A Geopolítica da Copa, por Samuel de Jesus

 

Em 2010, apesar da crise mundial existia um grande otimismo em relação ao Brasil, pois o país representava uma alternativa à crise de confiança mundial. Diziam os mais otimistas que o gigante tinha acordado e o futuro que esperávamos, há tantas décadas, finalmente havia chegado.

Em 2010, os documentos divulgados pelo Wikileaks revelam certa preocupação dos Estados Unidos com a Copa do Mundo de Futebol e com os Jogos Olímpicos a serem realizados no Brasil, respectivamente nos anos de 2014 e 2016. “A preocupação, recentemente ampliada, com a infraestrutura brasileira depois do blackout, aliada à necessidade de resolver desafios de infraestrutura na contagem regressiva para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, apresentam uma oportunidade para os EUA se envolverem em desenvolvimento de infrastrutura e também na proteção de infraestrutura crítica e segurança cibernética”, escreveu Cherie Jackson a Washington. (EUA teriam preocupação com segurança na Copa no Brasil, G1, 2010)

Em 2009, a revista The Economist colocou na capa a imagem do cristo redentor subindo o céu na forma de um foguete e escrito logo abaixo: “Brazil Takes Off” ou seja “O Brasil decolou” . A preocupação com o modelo de desenvolvimento brasileiro, sabemos posteriormente, rendeu muitas espionagens. A descoberta do Pré-sal seria a grande notícia a coroar esse grande momento do Brasil que passou a reivindicar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, o que conferiria ao Brasil o papel de um novo global player no sistema internacional.

Desde 2003, o Brasil diversificou seu mercado e fez da China um parceiro preferencial. Neste período o Brasil procurou ocupar um papel protagonista da América do Sul via UNASUL. Pretendeu também iniciar a criação um complexo industrial militar. Era surpreendente observar as economias do “novo” e “velho” mundo à bancarrota e o Brasil caminhando sem grandes perturbações, seguindo com subsídios e investimentos na ampliação do mercado de consumo interno.

Em 2013, o quadro mudou. A revista “The Economist” antes otimista com o Brasil publicou em sua capa uma imagem que seria a continuação da primeira. Nesta, porém o cristo redentor que na primeira edição subia o céu na forma de um foguete, agora, dá uma guinada para o lado, perde o rumo e cai. Embaixo está escrito “Has Brazil Blown It”, ou seja, “O Brasil estragou tudo”. Tudo parecia que ia dar certo, mas deu errado.

O mês de junho de 2013 foi marcado pelas grandes manifestações populares que passou a rejeitar os políticos e a estrutura política do Brasil. A mídia conseguiu transferir a grande parte destas insatisfações ao Governo Dilma, embora o movimento fosse contra todos os governos em âmbito municipal, estadual e também federal. Pediam os manifestantes hospitais padrão FIFA. Uma crítica contundente aos gastos federais com a Copa do Mundo do Brasil. Meses antes o Ministro da Fazenda Guido Mantega, visivelmente constrangido, anunciava o “PIBinho”. Em 1º de março, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou o “PIBinho” de 2012: 0,9%, o mais baixo desde a crise econômica internacional deflagrada em setembro de 2008. Considerando o crescimento de 2,7% de 2011, os dois primeiros anos do mandato Dilma alcançaram a média de 1,8%. Em 2012, apesar de um crescimento de 1,7% no setor de serviços e de 3,1% no consumo das famílias, a indústria recuou 0,8% e a agropecuária, 2,3%. A queda da taxa de investimentos chama a atenção: 4% – em aquisições de maquinário, o recuo foi de 9,1%. (BRASILINO, L. OJEDA, I. 2013).

No plano regional o Brasil vê o surgimento da Aliança do Pacífico que representa um óbice à liderança econômica do Brasil ao reunir países como o Chile e o Peru, em franco alinhamento econômico aos Estados Unidos. A Aliança do Pacífico na prática faz frente ao MERCOSUL.

A Aliança do Pacífico é uma proposta para que os EUA tentem superar seu isolamente no continente mas, de forma alguma, é uma alternativa para os países que querem superar as políticas exportadas por Washington, que tem tido efeito tão negativos para a América Latina. É uma tentativa de dividir o continente, mas com políticas de livre comércio, responsáveis por que sejamos ainda o continente mais desigual do mundo. Pertencem a um passado que tenta sobreviver, frente a governos pós-neoliberais, que projetam o futuro da América Latina para a primeira metade do século XXI. (SADER, Emir. 2014)

Os atrasos no término das obras, principalmente os estádios, refletem nossa conjuntura social, econômica e política e até mesmo cultural, pois há esperanças que ao final tudo dê certo, assim afirmam que “no Brasil é assim mesmo”, ou seja, tudo sai na última hora. O Brasil tem, na última década, a oportunidade de projeção mundial e para tanto alçou uma posição, o que trouxe, ao país, algumas demandas internacionais que não estão sendo cumpridas como esses agentes externos gostariam. Muito se deve às grandes contradições internas do Brasil ainda longe de estarem superadas. Como se sabe a falta de educação, sobretudo a corrupção endêmica. Este, no entanto, não deve ser o projeto de um governo. Esse grande projeto cabe ao conjunto da sociedade brasileira a sua realização. Os governos são apenas o resultado de suas escolhas cotidianas.

Referências:

 

Brazil takes off. The Economist: Nov 12th 2009. Disponível em:http://www.economist.com/node/14845197 Extraído em 08/05/2014. Extraído em: 08/05/2014.

Has Brazil Blown It. The Economist: Sep 28th 2013. Disponível em:http://www.economist.com/news/leaders/21586833-stagnant-economy-bloated-state-and-mass-protests-mean-dilma-rousseff-must-change-course-has. Extraído em 08/05/2014.

BRASILINO, L. OJEDA, I. Por que o PIBinho? 08 de Maio de 2014. Disponível em:http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1406. Extraído em 08/05/2014.

SADER, Emir. A Aliança do Pacífico, uma alternativa? 26/02/2014 disponível em:http://www.cartamaior.com.br/?/Blog/Blog-do-Emir/A-Alianca-do-Pacifico-uma-alternativa-/2/30348. Extraído em: 08/05/2014

EUA teriam preocupação com segurança na Copa no Brasil , Portal G1: 01/12/2010 Disponívelem:http://g1.globo.com/mundo/noticia/2010/12/em-documento-eua-demonstram-preocupacao-com-seguranca-na-copa.html. Extraído em: 08/05/2014.

Samuel de Jesus é professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – UFMS – campus de Coxim/ MS (samdeje@yahoo.com.br)

 

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