RoboCop, Filosofia e o Futuro dos Robôs Militares, por Thiago Borne & Diego Rafael Canabarro

A refilmagem de RoboCop (2014), dirigida pelo brasileiro José Padilha, podia ser apenas mais uma tentativa de ressuscitar um clássico dos anos 1980 e transformá-lo num blockbuster. Mas não é. O filme vai além da reprise, apresentando ao espectador questões políticas e filosóficas importantes sobre o emprego de sistemas não-tripulados – os famosos drones – em operações militares e policiais.

A história do filme é simples: em um futuro não muito distante, a cidade de Detroit é tomada pelo crime. O detetive Alex Murphy, por dedicar-se a investigar as ações de uma organização criminosa, acaba sendo gravemente ferido em um atentado orquestrado com o auxílio de policiais corruptos. Em paralelo a isso, o filme apresenta uma visão do que pode vir a ser a guerra do futuro: a multinacional OmniCorp fornece sistemas não-tripulados para as operações militares norte-americanas no exterior e pressiona o Congresso para que seus robôs possam atuar também no território dos Estados Unidos em atividades relativas à segurança pública. Para lograr êxito, a empresa precisa vencer a resistência da população do país, contrária ao emprego de robôs policiais no patrulhamento das ruas. Tentando pôr a opinião pública a seu favor, a OmniCorp decide agregar um componente humano aos robôs e transforma o mutilado Murphy em um ciborgue. Mas a humanização de Murphy é apenas fachada, já que a empresa pretende manter controle total sobre as ações do detetive. A partir daí, o filme se desenrola mostrando como o RoboCop consegue superar seus componentes biomecânicos e manter vivos os sentimentos que o definem como humano: amor, compaixão, medo, empatia, etc.

O filme retrata, assim, um dos debates mais importantes dos Estudos Estratégicos: a aplicação militar de novas tecnologias. O debate não se restringe apenas a robôs. Diz respeito também a questões de biotecnologia, uso do ciberespaço e de redes de computadores, entre outros. Por isso, extrapola a lógica puramente militar e relaciona-se também a questões sociais e políticas, questões filosóficas, questões éticas e morais, etc. Por enquanto, contudo, analisaremos RoboCop somente a partir do que sabemos sobre drones através de dois grandes eixos: o político e o filosófico.

É fácil comparar os Estados Unidos do filme com os Estados Unidos da vida real. Em ambos os casos, o país utiliza suas operações militares no exterior como campo de treinamento para novas tecnologias. Não é à toa que a primeira cena do filme retrata a ação de sistemas não-tripulados no Irã, aludindo ao fato de ser justamente em países do Oriente Médio, como Afeganistão e Paquistão, onde drones norte-americanos mais operam. No nível doméstico, a caricatura também se aplica. Atualmente, drones são alvos de críticas severas da opinião pública, e a regulamentação de seu uso dentro do país é debatida nas esferas estaduais e nacional. A operação de aeronaves estrangeiras em espaço aéreo norte-americano é, naturalmente, vetada de forma solene.

No filme, contudo, a discussão já avançou – há uma lei que proíbe o emprego doméstico de drones, mas permite seu uso no estrangeiro (de maneira muito semelhante ao que ocorre com o monitoramento de indivíduos para fins de inteligência e segurança nacional) –, e a questão que se coloca diz respeito somente ao emprego de robôs em ações policiais. De um lado, aqueles que defendem o emprego de sistemas em cidades violentas como Detroit – o apresentador de TV Patrick Novak (Samuel L. Jackson) –, de outro, aqueles que se opõem a isso – o Senador Dreyfus (Zach Grenier), responsável pala lei anti-robôs. A propósito, vale comentar, o personagem é uma homenagem ao filósofo Hubert Dreyfus, autor dos livros What Computers Can’t Do: The Limits of Artificial Intelligence (1972) e What Computers Still Can’t Do: A Critique of Artificial Reason (1992) (Noë, 2014). O nome do cientista responsável pela reconstrução de Murphy, Dr. Dennet Norton (Gary Oldman), também homenageia um filósofo: Daniel Dennet, um dos mais renomados no campo da filosofia da mente. Em meio a isso, o filme mostra todo o lobby da OmniCorp junto ao Congresso e a importância e influência do complexo militar-tecnológico-industrial para a economia e para o processo decisório americano, bem como o papel que a mídia tem para a conformação da opinião pública no país.

Deixando a política de lado, vejamos como RoboCop ilustra algumas questões filosóficas importantes para o debate atual sobre drones, em especial, a relação corpo-mente. Em princípio, Murphy tem suas ações controladas pelos componentes biomecânicos implantados em seu corpo. Na verdade, praticamente todo corpo do detetive foi substituído por componentes robóticos. De Murphy restou apenas o cérebro (os pulmões, a traqueia e uma das mãos também, para ser mais exato, mas o que importa para nossa análise é o cérebro), e é justamente nele que se desenvolve a consciência e tudo aquilo que diferencia homens de máquinas. Por mais que o cérebro de Murphy esteja sujeito a ingerências da OmniCorp – que pode ligar ou desligar algumas de suas funções – a consciência do detetive é capaz de emergir quando ele se depara com flashes de sua história, redescobre memórias ou entra contato com entes queridos.

Há, portanto, uma consciência humana operando através de um corpo robótico. Toda a inteligência do sistema provém do cérebro de Murphy. A partir do banco de dados implantado em seu cérebro [1] e das informações que recebe do ambiente, o RoboCop decide como agir [2]. Na maior parte do tempo – salvo quando a empresa consegue influenciar a consciência do detetive através de drogas – a OmniCorp intervém apenas no sentido de maximizar suas características fisiológicas (força, agilidade, velocidade), uma vez que o corpo robótico de Murphy continua sujeito a sua própria inteligência. A preocupação da empresaé melhorar o desempenho de Murphy como policial. O cérebro do RoboCop é, nesse sentido, tomado como uma espécie de caixa preta: importam os inputs e os outputs. O que existe entre eles, não.

Mas Murphy é, na prática, um humano, não um robô, e a caixa não é tão preta assim. É bem verdade, por um lado, que ainda não conhecemos o cérebro humano suficientemente bem para entender o que é inteligência ou de onde ela vem. Por isso, muitas vezes avaliamos inteligência através da ótica comportamentalista da OmniCorp. Segundo ela, somos tão inteligentes quanto somos capazes de demonstrá-lo. Por outro lado, podemos ser inteligentes mesmo sem emitir qualquer output. O exemplo de Jeff Hawkins no livro On Intelligence (2004) ilustra a ideia: podemos nos imaginar em uma sala escura, imóveis e em completo silêncio, tendo pensamentos inteligentes. Nesse caso, o output não interessa, uma vez que a inteligência é um processo interno. Em outras palavras, “a inteligência ocorre em nossas cabeças. Comportamento é um ingrediente opcional” (Hawkins, 2004:33).

Se abandonamos a ótima comportamentalista, fica mais fácil entender que a diferença entre o RoboCop e outros policiais é que o primeiro é um humano “melhorado” [3]. Nada mais. Se entendemos que o RoboCop opera a partir de um cérebro humano, fica mais fácil entender também que ele é tão autônomo quanto um humano. E autonomia é um conceito fundamental quando falamos de robôs, bem retratado pelo filme. Ela diz respeito, basicamente, à capacidade que uma máquina tem de agir por conta própria. Os sistemas mostrados no início do filme, operando no Irã, eram incapazes de tomar decisões. Agiam de acordo com um conjunto de protocolos pré-estabelecidos. Atendiam necessariamente ao software instalado em si, de acordo com a lógica dada por seus programadores externos. O RoboCop é diferente. Ele não responde a nenhum tipo de programação, mas a sua própria natureza.

Se algum dia teremos RoboCops em operação nas ruas e sistemas semelhantes aos do filme em zonas de conflito é difícil dizer. Nossa ciência ainda não é capaz de desenvolvê-los. Por ora, contudo, cabe a nós questionar como lidar com sistemas tão impressionantes e potencialmente tão danosos quanto os da ficção.

[1]Ao retratar a inserção ocasional de dados na memória de Murphy na sede da polícia, o filme deixou de abordar a realidade contemporânea que aponta para a interconexão de sistemas de informações e bases de dados remotas através do ciberespaço, o que permitiria que a discussão fosse ampliada para englobar, ainda, questões de segurança e defesa cibernética, bastante em voga no âmbito do Estudos Estratégicos.

[2] E, possivelmente, do software que filtra as imagens do mundo exterior instalado em seu capacete, mas isso não fica claro no filme.

[3] O “melhorado” se coloca entre aspas se consideramos uma pergunta fundamental: melhorado como? E para quê? Como se viu, o processo de melhoramento robótico de Murphy esteve sujeito a influências e interesses variados. Importaram no jogo político o poder da OmniCorp, o poder da Polícia de Detroit, do apresentador Patrick Novak, do Senador Dreyfus, do Dr. Dennet, para citar apenas alguns. Nesse caso, pelo menos em princípio, venceu a OmniCorp. Mas o resultado da disputa poderia ter sido diferente.

 

Referências

HAWKINS, Jeff (2004). On Intelligence: How a New Understanding of the Brain will Lead to the Creation of Truly Intelligent Machines. New York: Times Books.

NOË, Alva (2014). Deconstructing The Philosophies Of ‘RoboCop’. Disponível em: http://www.npr.org/blogs/13.7/2014/04/04/295314242/deconstructing-the-philosophies-of-robocop. Acesso em: 13/04/2014.

Thiago Borne é doutorando em Estudos Estratégicos Internacionais – PPGEEI pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRG e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul – FAPERGS.  (thiago.borne@ufrgs.br)

Diego Rafael Canabarro é doutorando em Ciência Política pela Universidade Federel do Rio Grande do Sul – UFRGS.  (diego.canabarro@ufrgs.br)

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