Implantação do Estado de Israel, e a Gênese dos Conflitos Israelo/Árabes, por Luciano Kneip Zucchi

O término da II Guerra Mundial e a derrota do nazismo revelou os horrores e a perseguição perpetrada por este aos judeus europeus, culminado com a política da Solução Final para o “problema judaico”, ou seja, o genocídio da sua população. A comoção surgida, principalmente nos EUA, reforçou a opinião pública ocidental favorável à criação da pátria judaica. No Oriente Médio, onda de imigração pós-45 só tendeu a crescer e, em 1947, sem conseguir deter a imigração clandestina de judeus, Londres encaminhou a Questão Palestina às Nações Unidas. Então seus representantes elaboram um plano de partilha, no qual aquele território abarcaria um Estado judaico e outro árabe. Israel com 14 mil Km² incluindo a Galileia Oriental, a faixa entre Haifa a Telaviv e a região do deserto de Negueve até o Golfo de Ácaba. O árabe, com 11 mil Km² incluía a Cisjordânia e a faixa de Gaza enquanto Jerusalém teria status internacional.

Em 29 de novembro de 1947, o plano de partilha palestina foi aprovado, apesar de todos Estados Árabes se mostravam contrários à decisão e dispostos a tudo para impedir a criação do Estado de Israel. A pretexto de protegerem interesses dos Palestinos, então desorganizados, de fato, camuflavam interesses próprios como demonstrou Abdula, que em Cairo a 10 de abril 1948, avisou da invasão da Cisjordânia logo após a debandada das forças britânicas.

O Rei Faruk, do Egito, advertiu que o país deveria ser entregue aos palestinos para que escolhessem seu governo, apoiado por Abdula (monarca em Aman), pois para ele não era necessário conquistar, ocupar nem partilhar; o povo era um só e a Palestina, a banda costeira da Transjordânia. Os sírios perceberam o tom do discurso em detrimento a seus interesses pois, em vez da Palestina ser parte do “Sul da Síria”, passaria a ser “Litoral” da Transjordânia; e, no lugar da “Grande Síria”, “Grande Transjordânia”, com o que não podiam concordar. De fato, os governos dos Estados no entorno nutriam interesses próprios e por vezes bem antagônicos que nada tinham com a proteção e o bem comum da população árabe da Palestina, em menor grau ainda, com a autonomia desta.

Essas ambições territoriais e de poder particulares dos aliados de ocasião contribuíram para a falta de comando diretivo centralizado em ações; ou até em inércia paralisante. Tais ações ou a falta delas não são justificáveis somente pela incompetência das elites dirigentes árabes, sem subestimá-la. Mas, também, por divisões internas, interesses obscuros, em ver o aliado e o inimigo se destruírem mutuamente para depois tirar proveito de ambos. Algo provável, pois Israel tinha de defender-se em várias frentes, concomitantemente. Mas o que será disseminado na mídia é a versão da competência do comando do Haganah a liderar o pequeno Davi israelense contra o gigante Golias árabe – de fato, era um Titã com pés de barro.

Em 1948 é visível o estado de guerra interna, entre sionistas e palestinos e entre os diferentes grupos sionistas, quando os britânicos boicotaram o plano e desocuparam a região. A 14 de maio, os judeus proclamaram o Estado de Israel, logo invadido por forças da Liga Árabe que, embora em maior número, foram rechaçadas, em parte, devido a suas divisões internas com sírios detidos na Galiléia por pelas fortificações de Kibbutz. No dia 29, comandada pelo inglês Glubb Pacha, a Legião Árabe da Jordânia ocupou a parte antiga de Jerusalém que só deixará na Guerra de 1967. O Egito, conquistou o deserto do Negueve e a Faixa de Gaza; ainda em 30 de maio foi assinado o cessar fogo.

Paralelamente à ação defensiva contra os Estados Árabes, internamente houve recrudescimento do estado de guerra interna entre os extremistas do Irgum e do grupo Stern. Que recorreram aos mais variados mecanismos terroristas para expulsar os palestinos árabes dos territórios ocupados onde, sem dúvida, culminando com o covarde massacre dos habitantes da Aldeia de Deir Yassim, ao que se seguiu o êxodo palestino de grandes proporções, principalmente para as áreas controladas por Abdula. Isto causará problemas posteriores na Jordânia, onde, no Setembro Negro de 1970, o Rei Husseim mandou os beduínos massacrarem e expulsarem seus “irmãos árabes”

Após grandes contingentes deles refugiaram-se no sul do Líbano, onde se tornam alvos de ataques israelenses. Pior, a presença agravou as divergências entre cristãos e muçulmanos quebrando o precário equilíbrio deflagrando em parte, da Guerra Civil que arrasou o país de 1975 a 1976.

Ao analisar a situação do Oriente Médio após1945 percebe-se que um dos principais problemas decorrentes da criação do Estado de Israel e a imediata guerra travada pelos países árabes, deflagrou a questão dos refugiados. Segundo os árabes, 750.000 foram expulsos de suas terras; segundo israelenses, eles eram instigados pelos seus líderes; quiçá uma mescla de fatores. Seja como for, o êxodo palestino os desestabilizou, enquanto Israel foi beneficiado pois assegurou a maioria judaica no Estado recém-criado. Mas, hoje, constituiu-se questão humana de fundamental importância e solução imprescindível e para todos que ainda crêem num mundo sem barreiras ou separações advindas do absurdo da discriminação étnica ou religiosa. E talvez, como torce Akcelrud, 1984, quando ocorrer um real e inequívoco:

Acordo Israelo-Palestino será o sinal desencadeante de um imenso e generalizado movimento de libertação de todo o Oriente Médio. Os privilégios feudais, os grandes negócios petrolíferos, os superlucrativos negócios da indústria Bélica os controles estratégicos, todo o complexo de exploração e dominação do Oriente Médio estará em risco no dia em que Israelenses e Palestinos decidirem pela “Paz entre nós, guerra aos senhores” .

Torçamos para que ao menos o conflito entre eles possa findar, e as feridas causadas por anos de agressões mútuas tenham tempo de fechar-se. As recentes rebeliões em países árabes redundaram, por enquanto, em quatro quedas de regimes ditatoriais, Tunísia, Egito, Líbia, Yemen, de vieses diversos claro! Então, podemos depreender que a frase de Akcelrud, cerca de trinta anos atrás, que na época poderia parecer deveras otimista, hoje não parece tão utópica, pois percebemos que até em Israel a opinião pública não suporta mais o estado de guerra perpétua e anseia por uma paz duradoura.

Quem sabe ressurja a discussão sobre a alternativa de formação de um Estado único e democrático compartilhado por duas nações, defendida pelo saudoso intelectual palestino-americano Edward Said, 2010, para quem a “Palestina histórica”, hoje é uma causa perdida. Tony Judt, 2011, reforça a sua visão ao concordar: “Isso vale também para a Israel histórica. De um jeito ou de outro uma entidade institucional única, capaz de respeitar as duas comunidades, terá de emergir, embora o quando ou de que forma isso possa acontecer possa parecer obscuro

Porém a análise ‘realística da situação’ demonstra que as chances de tal ocorrer parecem minimizadas ao extremo. Talvez, no esgotamento das propostas tentadas, restará, finalmente e somente, a perspectiva de paz para ambos os povos, que para Márcio Scalércio,2003, foram “Condenados a conviver”; e para Said, 1995, estão “Inextricavelmente ligados numa mesma região, a Palestina”. De utopias já se construíram estados, a própria formação de Israel no Século XX, fruto de uma utopia voluntarista é prova disso, o paradoxo reside em que ao conquistar o direito ao um estado seu, o sionismo despossuirá outro povo que a séculos fazia da palestina seu lar, a ‘Shoa judaica’, tragédia do povo judeu, comparada por muitos as dores de parto do estado de Israel, ao mesmo tempo que dará a legitimidade para este pleitear seu ‘lugar nacional’ entre a assembleia das nações, iniciará a ‘Naqba’, a catástrofe para o povo palestino’. Mais um paradoxo produzido num século que foi pródigo na produção destes

Fonte:

Declaração de Balfour, 1917

Bibliografia

AKCELRUD, Isaac (1984). O Oriente Médio. São Paulo: Atual..

CATTAN, Henry (1987). Palestina, los Árabes de Israel. México: Siglo XX I, 1987.

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MASSOULIÉ, François (1996). Os conflitos do oriente médio. São Paulo.

JUDT, Tony (2010). Reflexões sobre um século esquecido, 1901-2001. Rio de Janeiro: Obejtiva.

SOLIMAN, Lotfallah (1990). Por uma história profana da Palestina. São Paulo: Brasiliense.

SAID, Edward (1995). The politics of dispossession: the struggle for Palestinian self-determination 1969-1994. Nova York: Vintage, Eooks.

SCALÉRCIO, Márcio (2003). Oriente Médio: Uma análise reveladora sobre dois povos condenados a conviver. Rio de janeiro: Campus, 2003.

VISENTINE, Paulo G.F (2012). A Primavera Árabe: entre a democracia e a geopolítica do petróleo. Porto Alegre: Leitura XXI.

VISENTINE, Paulo G.F (2003). Oriente Médio e Afeganistão: um século de conflitos. Porto Alegre: Leitura XX I.

ZUCCHI, Luciano Kneip (2012). Israel: Conflitos no Oriente Médio. In VASCONCELOS, André; LENZ, Sylvia(orgs.). A Segunda Guerra e Pós 1945. Outras Abordagens. São Paulo/Londrina: Clube de Autores/Universidade Estadual de Londrina(UEL).

Luciano kneip zucchi é mestre em História Social pelo Centro de Letras e Ciências Humanas – CLCH da Universidade Estadual de Londrina -UEL.(lucianokzucchi@hotmail.com)

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