Nas ruínas, sinais de alerta, por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama

Três anos após o pedido de resgate econômico que motivou a chegada da Troika (formada pelo Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e Comissão Europeia), Portugal se recupera lentamente. A Troika deixa o país com o PIB 4% menor que 2008, data de início da crise econômica mundial. A dívida pública representa 129% do PIB. O desemprego de longa duração afeta 56% dos portugueses. Em 2013 houve crescimento quase nulo do PIB (0,3%) – um alento em relação às quedas recentes de até 3%.

Diante da crise, Portugal encara suas ruínas. Algumas, com esperança – lembranças da grandeza imperial e de invasões que fincaram pé em terras portuguesas. No contexto da integração europeia, o turismo se tornou um motor da atividade econômica, alavancado pelo custo de vida relativamente baixo. Outras ruínas são de mais difícil trato. A crise legou projetos arquitetônicos inacabados, empreendimentos encerrados, moradia e emprego precarizados, desconfiança generalizada nos políticos de Lisboa e Bruxelas. A política econômica da União Europeia agoniza, diante do resultado modesto da Troika.

Ruínas cuidadosamente preservadas em Portugal. A curiosa situação traz lições para um país de história entremeada com a portuguesa.

O ciclo de recuperação brasileiro difere das economias europeias. O Brasil respondeu à crise com crescimento econômico e redistribuição de renda em escala historicamente incomum (afora os primeiros anos do Real e a euforia do Cruzado). Em 2010, o PIB brasileiro cresceu 7.5%. O governo Lula colheu os frutos dessas políticas, elegendo sua sucessora e projetando otimismo.

A reversão de expectativas foi o grande drama do governo Dilma Rousseff.

O ‘lulismo’ enfrenta o arrefecer de seu impulso e impactos contraditórios. Segundo a PNAD, nas regiões metropolitanas de maior crescimento econômico a desigualdade de renda aumentou. Nas de menor fôlego econômico, a desigualdade de renda diminuiu. Alto crescimento com desigualdade crescente mais baixo crescimento com desigualdade declinante produziram, em outros países, um coquetel explosivo.

Rachaduras no edifício são visíveis. As classes D e E tiveram aumento de até 90% na renda familiar. Trabalhadores com 10 ou mais anos de estudo tiveram redução de renda de até 10%. A produtividade estagnada constrange a capacidade do governo transferir renda sem esgarçar as finanças públicas.

A economia caminha hesitante. Por um lado a ‘nova classe média’ impulsiona o mercado interno, alimentada por crédito (ainda) farto e limitada competição com firmas de outros emergentes. Por outro lado, a taxa SELIC sobe a níveis próximos de 2008, a indústria automobilística decreta férias coletivas, a inflação dá sinais de vida. Ás vésperas da Copa do Mundo, impactos do megaevento na economia e eleições seguem opacos. PACs inacabados, bolha imobiliária, pouco fôlego diante de outras grandes economias, desalento com promessas como o Pré-Sal. Dessa vez, o ano eleitoral não traz boas novas.

A gestão temerária da Petrobrás, o ‘PIBinho’ são apontados como grandes fracassos de Dilma. Longe de serem triviais, são efeitos das decisões de 2010 – projeções otimistas envoltas na recuperação econômica do segundo governo Lula (que afastou a possibilidade de uma troika em terras brasileiras, algo comum na Nova República, de Sarney a FHC).

As opções de Brasil e Portugal vêm à tona quando o criticado MERCOSUL tenta, sem sucesso, um acordo com a União Europeia em declínio.

Cautela na prospecção econômica de 2015 viceja, com viés pessimista, no governo e oposições. O PSDB de Aécio Neves apregoa disciplina fiscal e redução da máquina pública. Promete simultaneamente ‘acabar’ com o MERCOSUL e livre comércio com a UE. A aliança Eduardo Campos/Marina Silva aposta num ‘novo desenvolvimentismo’ – desde o malogro da ALALC/ALADI, refratário a mecanismos de integração. Ambos centram fogo nos efeitos da resposta à crise de 2008, visíveis no governo Dilma. A ênfase no combate à corrupção mal disfarça a ausência de novidades pós-‘lulistas’.

À sombra de crises, há expectativa de que economias emergentes tenham respostas rápidas. Tal mostrou o Brasil em 2008. Tratou a crise como oportunidade, galgou posições na economia global. A persistência da crise, seus efeitos sobre a ascensão dos BRICS (‘crise de meia-idade’) demandam dos emergentes algo mais. Ao reiterar fundamentos da economia brasileira, Dilma foi recebida com frieza em Davos, diante do naufrágio de ‘ex-emergentes’ (Argentina, Venezuela).

Após cada crise, Portugal se especializou em restaurar ruínas de glórias pregressas. Do duque de Bragança no século XVII aos capitães que findaram a ditadura há 40 anos, sua história celebra restauradores. Em 2014, suas cidades e aeroportos oferecem oportunidades imobiliárias em incessantes anúncios em mandarim. A China se tornou tábua de salvação para esperanças dantes depositadas na integração europeia da (agora, simbolizada pela passagem da Troika).

Ao contrário de Portugal, o Brasil não tem opção de viver de jovens ruínas.

Vide as relações econômicas com emergentes. A balança comercial com a China atingiu a cifra de 90 bilhões de dólares em 2013 (com superávit de 17 bilhões). Nossa pauta de exportação para a China acende o sinal de alerta – primarização, desindustrialização acelerada. Nada indica que os chineses deixarão de ser nossos maiores parceiros no futuro próximo.

Crescer mais do que países desenvolvidos mantendo a economia sob controle se tornou desafio cada vez mais severo. Daí a necessidade de discutir seriamente nossas relações com os emergentes. Oportunidade para tal se aproxima – a cúpula dos BRICS pós-Copa. Mais que a Ucrânia (receptora de pacote emergencial do FMI), está em jogo o lugar do Brasil no mundo da crise.

Diante da corrosão do ‘lulismo’, tentativas de restauração são questionáveis. Invocar brilhos recentes não ilustra fumaças de crise. Carências notáveis – política industrial robusta, estratégias de capacitação tecnológica – mostram os limites do apego à nostalgia.

Em ano eleitoral, a política econômica de Dilma está na berlinda. Antecipação de crises – ou reação resignada?

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama é professor de Relações Internacionais da Pontífica Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio. (carlosfredericopdsg@gmail.com )

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