Os objetivos do Irão na Ásia Central, Paulo Duarte

Para Almaz Saifutdinov (2012), “o Novo Grande Jogo é, essencialmente, jogado pelos Estados Unidos, Rússia, China e Irão”. De acordo com Farrukh Suvankulov e Yunus Guc, “por razões históricas, o Irão tem-se considerado, desde há muito, a porta para a Ásia Central” (2007: 27). Devido à ocupação russa e, depois, à expansão soviética no século XX, os laços entre o Irão e a região diminuíram consideravelmente de intensidade (Suvankulov e Guc, 2007: 27). Porém, nos últimos 15 anos, “o país tem procurado estimular as relações económicas e políticas com as Repúblicas centro-asiáticas” (Suvankulov e Guc, 2007: 27). O foco dos esforços tem sido nas áreas em que o Irão compartilha um património histórico, cultural e linguístico (Tajiquistão e certos oblasts do Uzbequistão). Teerão tem apoiado, oficialmente, o intercâmbio cultural, educacional e religioso com o Tajiquistão.

Segundo Zehra Akbar, “com a queda da União Soviética, o paradigma da política externa iraniana foi alvo de alterações significativas”, no âmbito das quais “os decisores políticos passariam a ter de lidar com um conjunto de diferentes Estados independentes cujos objetivos podiam ou não estar alinhados com os interesses iranianos na região” (2012: 7). Uma vez que grande parte da região havia, outrora, integrado o Império Persa, o colapso da URSS proporcionou ao Irão uma oportunidade extraordinária para explorar, não só a ligação cultural com o que, por vezes, é denominado ‘Ásia Média’, mas também para utilizar a sua posição geoestratégica para manobrar a dinâmica desta região, e contrabalançar a influência de nações competidoras, tais como a Rússia e a China, e de países e organizações entendidos como ameaças diretas à segurança e soberania do Irão, tais como os Estados Unidos e a NATO (Akbar, 2012: 7). Além disso, Teerão considera ser vantajoso neutralizar a influência exercida pela Turquia (considerada um ‘lacaio’ do Ocidente) e pelo Paquistão (um adversário tradicional do Irão) na Ásia Central (Dario, 2010).

À exceção das restantes Repúblicas centro-asiáticas, Tajiquistão e Irão comungam de raízes culturais, históricas e linguísticas comuns. Como refere Monica Witt, “os tajiques possuem um bom relacionamento com os iranianos, em grande parte devido a cerca de 2500 anos marcados por uma história comum” (2012: para. 4). Ambos falam a mesma língua, embora os alfabetos difiram (Witt, 2012). A cultura, cinema e meios de comunicação iranianos são bastante populares no Tajiquistão (Witt, 2012). O “Norooz, ou celebração do Ano Novo iraniano”, é outra carateristica cultural partilhada por ambos os países (Witt, 2012). O problema no relacionamento entre o Irão e o Tajiquistão é que, “embora ambos possuam a mesma língua, cultura e tradições, eles são bastante diferentes no que respeita à religião: os tajiques são, na sua grande maioria, sunitas, enquanto os iranianos, fundamentalmente, xiitas” (Saifutdinov, 2012). Almaz Saifutdinov (2012) explica que não existe um ambiente propício ao florescimento do Islão xiita no Tajiquistão. No entendimento de um especialista local (que solicitou o anonimato), “os quirguizes, os cazaques e os uzbeques não concebem a antiga Pérsia como uma fonte de civilização cultural; os tajiques e os turquemenos também não”. Por conseguinte, por muito que os iranianos se esforcem, não conseguirão ser um jogador (muito) influente na região. Zehra Akbar comunga deste ponto de vista, apresentando os seguintes argumentos: “a rejeição, por parte das Repúblicas centro-asiáticas, do modelo económico iraniano, e a preferência, ao invés, por modelos ocidentais de desenvolvimento; a aversão das Repúblicas centro-asiáticas ao surgimento de ‘guias’ e ‘mentores’ na região, no período que se seguiu à sua independência face à Rússia, e as tentativas que se sucederam em impedir um regresso a uma situação de dominação russa; e a incapacidade financeira do Irão para aproveitar o seu potencial estratégico na região” (2012: 8).

Um outro aspeto importante é que “o Irão está, atualmente, sob uma intensa pressão por parte dos Estados Unidos, [e em sentido lato] por parte da Comunidade Internacional, por causa do seu programa nuclear”, sendo que o autor estima que “[os iranianos] não dispõem de tantas ferramentas [económicas] para operar no Tajiquistão como outros jogadores envolvidos no país” (Saifutdinov, 2012). Além do envolvimento na “construção de túneis e centrais hidroelétricas no Tajiquistão”, é de mencionar que “Teerão presta auxílio humanitário aos tajiques, através, por exemplo, da Fundação Khomeini” (Saifutdinov, 2012). De acordo com o Iran Daily Brief, “desde que está presente no Tajiquistão, a Fundação Khomeini tem auxiliado dezenas de milhares de famílias pobres por meio do fornecimento regular de serviços e produtos” (2013: para. 1). Além disso, “a Fundação prestou uma assistência inicial a 5000 casais jovens, e instituiu ações de formação em várias áreas técnicas, forneceu medicamentos a milhares de famílias carenciadas, bem como assistência a mais de 170 000 estudantes com necessidades” (Iran Daily Brief, 2013: para. 1).

No que diz respeito à cooperação económica, “o Irão tem procurado expandir a infraestrutura de transporte na região, com o objetivo de controlar o trânsito de mercadorias de e para esta” (Suvankulov e Guc, 2012: 27). Por outro lado, “o Irão patrocinou o corredor Sarakhs-Bandar Abbas, que liga o Turquemenistao e outras Repúblicas centro-asiáticas às vias marítimas internacionais mais próximas” (Suvankulov e Guc, 2012: 27). Os iranianos construíram o Túnel de Anzab no Tajiquistão (Suvankulov e Guc, 2012). Além disso, em 2009, os Presidentes Ahmadinejad, Karzai e Rakhmon acordaram a construção de uma nova estrada entre o Irão e o Tajiquistão, através do norte do Afeganistão (Suvankulov e Guc, 2012). Acrescente-se que o Irão pretende participar numa série de projetos de exploração de petróleo e gás natural no Cáspio (Suvankulov e Guc, 2012). Teerão estabeleceu “várias de zonas de livre comércio perto das fronteiras com a Ásia Central, das quais se destacam Sarakhs e Bandar Anzali, por serem as maiores” (Suvankulov e Guc, 2012: 27).

Segundo Zehra Akbar, “ao longo dos últimos 15 anos, o enfoque tradicional do Irão no Golfo Pérsico tem vindo a ser gradualmente deslocalizado para as Repúblicas centro-asiáticas” (2012: 7). Em resultado da natureza interior desta região, o Irão dispõe de um potencial económico extraordinário a oferecer às Repúblicas centro-asiáticas, através de rotas que conduzem não só ao subcontinente indiano, mas também a infraestruturas portuárias no Irão. O Irão tem realizado incursões nas Repúblicas centro-asiáticas, privilegiando o comércio e o investimento em infraestruturas, com especial atenção para o caso do Tajiquistão, Afeganistão, Uzbequistão e Arménia (Peyrouse e Ibraimov, 2010). O objetivo de Teerão é o de criar “uma ampla rede de laços regionais e instituições que possam servir de contrapeso à pressão geopolítica dos Estados Unidos” (Kucera 2006). Em 2005, “o Irão completou um troço rodoviario, de 125km, no valor de 43 milhões de dólares, que liga a região iraniana de Dougharoun a Herat” e anunciou que irá construir “uma via férrea de 176 km desde o Irão a Herat” (Akbar, 2012: 7). Em 2004, o Irão concluiu os 1000 km da via férrea Bafq-Mashhad, que encurta em dois dias a ligação ferroviária desde a Ásia Central até ao Golfo Pérsico (Akbar, 2012: 7). Teerão tem vindo a apostar, nos últimos anos, nas trocas comerciais com os seus vizinhos regionais, em especial, com o Turquemenistao e o Uzbequistão (Akbar, 2012: 7).

De acordo com Clément Therme, “os especialistas iranianos destacam, com frequência, a proximidade cultural do Irão face à Ásia Central” e, portanto, tendem a conceber a região como “uma entidade cultural, económica e geopolítica” (2012: 6). Por outro lado, eles caraterizam a política do Irão relativamente à Ásia Central como “favorecendo a autossuficiência entre os Estados regionais e a exclusão das potências extrarregionais (referindo-se aos Estados Unidos)” (Herzig, 2004: 505-6). O Irão necessita de um mercado regional. Neste sentido, Teerão procura “desenvolver ainda mais as suas relações com as Repúblicas centro-asiáticas e com os países do Cáucaso” (Islamic Invitation Turkey, 2013: para. 1). Com efeito, “a Administração do ex-Presidente Ahmadinejad dedicou, nos últimos anos, especial atenção à cooperação económica, cultural e política com o Cazaquistão, o Tajiquistão, o Turquemenistao, o Uzbequistão e o Quirguistao” (Islamic Invitation Turkey, 2013: para. 4).

Bibliografia

Akbar, Z. (2012). Central Asia: The New Great Game. The Washington Review of Turkish & Eurasian Affairs, October, http://www.thewashingtonreview.org/articles/central-asia-the-new-great-game.html

Herzig, E. (2004). Regionalism, Iran and Central Asia, International Affairs, 80, n.º 3, 505–6. 

Iran Daily Brief, March 8, 2013, http://www.irandailybrief.com/2013/03/08/jomhouri-eslami-editorial-calls-on-leaders-to-exhibit-caution-and-intelligence-in-view-of-the-strengthening-of-iranian-currency-following-the-nuclear-talks-2/

Islamic Invitation Turkey, April 12, 2013, http://www.islamicinvitationturkey.com/2013/04/12/iran-eager-to-further-expand-ties-with-central-asia

Peyrouse e Ibraimov (2010). Hudson Institute, August 17, http://www.currenttrends.org/research/detail/irans-central-asia-temptations

Peyrouse, S., et al, 2012, Security and development approaches to Central Asia. The EU compared to China and Russia, EUCAM Working Paper n.º 11.

Saifutdinov, A. (2012). Entrevista Pessoal. Dushanbe..

Suvankulov, F. e Guc, Y. (2012). Who is Trading Well in Central Asia? A Gravity Analysis of Exports from the Regional Powers to the Region,Eurasian Journal of Business and Economics, 5 (9), 21-43.

Witt, M. (2012). International Affairs Review, April 2, http://www.iar-gwu.org/node/398

Paulo Duarte é investigador do Instituto do Oriente em Lisboa. (duartebrardo@gmail.com)

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