As relações Rússia-China: diferentes interpretações para o recente acordo do gás, por Thaís Moretz-Sohn Fernandes

Em 21 de maio de 2014, Rússia e China firmaram um acordo de aproximadamente usd 400 bilhões envolvendo o fornecimento de gás da russa Gazprom para a Corporação Nacional de Petróleo da China (CNPC). Por meio desse acerto, a Rússia fornecerá à China 30 bilhões de metros cúbicos de gás ao ano, a partir de 2018, e pelos 30 anos seguintes. Esse entendimento, de histórica proporção e econômica magnitude, abriga, porém, diversos outros fatores que podem ser analisados pelas três principais perspectivas das Relações Internacionais: Realista, Globalista e Pluralista. Assim, a presente análise buscará colocar os elementos de interesse de cada uma dessas correntes, de modo que elas possam se complementar e propiciar uma visão mais ampla sobre o acordo.

Segundo os realistas, cabe considerar, em primeiro lugar, que ambas as empresas – Gazprom e CNPC – são empresas controladas pelos Estados russo e chinês. Nesse sentido, em última instância, o acordo teria sido motivado não pelo interesse empresarial, mas por uma decisão racional de ambos os Estados, que, antes de tudo, estariam buscando maximizar seus interesses, sobretudo no que concerne ao poder e à segurança nacional. Sob esse prisma, o acordo poderia ser interpretado como uma maneira de Rússia e China posicionarem-se estrategicamente em suas regiões, fortalecendo-se mutuamente por meio dessa aliança.

De fato, e não por acaso, o acordo, que demorou uma década para ser firmado, desde que iniciadas as negociações, foi concluído poucos meses após a eclosão da questão ucraniana e apenas dias depois do tour de Barack Obama pela Ásia. Na questão da Ucrânia, a Rússia enfrentou a oposição da Europa e dos Estados Unidos, que impuseram sanções por ela ter apoiado um referendo considerado ilegal na Criméia e anexado a região, contra a soberania ucraniana; na viagem de Obama, este anunciou seu apoio ao Japão no caso das ilhas Senkaku, proclamando que uma incursão militar chinesa na área poderia ser respondida militarmente, conforme disposto no Tratado de Cooperação e Segurança Mútua entre Japão e Estados Unidos (ECONOMIST, 2014).

Sob um viés realista, portanto, o acordo poderia ser resumidamente percebido como uma resposta de Putin e Xi Jinping às últimas posições da Europa e dos Estados Unidos no leste europeu e Sudeste da Ásia, bem como uma tentativa de reafirmarem sua hegemonia em suas “áreas de influência” e demonstrarem sua liderança e poder ao mundo. Não é segredo, por exemplo, que Vladmir Putin esteja engajado em defender o interesse nacional russo, incluindo, nisso, um projeto de modernização da força militar e um discurso patriótico que coloca a Rússia contra o “oeste” (ECONOMIST, 2014). Já a China, que também desenvolveu seu projeto nacionalista – “Chinese dream” – mantém uma estranha relação de interdependência e rivalidade com os Estados Unidos, mas jamais admitiria incursão americana sobre o seu mar (ECONOMIST, 2013).

Os pluralistas, porém, fariam uma diferente leitura. Em vez de enfatizarem os interesses nacionais e o projeto de poder dos dois Estados, apontariam a multiplicidade de participantes  e interesses que estariam envolvidos nesse acordo, destacando que os Estados não são os únicos atores internacionais e que esse caso exemplificaria bem como as empresas podem exercer um papel de considerável importância na política internacional, sendo capazes de influenciar agendas, coalisões e compromissos em diversas frentes: econômicas, sociais, ambientais etc (VIOTTI, 1999).  Segundo essa perspectiva, o Estado não é um ator unitário, e o processo de decisão política é resultado de conflitos, barganhas e compromissos entre os diferentes atores, sendo que essa coalisão de interesses que teria propiciado o acordo do gás.

Já os globalistas entenderiam o significado dessa parceria de um terceiro modo. Para essa vertente, o acordo deveria ser interpretado sob uma perspectiva histórica, com foco no desenvolvimento do sistema capitalista e das relações de interdependência entre os países. Assim, o sistema atual teria criado uma relação econômica mais integrada, o que faz com que as potências cooperem entre si, sendo mais guiadas pelas forças da convergência do que da divergência. Em outras palavras, já que a relação econômica é tão forte, que o movimento em direção à globalização e ao liberalismo é fato praticamente irreversível, e dado que “a guerra é ruim para os negócios”, como atesta NYE (NYE, 2009), os interesses econômicos prevaleceriam.

Assim, apesar da Rússia rivalizar com a Europa na questão da Criméia, elas não teriam entrado em guerra porque a interdependência econômica é maior, sendo que a própria Europa precisa do gás russo (HENDLER, 2014); do mesmo modo, apesar de Estados Unidos e China rivalizarem sobre diversos temas, incluindo na questão das ilhas no mar da China, a relação de interdependência seria preponderante, de modo que as tensões no local não se escalariam a ponto de gerarem um confronto militar. Dentro dessa mesma lógica, China e Rússia, que também rivalizam em certa medida no grau de influência que ambas querem exercer na região, e têm um histórico de divergências que datam desde os anos 1950 e 1960, em última análise seriam guiadas pelos interesses de negociarem e criarem renda, comércio e investimentos.

Nesse sentido, contrariamente aos realistas, que encarariam a situação como uma demonstração de força e um projeto de poder, os globalistas tenderiam a encarar a questão do gás como uma aliança transitória, motivada por interesses econômicos, sem acarretar reais consequências à ordem internacional ou significar um projeto de poder forte o suficiente para ameaçar os rumos da ordem global. Para os globalistas mais radicais, a interdependência é tamanha, que a sociedade estaria inclusive caminhando para um “padrão global de civilização” (MOZAFFARI, 2001), na medida em que os Estados estariam dispostos, mais e mais, a adotarem as mesmas normas de conduta e regras internacionais, como, por exemplo, as da Organização Mundial do Comércio, de modo que haveria uma “utilidade decrescente do uso da força” (NYE, 2009).

Em conclusão, é fato que o mundo é anárquico, multipolar, com várias potências exercendo, ou querendo exercer, sua liderança e certo grau de hegemonia. Mesmo em um fato isolado – acordo de venda de gás – é possível fazer diferentes interpretações e análises, dado que a complexidade do mundo atual permite variados entendimentos, que, longe de serem mutuamente excludentes, complementam-se e enriquecem uns aos outros. O que se vê é que ocorre, atualmente, uma grande movimentação na Ásia – questão da Criméia, tensões no mar da China – (sem falar na questão nuclear norte-coreana, conflitos na Cachemira, Taiwan…. ), de modo que o exercício de se pensar criticamente a região, fazendo uso das diferentes teorias, como se tentou fazer no presente artigo, contribui para um entendimento menos supérfluo das raízes desses problemas e para a projeção das possíveis consequências futuras, não só sobre o acordo do gás, mas sobre os diversos outros episódios críticos da região.

Referências:

ECONOMIST, China and Russia: Best frenemies, 2014. Disponível em http://www.economist.com/news/leaders/21602695-vladimir-putin-pivots-eastward-should-america-be-worried-best-frenemies. Acesso em 25 de maio de 2014.

ECONOMIST, Russian propaganda: 1984 in 2014, 2014. Disponível em http://www.economist.com/news/europe/21599829-new-propaganda-war-underpins-kremlins-clash-west-1984-2014?zid=307&ah=5e80419d1bc9821ebe173f4f0f060a07. Acesso em 25 de maio de 2014.

ECONOMIST, China’s future, 2013. Disponível em http://www.economist.com/news/leaders/21577070-vision-chinas-new-president-should-serve-his-people-not-nationalist-state-xi-jinping. Acesso em 25 de maio de 2014.

HENDLER, Bruno (2014). “O gás natural, a Ucrânia e a relação Rússia-União Europeia: o que as teorias de relações internacionais têm a dizer?”. Boletim Mundorama. Disponível em http://mundorama.net/2014/05/24/o-gas-natural-a-ucrania-e-a-relacao-russia-uniao-europeia-o-que-as-teorias-de-relacoes-internacionais-tem-a-dizer-por-bruno-hendler/. Acesso em 25 de maio de 2014.

MOZAFFARI, Mehdi (2001). “The transformationalist perspective and the rise of a global standard of civilization”. International Relations of the Asia-Pacific, Volume 1 2001.

NYE, Joseph (2009). Cooperação e conflito nas relações internacionais. São Paulo: Editora Gente, 2009.

VIOTTI, Paul R. (1999). International Relations theory: realism, pluralism, globalism. Boston, MA: Allyn and Bacon, 1999.

Thaís Moretz-Sohn Fernandes cursa especialização em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB. (thaismoretz@gmail.com)

2 Comentários em As relações Rússia-China: diferentes interpretações para o recente acordo do gás, por Thaís Moretz-Sohn Fernandes

  1. Oie… Acho que um dos motivos é porque já têm conflitos internos e diversos problemas de fronteiras nos seus territórios, preferindo não interferir nos conflitos dos outros para tb não sofrer interferência. Assim, são mais moderados em condenar a violência e preferem deixar esses casos aos cuidados da ONU. Agree?