Recombinação: diplomacia russa após a URSS, por Stefanos Georgios C. Drakoulakis

Os recentes movimentos de tropas russas junto à borda ucraniana, na região da Criméia, reascendem algumas lembranças. Se, por um lado, pode-se focar apenas sobre os fatos recorrentes da mobilização dos exércitos ucraniano e russo, por outro há um grande indicativo do tipo de geopolítica envolvida na “proteção da maioria russa na Crimeia”. Neste pequeno ensaio, propõe-se, por um viés realista, que a Rússia reafirma-se regionalmente como um poder, não mais estando voltada apenas para os problemas de política interna.

Em primeiro lugar, é preciso ter uma pequena noção da história da Rússia após a queda da URSS. Com seu parque industrial sucateado, grande descontrole sobre diversas regiões administrativas e muitos saudosistas da antiga ordem comunista, a Rússia teve de voltar-se para resolução de suas graves questões econômicas. A fórmula neoliberal durante o governo Yeltsin resultou em uma grande crise: na esteira de outras crises, o rublo perde grande parte do seu valor em 1998. Crise essa que, mesmo com a formação da Comunidade dos Estados Independentes em 1991, propiciou a ação de outras potencias na região próxima das fronteiras russas. Com o leste europeu sendo a última fronteira para investimentos na adaptação das economias planificadas para o mercado capitalista, a política externa russa assumiu uma feição defensiva, recorrendo, como todas as nações sem ativos militares, ao direito internacional para proteger sua influência.

Diante de um Estados Unidos com hegemonia militar, econômica e, principalmente, cultural, a Rússia teve de retrair-se e ver a política dos dutos americanos na Ásia Central. Quando o ex-coronel da KGB assumiu o governo na década de 1990, ele, Vladimir Putin, realizou uma recombinação do interesse russo: a falta de poder político ou militar não faria da Rússia uma mera espectadora dos movimentos da, então, recém-criada União Européia e dos Estados Unidos. A partir de 2003, com taxas de crescimento médias de 7-8% ao ano, a Rússia tornou-se uma promessa, um dos BRIC de Goldman Sachs. Com o gigante retornando a utilizar um pouco de suas capacidades econômicas, Putin pode reaquecer a indústria bélica russa: o conhecimento incrível das universidades soviéticas foi retomado e as linhas de produção continuaram produzindo armamentos de última geração.

A partir de 2008, uma clara demonstração de poder foi tomada: mesmo diante de diversas pressões ocidentais,  Rússia interviu na região da Ossétia do Sul, sob uma alegação que soa bastante familiar, a proteção de nacionais; entretanto um olhar mais atento pode apontar mais variáveis. Mesmo o apoio americano à Geórgia não foi capaz de impedir a Rússia, demonstrando que, regionalmente, a Rússia começou a reconquistar seu status de potencia. Ao mesmo tempo, a pífia resposta americana indica uma queda em sua capacidade interventora, o que, sem dúvida, é um dos fatores que conformarão o quadro instaurado na chamada “crise ucraniana”. Resumidamente, a Rússia reassume um papel de potencia, para o qual detém tanto as capacidades materiais, quanto as culturais, reavivando alguns elementos presentes na diplomacia soviética.

A autorização do congresso russo à invasão da Criméia, longe de ser uma política norte-coreana (ameaças em troca de ajuda), revela uma Rússia com vontade de exercer o papel de estabilizador em sua região mais próxima. Mais que isso, diferentemente do apoio ao regime Sírio, que significa exercer algum tipo de embate geopolítico, a região mais perto de suas fronteiras é completamente influenciada pela Rússia, que tem, na Ucrânia, a passagem de gasodutos extremamente relevantes para economia europeia. Por um lado, essa dependência de 25-30% do fornecimento de gás russo, bem como um processo de tomada de decisão mais difícil do que o russo, torna uma resposta a uma possível invasão russa algo bem improvável. Por outro lado, um governo Obama enfraquecido internamente, mesmo diante de um tradicional opositor, não terá os meios políticos para realizar uma resistência armada ao assalto russo. Diante de uma pífia oposição, que não quer e não pode arriscar um conflito de grandes proporções com o gigante russo, resta a pergunta se uma intervenção é interessante a esse governo e quais seriam os impactos dessa intervenção.

Os recentes eventos, Ossétia do Sul, Síria e mesmo a independência política frente às demandas do ocidente, mostram que a Rússia move-se pela reafirmação como poder, tentando recobrar e remoldar a influência que um dia teve. Dessa forma, intervir na região da Criméia, mesmo que ao custo de algumas sanções econômicas, significa, mais uma vez, reafirmar o poder russo na região, mostrando não a disposição de um poder imperial, mas de um poder strictu sensu.  Internamente, não há evidências de que essa seja uma política adotada para desorientar a opinião pública, como foi a Guerra das Malvinas, por exemplo. Finalmente, há razões de cunho moral para a intervenção, possibilitando um subterfúgio muito melhor que a existência de “armas químicas”.

O panorama aponta para uma conclusão óbvia: nada impede o presidente Putin de manter sua posição e intervir na Ucrânia, intervenção essa que, após algumas reclamações de ativistas de direitos humanos e da grande mídia, será esquecida, demonstrando que há muitos outros fatores que orientam a política externa, do que o “controle democrático” wilsoniano. Isso não quer dizer que a intervenção é certa, mas que esse tipo de posição tende a ser a tônica de um poder pan-eslavo, de um poder que não tem razões para se deter na região. O barril de pólvora tende a explodir, demonstrando a queda do poder americano, cada vez mais atado pelas deficiências de uma potencia com graves problemas internos.

Stefanos Georgios C. Drakoulakis é bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (stefanosdrakoulakis@gmail.com)

Seja o primeiro a comentar