Reavivamento islâmico e dinâmicas socioeconômicas no Mundo Árabe, por Aline de Oliveira Alencar

O reavivamento islâmico é uma onda de renovação do comprometimento com os princípios básicos do islã que tem caracterizado larga porção do mundo islâmico desde meados da década de 1970. Trata-se de um movimento cultural defensivo contra valores ocidentais, como individualismo, consumismo, autonomia feminina, liberdade sexual e relativismo moral.

De acordo com Lapidus (1997, p. 444), o movimento foi tanto uma reação quanto uma expressão da modernidade, uma vez que não advogou o retorno a um passado arcaico, mas uma releitura do papel da religião em sociedades modernas. A história das sociedades islâmicas, segundo o autor, contém vários exemplos de ondas de reavivamento religiosos, todas correspondendo a momentos históricos de alteração nas condições políticas e sociais (ibid. p. 447). Dessa forma, infere-se que a ressurgência islâmica contemporânea consiste na reafirmação dos ideais religiosos em novo contexto de mudança, especificamente para fazer face aos desafios trazidos pela modernidade por meio de princípios que se acredita sejam universais, como moralidade, justiça social e solidariedade.

Nos países árabes, o reavivamento religioso manifestou-se de diversas formas. Em primeiro lugar, houve visível alteração nos hábitos culturais: mais mulheres passaram a usar véu, mais homens passaram a usar barba e mais fiéis passaram a ir a mesquitas com mais frequências (SCOTT, 2010; DESSOUKI, 1982; AHMED, 2011). Em segundo lugar, reemergiu uma nova concepção de sociedade, baseada na religião, defendida por ideólogos islâmicos e motivadora de um ativismo político islâmico – fenômeno amplo, com vertentes radical e moderada, que caracterizou a política do mundo islâmico na segunda metade do século XX e é conhecido como islã político. Em terceiro lugar, surgiu um esforço governamental em alguns países, principalmente nos países do Golfo, de fomentar a tradição e os ideais religiosos como forma de adquirir legitimidade em seus processos de statebuilding (DAVIDSON, 2012). É ilustrativo o esforço desses países em criar novas tradições para reforçar sua identidade nacional. Como exemplo, as corridas de camelo e a retórica poética que as acompanha foi uma tradição recentemente criada nos Emirados Árabes Unidos, promovida pelo governo, com a finalidade de resgatar a cultura tradicional (KHALAF, 2001).

Nos países árabes, é possível atestar a tese de Lapidus de que o reavivamento é resultado da modernidade, uma vez que o ímpeto de resgatar a cultura tradicional emergiu como reação à tendência de aculturação trazida pela rápida modernização. Ademais, as políticas de valorização cultural beneficiam-se, ao menos nos países do Golfo, dos recursos de uma economia moderna e próspera, baseada no petróleo, para seu financiamento. Portanto, em razão da boa vontade de governantes conscientizados, nesses países, a modernidade, em vez de destruir a cultura local, tem contribuído para resgatá-la. Fica a lição de que não existe uma relação inequívoca entre progresso material e destruição da cultura tradicional. As variáveis determinantes, nesses casos, são conscientização e vontade política.

Outra dinâmica que favoreceu o movimento de reavivamento religioso e cultural nos países árabes foi o crescimento populacional. Assim como em outros países em desenvolvimento, nos países árabes a população aumentou rapidamente até meados da década de 1980, quando as taxas de crescimento natural passaram a decrescer, seguindo o declínio da taxa de fertilidade. A consequência é uma pirâmide etária com uma base larga, ou seja, uma proporção relativamente alta de jovens na sociedade (WINCKLER, 2002, p. 617). Esses jovens foram, predominantemente, agentes do reavivamento islâmico em seus países, uma vez que os principais centros irradiadores do pensamento islamista eram as universidades e os centros de assistência social islâmicos, em que a proporção de jovens era significativa (AHMED, 2011, pp. 75-76). As implicações de uma pirâmide etária de base larga, entretanto, vão além da dimensão cultural, tendo efeitos preocupantes na dimensão socioeconômica. Por um lado, existe a questão da baixa proporção de população economicamente ativa, inerente a populações predominantemente jovens, que traz consigo o problema da “low income trap”, que é a tendência desses países de se manterem em um baixo nível de renda nacional até que a situação populacional se reverta (WINCKLER, 2002, p. 619).

Outro problema proveniente desse desequilíbrio populacional incide na dimensão do emprego. Como as oportunidades de emprego não crescem na mesma proporção que novos jovens adentram a população economicamente ativa, a tendência é uma situação de desemprego estrutural, em que a força de trabalho disponível é superior ao número de postos de trabalho. Essa dinâmica é agravada pelo substancial aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho dos países árabes nas últimas décadas (ibid, p 621), consequência das políticas de inclusão das mulheres que caracterizou os regimes seculares e nacionalistas (LAPIDUS, 1997, p. 446). O desemprego estrutural é um dos problemas prementes, hoje, nos países do Golfo e do Magreb. Forstenlechner e Rutledge (2010, p.38) argumentam que esses países têm falhado em promover uma diversificação econômica. Essa situação explica-se pela histórica má distribuição das rendas do setor petrolífero, que têm se concentrado no setor público. No Golfo, a grande imigração de expatriados, dispostos a trabalhar no setor privado a salários inferiores aos do setor público, têm contribuído para reforçar essa distorção (ibid).

O mundo árabe tem conhecido uma série de dinâmicas desde o início da segunda metade do século XX que têm alterado sua configuração populacional, econômica e cultural. O reavivamento islâmico, importante transformação no domínio cultural, é um reflexo direto de dinâmicas políticas, econômicas e populacionais trazidas pela modernidade. A dinâmica populacional, por sua vez, além de impactos relevantes na dimensão cultural, tem colocado desafios para a economia desses países, principalmente o desemprego estrutural. Em meio a esses desafios, os países árabes tem buscado reafirmar sua identidade, e a recorrência à religião e à cultura tem sido sua forma de fazê-lo.

Bibliografia:

 AHMED, Leila. (2011) “A Quiet Revolution: The Veil’s Resurgence, from the Middle East to America”. New Haven; London: Yale University Press.

DAVIDSON, Christopher M. (2012). After the Sheikhs: When the Gulf monarchies will fall. London: Hurst.

FORSTENLECHNER, Ingo & RUTLEDGE, Emilie (2010). ‘Unemployment in the gulf: time to update the “social contract”’. Middle east policy, vol. Xvii, no. 2.

KHALAF, Suleyman (2001). ‘Poetics and Politics of newly invented traditions in the Gulf: Camel racing in the UAE’. Ethnology, vol. 39, No. 3, Summer, pp. 243-261.

LAPIDUS, Ira M. (1997). “Islamic Revival and Modernity: The Contemporary Movements and the Historical Paradigms”. Journal of the Economic and Social History of the Orient, Vol. 40, No. 4. pp. 444-460.

THOMAS, Scott M. Globalized God-Religion’s Growing Influence in International Politics, A. Foreign Aff., v. 89, p. 93, 2010.

WINCKLER, Onn (2002). ‘The demographic Dilemma of the Arab World: The Employment Aspect.’ Journal of Contemporary History. Vol. 37, N. 4, pp. 617-636.

DESSOUKI, Ali E. Hillal (Ed). Islamic resurgence in the Arab World. New York: Praeger, 1982.

Aline de Oliveira Alencar é mestranda em Relações Internacionais na Universidade de Brasília – UnB (aline.alencar85@gmail.com)

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