Marcos estruturais e conjunturais das relações diplomáticas entre Rússia e Estados Unidos, por Elói Martins Senhoras

A evolução das relações entre a Rússia e os Estados Unidos é marcada por um longo ciclo histórico que se estruturou por meio de uma dinâmica pendular de aproximações e distanciamentos que se manifestaram em determinadas periodizações, com tendências, tanto, de cooperação, quanto, de conflito entres os países na garantia dos interesses nacionais.
O bicentenário de comemoração das relações diplomáticas entre Rússia e Estados Unidos no ano de 2007 mostra uma história de longa duração que vem até aos dias atuais, sendo marcada por diferentes tendências estruturais de cooperação e conflito entre os países, com base em um marco temporal que se inicia em 1807 e que se desenvolveu por meio de quatros marcos de periodização.
Em um primeiro momento, a década de 1860 caracterizou-se pelo início de uma aproximação entre os países por meio de parcerias comerciais, suporte da Rússia ao governo central dos Estados Unidos durante a Guerra Civil Americana (1861-1865) e compra do território do Alasca pelos Estados Unidos em um contexto de dificuldades financeiras e de potencial perda do território pela Rússia em um eventual conflito promovido pelo Império Britânico que à época detinha a posse do Canadá (SOROKIN, 2009).
Em um segundo momento, a despeito dos Estados Unidos não reconhecer as transformações socialistas na Rússia em 1918 e a conformação da União Soviética em 1922, houve uma baixa cooperação, restrita ao fornecimento de assistência humanitária no período de 1921 a 1923, a qual foi intensificada significativamente com a entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial e o conseqüente fornecimento de suprimento bélico na luta contra a Alemanha Nazista (TSYGANKOV, 2012).
​Em um terceiro momento, com o fim da II Guerra Mundial, os dois países antes aliados na guerra tornam-se inimigos no período que vai entre 1947 e 1991, com a conformação de uma cortina de ferro na Europa, a qual definia as áreas de influência da União Soviética no leste europeu, bem como, com a difusão de zonas de influência capitalista e socialista no globo sob a liderança destas duas potências, tendo a Guerra da península da Coréia sendo o ponto oficial de surgimento da Guerra Fria.
​Em um quarto momento, com os episódios da queda do muro de Berlim (1989) e do desmoronamento da União Soviética (1991), a Guerra Fria entre os blocos socialista e capitalista chega ao fim, abrindo novas oportunidades bilaterais e multilaterais de cooperação política e econômica por partes dos Estados Unidos e Rússia, porém com a manutenção de resquícios de determinados atritos, oriundos dos dilemas geopolíticos do passado, ou, com a conformação de novos temas contenciosos.
​Na curta duração torna-se relevante abordar o período pós Guerra Fria à luz dos principais marcos conjunturais de tensionamento das relações entre os Estados Unidos e a Rússia a fim mostrar que há a conformação de uma silenciosa Nova Guerra Fria, em especial a partir da década de 2000, após a saída da Rússia de uma década de retração econômica e política na década de 1990.
​No ano de 1994, com o envio de tropas russas para a região separatista da Chechênia, importante centro produtor de petróleo, iniciou-se uma linha de tensões nas relações entre Rússia e Estados Unidos, classicamente definida por movimentos separatistas, de maneira que no caso o governo americano se declararou favorável à independência ao longo da 1ª e 2ª Guerra da Chechênia, respectivamente iniciadas em 1994 e 1999.
No ano de 1999, iniciam-se tensões entre a Rússia e os Estados Unidos relacionadas à expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) no Leste Europeu, quando Hungria, Polônia e República Tcheca tornam-se os primeiros integrantes do extinto Pacto de Varsóvia a aderirem na nova aliança, o que deu origem a uma onda de outros países, com o ingresso de Albânia, Bulgária, Croácia, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Letônia, Lituânia e Romênia (RIERGET, 2014).
No ano de 2000, surge um forte tensionamento nas relações entre Estados Unidos e Rússia, oriundo do plano do Governo Bush de construir com o apoio da OTAN um escudo antimísseis em países da Europa Oriental, o qual tem repercussão até os dias atuais com sistemáticas crises ao longo dos anos, uma vez que segundo a ótica russa o sistema balístico e de radares se caracteriza como uma significativa ameaça a sua segurança nacional.
No ano de 2007, a bandeira russa colocada sobre o mar congelado do Ártico reaqueceu tradicionais rivalidades entre Rússia e Estados Unidos em relação à exploração dos preciosos recursos do solo marítimo desta região, haja vista que há uma disputa que, de júri, deve ser julgada pela Convenção das Nações Unidas de Direito Marítimo, embora, de fato, se manifeste como uma corrida para a exploração do petróleo.
No ano de 2008, os desgates nas relações entre Washington e Moscou foram oriundos do reconhecimento das regiões da Ossétia do Sul e da Abecásia como repúblicas independentes em relação à Geórgia por parte do governo Russo em contraposição aos Estados Unidos que apoiou a Geórgia, o que repercutiu em uma guerra cujo resultado foi a perda do controle georgiano de 25% dos territórios da Abecásia e 40% da Ossétia do Sul (KAKACHIA, 2008).
No ano de 2013, dois focos de tensão nas relações entre Estados Unidos e Rússia surgem, tanto, com o apoio da Rússia ao governo Sírio em contraposição à posição americana de ajuda com equipamentos militares aos grupos rebeldes, quanto, com a decisão russa de acolher o ex espião americano da NSA, Edward Snowden, responsável por divulgar milhares de documentos que comprovam a espionagem dos Estados Unidos em relação a diversos países.
No ano de 2014, o plebiscito de separação da Crimeia em relação à Ucrânia, promovido unilateralmente pela própria província, à contramão da Constituição criou um tensionamento internacional que relembra os dilemas geopolíticos da época da Guerra Fria, com uma clara polarização entre Europa Ocidental e Estados Unidos contrária à iniciativa, de um lado, e, Rússia, de outro, com franco apoio, ao reconhecer, tanto, a independência, quanto, a anexação da Península da Criméia à própria Rússia.
Os desdobramentos destes padrões conflitivos apontam para a construção de uma Nova Guerra Fria, uma vez, que o aumento da presença política e militar dos Estados Unidos em temas e em regiões de influência da Rússia tende a repercutir prospectivamente em uma agenda declarada para que a Rússia passe a expandir sua presença militar no quintal ou nos interesses estadunidenses por meio de parcerias com Venezuela, Cuba, Nicarágua, Síria e Irã.
Com base nesta periodização de longa duração, é possível se observar que a existência temporal de momentos de convergência e distensão nas relações diplomáticas entre Estados Unidos e Rússia manifesta uma tendência estrutural que se enraíza como uma força profunda, o que repercute claramente em uma histórica dinâmica permeada por conflito e cooperação, distanciamento e aproximação, tensionamento e reconstrução das relações entre estes países na arena internacional.

Referências bibliográficas

KAKACHIA, K. K. (2008). “A guerra dos cinco dias”. Revista Relações Internacionais, n. 20.
RIEGERT, B. (2014). “Crise na Crimeia ofusca aniversários de expansão da Otan para Leste Europeu”. Deutsche Welle, março. Disponível em: <http://dw.de/p/1BXRz>. Acesso em 28/05/2014.
SOROKIN, P. (2009). Russia and the United States. 2nd Edition. New Brunswick: Transaction Publishers.
TSYGANKOV, A. P. Russia and the West from Alexander to Putin: Honor in International Relations. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.

Elói Martins Senhoras é Professor do Departamento de Relações Internacionais e pesquisador do Núcleo Amazônico de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima – UFRR (eloi@dri.ufrr.br).

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