As fronteiras estatais do Oriente Médio: Interferência Ocidental no Século XX, por Luciano Kneip Zucchi

Até a Grande guerra, a região era uma divisão administrativa do Império Otomano, sendo gerida por governantes locais e organizada em províncias cujas delimitações físicas eram mutáveis, variando de acordo com relações locais, e implicando sua submissão a ‘Sublima Porta’(Istambul) basicamente no pagamento de taxas, sendo a característica exploratória tradicionalmente exercida pelos Otomanos do ‘tipo tributário’, diverso dos ‘modelos ocidentais’, praticados por países Europeus em suas colônias.

Antes mesmo do término do conflito, Londres e Paris acertaram, segundo interesses estratégicos, a partilha da região para consolidar a sua presença na área que crescia vertiginosamente em importância para o ocidente, tanto por motivos geopolíticos quanto econômicos (Suez, detrimento da Rússia bolchevique, reservas energéticas). A intenção neocolonialista do Acordo Secreto de Sykes/Picot, de 1916 provocou conflito de interesses com os árabes, aliados dos britânicos durante o conflito que, após a derrocada do Império Otomano, pretendiam conseguir a autonomia política, e foram prejudicados pelo acordo.

Contrariamente a isso ao final da guerra, tanto Lênin rechaçara o colonialismo em função da Revolução Russa, como a presidência americana, expressa nos ‘Doze Pontos de Wilson’ e manifestados na diplomacia internacional. Ambos reconheciam e defendiam o direito de autodeterminação dos povos contra antigos impérios, tais teses foram incorporadas no ‘Pacto da Sociedade de Nações’.

Nessa conjuntura, o ‘Sistema de Mandatos’ estabelecido nos tratados do pós-guerra, coloca-se como saída para manter o controle sobre as áreas antes mantidas sob o domínio dos países derrotados, camuflando o domínio colonial que se mantem sob novo formato.

Reino Unido e França partilharam o Oriente Médio sob tal regime que, em tese, representava um controle provisório, mas sem prazo final agendado; e segundo a interpretação dos próprios mandatários, de quando considerassem que as nações tuteladas estivessem prontas e aptas para se governarem. Esse acerto foi imposto à Istambul no tratado de Paz de Sèvres, firmado em outubro de 1920, com a drástica redução territorial do antigo império, e a criação de mandatos britânicos e franceses em regiões que hoje correspondem a Síria, Iraque, Líbano Palestina e Transjordânia, cujas fronteiras artificiais foram devidamente reconhecidas pela Liga das Nações.

Assim, foi implantado o novo sistema de dominação na região, com a divisão dos árabes no desmembramento do império oriental, a região passou à tutela franco-britânica. Isto frustrou o nacionalismo árabe incentivado durante a Grande Guerra para enfraquecer a Sublime Porta, designação de 1718 a 1922 do governo otomano em Istambul; após a queda do Sultão e da monarquia, Ancara passou a ser capital da recém-fundada República da Turquia.

O sistema de mandatos foi instituído e regulado no Art. 22 do Tratado de Versalhes pela Sociedade de Nações, acordado em fevereiro de 1919, que pretendia regular a situação das ex-colônias dos Impérios derrotadas e habitadas por populações ainda não capacitadas para se governarem. Esse era o contexto das comunidades da Palestina, Síria, Líbano e da Mesopotâmia, doravante separadas do Império Otomano e administradas por mandatários enviados por Londres e Paris.

Tal sistema gerou descontentamento e conflitos na região, pois as populações árabes, libertas do domínio turco, passaram à tutela de impérios cristãos, francês e britânico. Ao invés da projetada nação árabe unida, aconteceu a divisão do Médio Oriente em países distintos e heterogêneos, somando-se a isso mais um motivo para o descontentamento entre os árabes, o compromisso assumido pelo Reino Unido com os sionistas, demonstrada na declaração Balfour de 1917, tornada a pública pela agência judaica em 1919, isso porque diferentemente dos britânicos, interessava-lhes a divulgação de tal apoio, essa revelação iniciou as preliminares das animosidades entre judeus e árabes na Palestina.

Segundo José Martínez Carreras, 1991, o desmembramento do Império Otomano tanto decorreu da iniciativa francesa, que pretendia estabelecer-se na Síria e no Líbano, como dos sionistas, que visavam ocupar a Palestina com colaboração dos britânicos. Portanto, estes, ao invés de estabelecerem um protetorado único sobre o antigo território submetido a Istambul, cindiram-no conforme a máxima empregada na partilha afro-asiática de “dividir para dominar”. Também contribuiu para o desmembramento, a atitude dos setores dirigentes árabes, tradicionais e conservadores, que não se opuseram à desagregação pois a acataram, cooperaram com as potências mandatárias para permanecerem no poder local. Assim, Paris e Londres fomentaram uma política de alianças com as famílias dominantes, que foram presenteadas com tronos, mas cuja nação continuava sem soberania, submetida tanto ao estrangeiro como à imutável e antiga elite local.

Na Síria, após 1918, o ‘Partido da Independência Árabe’ proclamou sua autonomia sob o Rei Feysal, cujo regime de monarquia constitucional comandaria os atuais territórios da Síria, Líbano, Transjordânia e Palestina. No entanto, forças militares francesas ocuparam a região e depuseram o monarca; e colocaram uma nova administração, refixaram as fronteiras, concedendo autonomia a certos territórios para obter apoio de grupos minoritários e dividir a oposição; caso do Líbano tornado Estado autônomo em relação à Síria.

Londres concebeu a criação do Reino da Transjordânia, então parte da Palestina, com vistas a constituir uma área de transição e de equilíbrio estratégico para ela com os países recém-formados: Arábia Saudita, a Síria francesa e o Iraque britânico. O novo governo coube a Abdullah, dirigente da elite árabe Hachemita que, em troca, renunciou a seus direitos sobre Bagdá. Quanto à Palestina, buscou assegurar o domínio sobre a região para garantir a rota terrestre com o Canal de Suez sob seu controle, mantendo assim, a ligação entre áreas do império que não poderiam prescindir dessa rota.

Houve promessas contraditórias no curso das tratativas sobre o futuro da região, tanto no sentido da libertação dos povos árabes quanto no estabelecimento do lar nacional para o povo judeu. A Declaração Balfour, de novembro de 1917, foi o primeiro documento oficial Britânico a reconhecer o direito dos judeus para estabelecerem seu Lugar Nacional na Palestina. O texto revela palavras dúbias e que levam a interpretações variadas. Afinal, os britânicos dizem sem dizer para, ao mesmo tempo, atender aos judeus, mas sem se comprometer com as demais comunidades étnicas da Palestina. Eis o texto, basta lê-lo com atenção para perceber a dubiedade da redação:

Foreigen Ofice, dois de novembro de 1917

Estimado Lord Rothschild:

Tenho grande prazer em lhe enviar, em nome do governo de Sua Majestade a seguinte declaração de simpatia com as aspirações sionistas judaicas, que Foram submetidas ao gabinete e aprovadas por ela. O governo de Sua Majestade considera favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um ”Lugar Nacional” para o povo judeu, e se esforçará em tudo que seja possível para facilitar a consecução deste objetivo, ficando claramente entendido que não se fará nada que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judias existentes na Palestina, ou os direitos e o estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país.

Le agradeceria se colocasse esta comunicação no conhecimento da Federação sionista.

Sinceramente seu

Arthur James Balfour

Essa declaração será a base que configurará uma solução de compromisso para o problema anti-semita no continente europeu; entretanto e paradoxalmente redundará em estranhamento e novos conflitos, agora entre judeus e os árabes habitantes não só da Palestina como de todo Oriente Médio. Nesse contexto as potências europeias deságuam uma contradição que é sua (anti/semitismo), ao mesmo tempo em que reiteram seus preconceitos, exportando-os para a região.

Após a guerra, a instalação do mandato britânico realizou-se com a presença de três forças na região: a potência mandatária, os sionistas e os palestinos. Estes se consideram traídos por Londres e reagiram contra a presença judaica e britânica. O fracasso do mandato Britânico tornou-se inevitável, pois continha metas inconciliáveis ao assumir tanto o compromisso com o desenvolvimento do povo submetido, visando à sua autonomia, como ao defender o estabelecimento do “lar nacional para o povo Judeu” na Palestina.

O Iraque proclamou a independência sob o governo monárquico de Abdullah, destituído, a posteriori, por se mostrar incompatível com os interesses franco-britânicos. Face às dificuldades em controlar a região por meio do mandato direto, Londres reconheceu a independência do país, instalou um soberano aliado no governo, com direito à intervenção militar em caso guerra. Afinal, em razão da abundância de petróleo na região, recurso energético fundamental na produção industrial e no transporte, era necessário manter a estabilidade política na região. Feysal, monarca hachemita expulso pelos franceses da Síria, ganhou apoio britânico para reinar no estado mesopotâmico após a renúncia do seu irmão Abdulahh, compensado, por sua vez, com o trono na Transjordânia, outra invenção britânica, que contará sempre com seus antigos aliados do clã peninsular dos ‘Achem’ para os representar. No kuwait, também formado artificialmente por Londres, a família aliada é a dos ‘Al Sabá’, que ganhará o trono do emirado.

Podemos concluir, sem grandes duvidas, que a artificialidade com que foram traçadas as fronteiras do oriente médio, por potências e interesses exógenos, pós I Grande Guerra, contribuíram (ainda contribuem!), decisivamente para os conflitos na região, tanto entre os estados árabes e Israel, como também entre os próprios árabes, a exemplo da invasão do Kuwait pelo Iraque em 1990, cujas causas estão diretamente ligadas a construção geográfica artificial deste emirado, para beneficiar ‘interesses ocidentais’, e a consequente guerra do golfo de 1991, como também a invasão e ocupação do Iraque em 2003 capitaneadas pelos EUA, exemplos de conflitos que são inequívocos produtos de tais interesses.

Fontes:

Acordo Picot/Sykes, 1916.

Declaração de Balfour, 1917.

Tratado de Versalhes, no âmbito do artigo 22, 1919.

Tratado de Sèvres, 1920.

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Luciano Kneip Zucchi é mestre em história social pelo Centro de Letras e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina – CLCH – UEL (lucianokzucchi@hotmail.com)

2 Comentários em As fronteiras estatais do Oriente Médio: Interferência Ocidental no Século XX, por Luciano Kneip Zucchi

  1. Texto excelente!
    Fico espantado com os interesses políticos-econômicos de uns “donos do mundo”, que modificam toda uma geopolítica de uma dada região, arrastando e apagando fronteiras como se estivessem brincando de desenhar em suas escrivaninhas marotas.
    Somos todos fantoches!