Cooperação e conflito, por Paulo Duarte

As práticas da segurança internacional têm subjacentes jogos de cooperação e conflito ou, por outras palavras, jogos competitivos e jogos cooperativos. Welch e Wilkinson (1999) afirmam que o conflito e a cooperação coexistem em situações de interdependência e, daí, ser importante compreender por que é que os conflitos se desenvolvem. Segundo Tjosvold e Johnson, “estar vivo é estar em conflito” (1989: 1). Os conflitos são “situações naturais em qualquer tipo de relação” (Tjosvold e Johnson, 1989:1). Definido em termos mais amplos, o termo conflito denota “a incompatibilidade de ideias” (Diez et al, 2006: 565). Esta definição deixa em aberto a natureza exata destas incompatibilidades, isto é, “até que ponto elas se verificam entre indivíduos, grupos ou posições sociais”; até que ponto residem em “interesses e crenças diferentes”; e em que medida possuem “uma existência material” ou “ganham existência apenas através do discurso” (Pia e Diez, 2007: 2). Deutsch (1973) apresenta algumas variáveis que afetam o curso do conflito, entre as quais: as caraterísticas das partes envolvidas neste e a história do seu relacionamento e a natureza da questão que dá origem ao conflito. Outra caraterística do conflito reside no facto de este gerar mudança. A estabilidade do sistema é colocada sob turbulência, a qual se mantém até um novo equilíbrio ser alcançado (Stern e Gorman, 1969).

Os Estados e os indivíduos não têm, necessariamente, de perseguir uma lógica de conflito, na medida em que podem optar pela cooperação. Por cooperação,entenda-sequalquer forma de interação social entre atores que lhes permite alcançar, de forma voluntária, um conjunto de objetivos comuns através da partilha de certos recursos (Herbert, 1996). Mas, embora a cooperação seja “um conceito dotado de uma carga positiva”, ela não pressupõe, necessariamente, “uma relação harmoniosa, desprovida de conflitos” (Siitonen, 1990: 7). Ao invés, a cooperação pode envolver lutas de poder ocultas entre os parceiros e/ou um modo de dominação de um ator sobre outro. Isto está relacionado com “o contexto social da cooperação”, e, portanto, com “as nossas ideias de sistemas sociais enquanto contextos de cooperação e conflito” (Siitonen, 1990: 7). O que é que carateriza, então, a cooperação internacional? De acordo com Jean Touscoz, “a cooperação internacional designa todos os ‘empreendimentos’ que permitem aos atores internacionais alcançarem objetivos definidos em conjunto, através da partilha de recursos” (1981: 17). Menos que integração, contudo, mais que esforços comuns esporádicos, “a cooperação internacional visa o estabelecimento de relações entre atores soberanos dispostos a compartilhar alguns valores” (Siitonen, 1990: 7).

A cooperação securitária é, em geral, percebida como “a colaboração entre partes em conflito”; esta é “a razão pela qual as alianças são, com frequência, tratadas como entidades sui generis” (Muller, 2002: 370). Esta distinção, no entanto, não é totalmente convincente. Se as relações internacionais são marcadas pela anarquia, na qual o conflito é possível, então “as alianças tendem a ser problemáticas” (Muller, 2002: 370). Por outro lado, se a cooperação temporária, realizada para afastar uma qualquer ameaça iminente, encoraja demasiado um dos parceiros, “a cooperação pode traduzir-se em menos segurança do que em mais, e numa perda de soberania, no pior dos casos” (Muller, 2002: 370). Por outras palavras, “se percebermos os parceiros de aliança de hoje como os potenciais inimigos de amanhã, a dimensão do conflito latente adquire visibilidade” (Muller, 2002: 370). A cooperação securitária implica depender no que concerne a um objetivo essencial – “sobrevivência nacional” –  dos “recursos, intenções e atividades de outros Estados”, o que é “difícil de conciliar com uma noção de segurança garantida exclusivamente pela autoajuda” (Muller, 2002: 370). Além disso, a cooperação em matéria de segurança implica “uma certa perda de liberdade de ação, uma certa restrição na capacidade de acumular tanto poder militar quanto os recursos permitem, algum sacrifício nas opções; por exemplo, uma maior transparência pode significar menores hipóteses de alcançar a surpresa…” (Muller, 2002: 370). Desde a Primeira Guerra Mundial, muitos teóricos e cientistas políticos procuraram criar um ambiente internacional pacífico, embora sem sucesso (Clackson, 2011).

Bibliografia  

Deutsch, M. (1973). The Resolution of Conflict: Constructive and Destructive Processes. Yale University Press.

Diez, T. (2006) ‘The Paradoxes of Europe’s Borders’ Comparative European Politics, vol. 3, no. 2, pp. 235-252.

Herbert, A. (1996). Cooperation in International Relations: A Comparison of Keohane, Haas and Franck, Berkeley Journal of International Law, Volume 14 | Issue 1

Muller, 2013, http://portal.wko.at/wk/format_detail.wk?angid=1&stid=713984&dstid=0&titel=Tajikistan%3A%2CDistrict%2CHeating%2CProgramme%2C-%2CMarket%2CStudy

Müller Harald, (2002).Security Cooperation, in Handbook of International Relations, Walter Carlsnae, Thomas Risse, and Beth A. Simmons (eds.) London: Sage

Pia, E. and Diez, T. (2007). Conflict and Human Rights: A Theoretical Framework. SHUR: Human Rights in Conflicts: The Role of Civil Society. University of Birmingham

Siitonen, L. (1990). Political Theories of Development Cooperation – A Study of Theories of International Cooperation. World Institute for Development Economics Research of the United Nations University

Stern, L. & Gorman, R. (1969). Conflict in Distribution Channels: An Exploration. In Distribution Channels: Behavioral Dimensions. ed. Stern L.W. Boston: Houghton Mifflin.

Tjosvold, D. and Johnson, D. (1989): Productive Conflict Management, Minnesota: Interaction Book Company

Touscoz, J. (1981). Introduction. In J. Touscoz (ed.): Les contrats internationaux de cooperation industrielle et le nouvel ordre economique international, Paris: Presses universitaires de France.

Welch, C. and Wilkinson, I. (1999), “On Rewriting History: A Network Perspective on the Development and Management of Dyadic Conflict in Business Networks,” paper presented at the 15 Annual IMP Conference in Dublin, Ireland

Paulo Duarte é doutorando em Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa – ISCSP-UTL, Portugal, e investigador no Instituto do Oriente (duartebrardo@gmail.com).

2 Comentários em Cooperação e conflito, por Paulo Duarte

  1. Paulo,

    Minha Monografia será sobre cooperação tecnologica brasileira na America latina, com certeza usarei muito de suas bibliografia em meu trabalho. E seu post serviu em muito para eu enriquecer o tcc, ao voce relacionar a cooperação ao conflito.

    Obrigado!