Um passado de guerra e a guerra sobre o passado: uma introdução às relações Sino-Japonesas, por Gustavo Resende Mendonça

Em janeiro de 2014, Shinzo Abe, Primeiro-Ministro do Japão, comparou as relações sino-japonesas ao relacionamento entre França e Alemanha em 1914 (RADCHENKO, 2014: 1). Embora atritos entre China e Japão sejam comuns, o crescimento recente das controvérsias entre as duas potências resultou em uma piora significativa na qualidade do relacionamento, de tal forma que a relação chegou a ser descrita como “a mais perigosa do mundo” (BREMMER, 2104: 2). Uma análise simplista sugere que os conflitos recentes derivam de uma disputa territorial (pelas ilhas Senkaku/Diaoyutai, localizadas a Oeste de Okinawa) e da posição relativamente incontrita do Japão em relação aos crimes que cometeu durante a Segunda Guerra. No entanto, o recrudescimento na rivalidade sino-japonesa é, na verdade, um fenômeno mais complexo, condicionado por diversos fatores domésticos e sistêmicos.

As relações sino-japonesas nem sempre foram marcado pela animosidade atual. Após a Segunda Guerra Mundial, Mao Zedong construiu uma narrativa histórica oficial que não enfatizava os crimes de guerra cometidos pelos japoneses (YAHUDA, 2014: 9). O objetivo de Mao era tentar atrair o Japão para longe da esfera de influência dos Estados Unidos, principal inimigo ideológico da China comunista, (BERGER, 2012: 162). Em 1955, Mao chegou a afirmar a uma delegação de deputados japoneses que: “não se pode esperar que o Japão se desculpe todos os dias (pelos crimes da Guerra na Ásia)”(YAHUDA, 2014: 9).

No início de sua gestão, Deng Xiaoping afirmou aos japoneses que “o passado deveria ficar no passado” e que o Japão e a China deveriam concentrar suas energias no futuro (RADCHENKO, 2014: 2). Em 1978, Deng visitou o Japão e delcarou que a questão das ilhas Senkaku/Diaoyutai não era urgente e poderia ser equacionada no futuro (NATHAN; SCOBELL, 2012: 125). A intensão de Deng era obter recursos financeiros para promover o desenvolvimento da indústria chinesa, além disso, desejava isolar diplomaticamente a União Soviética e o Vietnã (KISINGER, 2011: 350). No Japão, os desejos de proximidade nutridos por Deng encontraram eco nas intenções do Primeiro-Ministro Yasuhiro Nakasone (1982-1987), que enxergava na melhoria do relacionamento bilateral uma oportunidade para corrigir os erros do Japão Imperial (LUTTWAK, 2012: 125).

No início da década de 1990, as relações permaneceram cooperativas. Em 1989, após as manifestações na Praça da Paz Celestial, a China foi isolada diplomaticamente pelas potências ocidentais. Embora também tenha cortado relações diplomáticas com a China, o Japão manteve a normalidade nas relações comerciais (VISENTINI, 2012: 195) e foi instrumental para o processo de reincorporação da China na comunidade internacional (YAHUDA, 2014: 30). Em 1992 e 1994, respectivamente, o Imperador japonês e o Primeiro-Ministro Morihiro Hosokawa visitaram a China. Ambos demonstraram sensibilidade às preocupações históricas chinesas e pediram desculpas pelas agressões do Japão imperial (NATHAN; SCOBELL, 2012: 125).

Em meados de 1990, no entanto, a chamada “diplomacia da amizade” começou a soçobrar. Em 17 de agosto de 1995, a China realizou uma série de testes nucleares que despertaram demonstrações populares e um protesto formal da Dieta Japonesa (YAHUDA, 2014: 30). Em 1996, o Japão declarou que as Ilhas Senkaku/Diaoyutai faziam parte da sua Zona Econômica Exclusiva, fato que levou Beijing a permitir que três grupos privados chineses tentassem atracar nas ilhas (NATHAN; SCOBELL, 2012: 125). Em 1998, Jiang Zemin, então Presidente da China, declarou que o Japão ainda não tinha logrado se desculpar adequadamente pelos crimes cometidos pelo Exército Imperial (YAHUDA, 2014: 35).

O relacionamento passou a ser marcado por uma deterioração constante, amenizada por tentativas esporádicas de cooperação. Em 2001, um grupo conservador – liderado por Junichiro Koizumi e seus tenentes, Shinzo Abe e Taro Aso – chegou ao poder no Japão e realizou uma série de medidas controversas, destinadas a estimular o patriotismo japonês. Durante seu mandato (de 2001 a 2006), Koizumi realizou visitas anuais ao santuário Yasukuni, templo xintoísta privado que homenageia cerca 2,5 milhões de soldados japoneses que morreram em combate após a restauração Meiji. No “livro das almas” de Yakusuni constam os nomes de quatorze criminosos de guerra “classe A” julgados pelo Tribunal de Tóquio após a Segunda Guerra Mundial (BREMMER, 2014: 2). As ações de Koizumi resultaram em uma séria deterioração das relações sino-japonesas.  Grandes demonstrações contra o Japão ocorreram nas cidades chinesas de Xian (2003) e Shangai (2005), nas quais manifestantes depredaram estabelecimentos comerciais associados a empresas japonesas (YAHUDA, 2014: 45).

O período de 2006 até 2009 é marcado por uma tentativa vacilante de melhorar as relações. Dos quatro primeiros-ministros japoneses que ocuparam o cargo no período, dois (Yasuo Fukuda e Yukio Hatoyama) buscaram ativamente melhorar as relações com a China (GOLDSTEIN, 2013: 269). Nenhum dos quatro primeiros-ministros visitou Yasukuni, mesmo Shinzo Abe (sucessor imediato de Koizumi e notório conservador) se furtou de visitar publicamente o santuário devido a um desejo de melhorar o relacionamento com China e Coreia do Sul.

Em meados de 2009, no entanto, a China começou a demonstrar cada vez mais assertividade em sua política externa (GOLDSTEIN, 2013: 267). Em setembro de 2010, uma embarcação pesqueira chinesa, comandada pelo capitão Zhan Qixiong, foi abordada pela guarda costeira japonesa após entrar no espaço marítimo das ilhas Senkaku/Diaoyutai. Qixiong jogou sua embarcação contra os navios japoneses, fato que resultou em sua prisão. O incidente motivou uma grande comoção na China, que cancelou suas exportações de metais de terras raras (elementos químicos essenciais para a indústria eletrônica, encontrados quase que exclusivamente na China) para o Japão (TIEZZI, 2014:1). Eventualmente, Qixiong foi liberado pelas autoridades japonesas.

No final de 2012, as relações tornaram-se ainda mais claudicantes com a volta de Shinzo Abe ao cargo de primeiro-ministro. Descrito como “o líder mais conservador do Japão no pós-guerra” (TAKAHASHI, 2014:1), Abe é neto de Nobosuke Kishi, que trabalhou como oficial colonial na Manchuria e como ministro do gabinete de guerra. Kishi foi indiciado como criminoso de guerra classe A, mas jamais foi julgado pelos tribunais internacionais (YOSHIDA, 2006: 55). Abe compartilha com seu avô uma visão relativamente benigna da história do Japão imperial, convicção que o leva a relativizar os crimes cometidos pelo Japão imperial. (TAKAHASHI, 2014:1).

A tendência de piora no relacionamento continuou no final de 2013 e início de 2014. Em novembro de 2013, a China declarou que sua zona de segurança aérea incluía as ilhas Senkaku/Diaoyutai. Em teoria, a declaração chinesa obriga que todas as aeronaves que sobrevoem as ilhas sigam as instruções emitidas pelo governo chinês (BREMMER, 2014:2). Poucas semanas depois, Abe visitou o santuário Yasukuni, despertando críticas da Coreia do Sul, China e Estados Unidos. Em fevereiro de 2014, um oficial do exército norte-americano afirmou que a China havia realizado exercícios de guerra para a tomada das ilhas Senkaku/Diaoyutai (KECK, 2014:1). Em síntese, a rivalidade não dá qualquer sinal de arrefecimento.

Dois fatores explicam o recrudescimento da rivalidade. No nível doméstico, os últimos anos do século XX foram marcados por sérias mudanças na política e na identidade das duas potências asiáticas. Na China, a abertura comercial foi acompanhada pela substituição do comunismo pelo nacionalismo como base da ideologia oficial (YAHUDA, 2014: 16). O discurso político e a educação oficial passaram a enfatizar narrativas históricas que ressaltassem o papel do PCC como guardião da pátria chinesa. No contexto da substituição da “luta contra a burguesia” pela “batalha contra os colonizadores”, o PCC endureceu suas críticas à falta de penitência japonesa em relação aos crimes cometidos contra a pátria chinesa. Por outro lado, vinte anos de baixo crescimento econômico desestabilizaram a política japonesa (VISENTINI, 2012: 193). A descrença dos japoneses nas instituições tradicionais resultou na polarização política e na ascensão da direita nacionalista (YAHUDA, 2014: 16). Como resultado, o grupo de Abe e Koizumi teve que buscar alianças com atores políticos ligados ao xintoísmo (que favorecem as visitas a Yasukuni) e com grupos nacionalistas (que exaltam a memória do Japão imperial).

Por fim, o equilíbrio de poder entre as duas nações mudou radicalmente nas últimas décadas. A ascensão chinesa é acompanhada com apreensão pelo Japão, uma potência declínio. Com uma das menores taxas de natalidade do mundo, a população japonesa perdeu 250 mil habitantes em 2013 (TRAPHAGAN, 2014:1). Ademais, os últimos vinte anos foram um período de estagnação para a economia japonesa. Em claro contraste, a economia chinesa tem crescido de forma acelerada e, nos próximos anos, deve se tornar a maior do mundo. O crescimento econômico torna a China mais assertiva e confiante, enquanto o declínio gera insegurança no Japão (ALLISON, 2014:3).

Embora a análise que acima não ofereça um prognóstico positivo para o relacionamento sino-japonês, é importante destacar que um conflito armado entre as duas potências permanece improvável. A aliança entre os Estados Unidos e o Japão funciona como um elemento limitante nas tensões, uma vez que uma guerra entre os Estados Unidos e a China não é desejada por Beijing ou Washington (ALLISON, 2014: 4). Além disso, a interdependência econômica sino-japonesa impede que a rivalidade escale para um conflito armado (YAHUDA, 2014: 16).   A baixa probabilidade de guerra, no entanto, oferece pouco alento para o arrefecimento das tensões regionais. No médio prazo, é provável que japoneses e chineses continuem a ansiar pela volta de uma época na qual o passado permanecia no passado.

Referências Bibliográficas

ALLISON, Graham. 2014: Good Year for a Great War? Disponível em: [http://nationalinterest.org/commentary/2014-good-year-great-war-9652]. Acesso em: 01/04/2014

BERGER, Thomas U (2012). War, Guilt and World Politics After World War II. 1. ed. Nova York: Cambridge Press, 259 p.

BREMMER, Ian. Is the China-Japan Relationship at its Worst? Disponível em: [http://blogs.reuters.com/ian-bremmer/2014/02/11/is-the-china-japan-relationship-at-its-worst/]. Acesso em: 01/04/2014.

GOLDSTEIN, Avery (2013). US-China Interactions In Asia. In: Tangled Titans, editado por David Shambaugh. 1. ed. Londres: Rowman & Letterfield, 436 p.

KECK, Zachary. China’s Military Trains for War Against Japan. Disponível em: [http://thediplomat.com/2014/02/chinas-military-trains-for-war-against-japan/]. Acesso em: 01/04/2014.

KISSINGER, Henry (2011). Sobre a China. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 556 p.

LUTTWAK, Edward N. (2012). The Rise of China vs. the Logic of Strategy. 1. Ed. Nova York: Belknap Press, 320 p.

NATHAN, Andrew J.; SCOBELL, Andrew (2012). China´s Search For Security. Nova York: Columbia, 406 p.

RADCHENKO, Sergey. When bygones Were Bygones. Disponível em: [http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/03/27/bygones_were_bygones_china_japan)]. Acesso em: 01/04/2014.

TAKAHASHI, Kosuke. Shinzo Abe’s Nationalist Strategy. Disponível em: [http://thediplomat.com/2014/02/shinzo-abes-nationalist-strategy/]. Acesso em: 01/04/2014.

TIEZZI, Shannon. Japan Seeks Chinese Compensation Over 2010 Boat Collision Incident. Disponível em: [http://thediplomat.com/2014/02/japan-seeks-chinese-compensation-over-2010-boat-collision-incident/].  Acesso em: 01/04/2014.

VISENTINI, Paulo Fagundes (2011). As Relações Diplomáticas da Ásia. Belo Horizonte: Fino Traço, 275 p.

YAHUDA, Michael (2014). Sino-Japanese Relations After The Cold War. Nova York: Routledge, 140 p.

YOSHIDA, Takeshi (2006). The Making of the “Rape of Naking”. Londres: Oxford Press, 265 p.

Gustavo Resende Mendonça é mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (gusresende@gmail.com)

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