955-natural-gas-as-the-game-changer-implications-for-and-actions-from-turkeyby-mehmet-ogutcu-.html

Openoil, January 30, 2013, http://wiki.openoil.net/index.php?title=Kirkuk-Ceyhan_Oil_Pipeline

Saz, G. (2011). The Political Implications of the European Integration of Turkey: Political Scenarios and Major Stumbling Blocks, European Journal of Social Sciences, n.º 1

Simsek, A., (2012). Deutsche Welle, July 3, http://en.qantara.de/From-Regional-to-Global-Player/19412c497/

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Tulin, Politika Academisi, 2013, http://politikaakademisi.org/?p=4738

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Yıldız, T. (2010). Turkey’s Energy Policy, Regional Role and Future Energy Vision, Insight Turkey, 12, n.º3

Paulo Duarte é investigador do Instituto do Oriente em Lisboa. (duartebrardo@gmail.com)

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