Tecnologia Militar & Relações Internacionais: Ontem, Hoje e Sempre, por Fabricio Padilha

Nas últimas semanas, os noticiários reservaram suas principais páginas à queda do Boeing 777, da Malasya Airlines, com 239 pessoas a bordo, e desaparecido desde o dia 08 de março. Sem substanciais vantagens na busca, as tecnologias civis cederam o espaço para a atuação da tecnologia militar. Radares militares, assim como os satélites, foram os principais meios empregados pelos países para tentar solucionar o problema de escopo internacional. Motivado por este fato, este texto tem por objetivo, de forma clara e objetiva, pontuar a relação entre a tecnologia militar e as relações internacionais, bem como, as principais inovações tecnológicas militares que impactaram nos relacionamentos estratégicos das grandes potências nos últimos séculos.

Um dos problemas de entendimento do papel de tecnologias militares é o constante processo de mudança e inovação que ocorrem. Na metade do século XIX, a combinação do telégrafo, que permitiu ligações em tempo real entre autoridades civis e comandantes militares, e entre comandantes em diferentes organizações militares; com a ferrovia, que permitiu o deslocamento em massa das tropas; e com o rifle, que tornou a infantaria letal em maior alcance, transformaram a guerra. O período que se estendeu da Revolução Francesa até a metade do século XX foi descrito como a era da guerra em massa. Durante esse tempo, a forma dominante de poder militar foi o exército de massa recrutado e uniformemente equipado com os produtos da indústria pesada. Aqueles países que puderam mobilizar homens e produção militar, efetivamente, puderam gerar maior capacidade militar nacional.

A efetividade de suas armas coercitivas se tornaram medidas de poder e proteção às ameaças interna e externa, e a capacidade militar permitiu o Estado se proteger e defender seus interesses, cujas suas forças armadas são mantidas, principalmente, para prover os meios pelas quais as ameaças externas podem ser contidas. Essas forças podem resistir ao ataque pela operação direta, ou elas podem procurar deter possíveis agressores mantendo uma defesa suficientemente poderosa para dissuadir. Para assegurar a credibilidade de dissuasão, as forças armadas de uma nação pode ter um número de tropas suficientes, em um nível apropriado de treinamento armado, com armas e equipamentos não inferiores aos dos seus potenciais inimigos.

No século XIX e na maior parte do século XX, as forças armadas do mundo todo compartilharam armamentos similares. Todavia, as diferenças mais importantes começaram a emergir durante a I Guerra Mundial (I GM), quando, por exemplo, os Estados Aliados investiram pesadamente em tanques, diferente da Alemanha; e, certamente, durante a II Guerra Mundial (II GM), quando os Estados Unidos e a Grã-Bretanha desenvolveram bombardeiros pesados – não sendo copiados, tanto pelos inimigos, como pelo aliado soviético. Ademais, foi apenas a partir da Guerra Fria que as armas evoluíram para sistemas rigorosamente sofisticados.

Com o amadurecimento científico-tecnológico-militar durante a Guerra Fria, a tecnologia militar de precisão atendeu às exigências fundamentais para as estratégias de intervenção norte-americana: seja de corte político, para atingir os objetivos políticos de guerra; de corte estratégico, para evitar uma guerra de contato ou de movimento; ou de corte tático, para bloquear os ataques às populações civis, como os centros políticos e econômicos, conforme o que estivesse em jogo. As armas de precisão, como os mísseis e os foguetes, foram capazes de neutralizar os alvos principais do campo de batalha, como a comunicação, o comando e o controle. O melhoramento em armas guiadas e de controles auxiliou as operações militares na identificação de diferentes alvos dentro do teatro, e em condições meteorológicas adversas. A defesa de mísseis garantiu a proteção, por ter a função de detectar, seguir, adquirir e destruir mísseis inimigos, seja cruzeiro ou balístico.

As munições de precisão guiada, tais como as bombas guiadas a laser se tornaram munições indispensáveis, especificamente no pós Guerra do Vietnã. No campo de operações foi necessária a disposição de sistema de fornecimento de informação, tais como, de inteligência e de comando e controle, suportados por computadores, redes de comunicação digitais e GPS (Global Positioning System). Tanto ter a capacidade de lançar as munições numa escala precisa, como também, localizar forças na superfície terrestre, marítima e aérea são substancialmente importantes.

As informações também contribuíram para o desenvolvimento de satélites de radares aerotransportados, aviões de vigilância eletrônica, aviões táticos não tripulados, sensores dos sistemas de defesa aéreo, terrestre e naval – também responsáveis pela criação de imagem de alta-resolução do teatro de operações, e transmissão em tempo real de grande fluxo de informação. As armas guiadas tiveram mais precisão de alcance, e melhor funcionamento sob condições climáticas e de iluminação adversas, além de sua maior capacidade de destruição. Não obstante, para a proteção contra as armas nucleares, biológicas, e químicas (agentes NBQ) foi necessário desenvolver múltiplos sensores para a identificação de seus dados, sistemas para planificar sua destruição, tais como os sistemas de análises e seguimento de armas, e sistemas de previsão meteorológica em tempo real e de previsão de efeitos colaterais. Para sua neutralização, necessitaram de munições de maior letalidade e poder de penetração, de sistemas de guiado sob qualquer condição climática, e de meios para avaliar os efeitos causados pelas armas empregadas em sua destruição.

Destarte, a tecnologia militar stealth, capaz de reduzir assinaturas através da tecnologia radar cross section,foi um dos avanços mais significativo. Ela aumentou a capacidade da aeronave não tripulada penetrar defesas aéreas, permitiu o sobrevôo em campos de mísseis de superfície-ar guiados por infravermelhos e artilharia antiaeronave, e possibilitou o lançamento de mísseis sobre o espaço aéreo hostil sem ser detectada.

O fim da Guerra Fria presenciou o desenvolvimento e a difusão das tecnologias de precisão. Se nas sociedades agrícolas, o objetivo principal tático seria ocupar a terra, e nas sociedades industriais, seria impedir a capacidade produtiva, na era das armas de precisão, o objetivo principal seria destruir os sistemas de informação do adversário: os bancos, os serviços financeiros, os sistemas de controle de tráfego aéreo, de distribuição de energia elétrica, de abastecimento de gás e petróleo, de transporte, de redes de telefonia, e os serviços de emergências fazem parte disso.

 

Referências:

CONHEN, Eliot. Technology and Warfare. In: BAYLIS, John; WIRTZ, James; GRAY, Colin S. (Orgs.). Strategy in the Contemporary World: an introduction to Strategic Studies.  New York: Oxford University Press, 2010.

JOXE, Alain. As doutrinas estratégicas transformadoras para a tecnologia. In: WITKOWSKI, Nicolas (Org.) Ciência e Tecnologia Hoje. São Paulo: Ensaio, 1995.

MAHNKEN, Thomas G.. Technology and the American Way of War since 1945. New York, Columbia University Press, 2008.

SEMPERE, Carlos Martí. Tecnológía de la Defensa. Análisis de la situación española. Madrid: Instituto Universitario General Gutiérrez Mellado, 2006.

Fabricio Padilha é pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos – INCT-Ineu. (fabapps@hotmail.com)

Seja o primeiro a comentar