“There and back again, an East European Tale”, por Luiz Fernando Horta

“Os vivos são sempre e cada vez mais governados necessariamente pelos mortos” Auguste Comte

O ser humano tende a buscar sempre simplificações para o entendimento dos fatos que o cercam. A própria ciência faz da busca pela simplicidade explicativa uma de suas mais clássicas assertivas. Ocorre que a história, amiúde, não é simples. Durante o período de 1945 até 1991 o mundo foi direcionado a entender-se pela dicotomia da Guerra Fria que constitui, segundo Odd Westad “(…) some of the most fundamental discourses of the era” (WESTAD, 2010, p. 2). Nessa senda, o Realismo desempenhou papel preponderante construindo uma realidade bipolar muito antes de explica-la e, defendendo que a preocupação com a sobrevivência molda as ações dos Estados, cria uma quimera ao admitir que essa preocupação existe ex ante na política, antigamente travestida no conceito de “interesse nacional”. Esse artigo pretende lançar luz a algumas interpretações dissonantes que ficam à margem das interpretações de “complexos de segurança” ou “balança de poder” comumente usadas para interpretar o mundo durante e pós-Guerra Fria. Nesse caso, acredito que além de antiquadas essas interpretações não servem para explicar o que ocorre com a Ucrânia.

“Now the outstanding circumstance (…) is that down to the present day this process of political consolidation has never been completed and the men in the Kremlin have continued to be predominantly absorbed with the struggle to secure and make absolute the power (…) They have endeavored to secure it primarily against forces at home (…) But they have also endeavored to secure it against the outside world.” (LIPPMANN, 1947, p. 59)

O texto acima, apesar de expressar quase perfeitamente a opinião da maioria dos jornalistas e grande parte dos acadêmicos sobre o problema surgido na Ucrânia em 2014, foi escrito por um então obscuro diplomata americano servindo na embaixada dentro da URSS sob o pseudônimo de “Mr. X”: George Kennan. Em 1947, Kennan já usava o meta-discurso da segurança, da democracia e da ameaça que a URSS era aos interesses “do mundo”. As mesmas bases que oferecem aos atuais comentaristas conceitos para entender o “golpe” democrático na Ucrânia e a reação russa. Essas explicações tomam por base a caricata história inventada pelo ocidente para explicar a debacle da Europa Oriental pós-1991. Segundo essa interpretação, destruídas as amarras do regime soviético, as diferenças étnicas puderam enfim se manifestar e estilhaçaram o território da antiga URSS. Subliminarmente, o “povo” pode expressar sua vontade encapsulada por anos de violência homogeneizante fazendo com que a miríade multi-colorida da etnicidade e história eslavas não pudesse mais ser contida pelo vermelho abusando da força da foice e do martelo. Essa explicação serviu de pano de fundo para as agressões contra a Iugoslávia, para manter a anacrônica OTAN viva e para sustentar a vitória da democracia, do capitalismo e do ocidente sobre o modelo ditatorial comunista soviético (WALTZ, 2000, p. 24). Essa é, ainda hoje, a premissa básica que os analistas usam para explicar a Europa Oriental. Perpetuar o discurso da disparidade étnica é desconhecer a história e a própria etnicidade da região.

No caso específico da Ucrânia e Rússia é impossível deixar de verificar que esses países foram formados sob o mesmo substrato étnico. No século IX, muito antes da aniquilação da Ucrânia pelos Mongóis, já se mostrava a proximidade visceral de Kiev quando este constitui um Estado primário onde futuramente seria a Rússia. Desde aí até os processos de transferência de população russa por toda a antiga URSS (VIZENTINI, 2002, p. 50) pode-se questionar firmemente o argumento de que a Ucrânia tem uma irreconciliável diferença étnica para com a Rússia e, por isso, se tornou independente. Aliás, esse argumento do despertar das identidades étnicas é combatido por Vizentini, por exemplo, citando a cientista política Mette Skak: “O segundo mito é o que o politólogo (sic) Mette Skak denominou criticamente de “teoria da bela adormecida”, que define o conflito como étnico, o qual teria sido reprimido pelos comunistas e, com o enfraquecimento destes, simplesmente teria despertado.” (VIZENTINI, 1999, p. 128).

Se a diferença étnica pode ser questionada o caráter democrático ou não do governo e dos manifestantes Ucranianos também. A mídia internacional está chamando os manifestantes de “os democratas da praça Maidan” mas a verdade é bem diferente. As manifestações na Ucrânia podem ser inseridas em um movimento amplo e global de emergência da direita política armada com base em argumentos como a “falência” dos respectivos Estados e a “necessidade” da ação violenta para se fazer sentir a obrigatoriedade da mudança. O mesmo está ocorrendo na Venezuela, na Argentina, no Brasil (com os Black Blocs) e já ocorreu na Síria, no Egito, na Líbia e etc, mas na Ucrânia essa direita ganha ares de neo-nazismo (“Ukraine’s ‘Democratic Coul d’Etat’: Killig Civilians as a Pretext for Regime Change”, disponível em http://www.globalresearch.ca/ukraines-democratic-coup-detat-killing-civilians-as-a-pretext-for-regime-change/5370705, acesso em 01/03/2014). Tal fato é reconhecido pelas comunidades judaicas pelo mundo, mas parece estar absorto das análises (“Los rabinos ucranianos recmiendan a los judíos de Kiev que abandonen la ciudad”, disponível em http://www.20minutos.es/noticia/2066536/0/rabinos-ucranianos/recomiendan-judios-kiev/abandonen-ciudad/ acesso em 01/03/2014)

O fato é que a conversão das economias soviéticas para as economias de mercado veio com prejuízo evidente da qualidade de vida de suas populações (“Human Development Report 1999” disponível em http://hdr.undp.org/sites/default/files/reports/260/hdr_1999_en_nostats.pdf acesso em 01/03/2014). Passados cerca de 25 anos da queda da URSS o prometido milagre da economia capitalista não aconteceu e, embora ainda que o oriente tenha taxas de pobreza maiores, após 2008 a Europa em crise demonstra taxas semelhantes entre ocidente e oriente:

TABELA MUNDORAMA - LFH

Dentro desse espectro de ressurgimento da direita radical e a grave crise econômica mundial o conceito de segurança deve ser discutido à luz dos processos de “securitização” propostos pelos teóricos construtivistas. Nesse sentido, a escolha feita pelo presidente Ucraniano de afastar-se da União Européia para aproximar-se da Rússia acabou desgostando esta minoria barulhenta da direita que sempre encontra eco na mídia internacional. Mais do que categorias da Guerra Fria, temos que nos perguntar o que esses agentes (EUA, Russia e União Européia) estão entendendo por segurança da região. E nesse sentido parece que o ressurgimento do nazismo, a pobreza, a intolerância e violência social parecem não ser essencial nas análises americanas.

A nova forma de agir internacionalmente do governo Obama (evitando as custosas invasões, características do governo Bush) que busca incitar minorias descontentes com o processo interno dos países e assegurar-lhe apoio “democrático”, após extenso estudo das comunicações espionadas pela NSA, tem fulcro no antigo “Northwood Plan” de 1962 (disponível em http://www2.gwu.edu/~nsarchiv/news/20010430/northwoods.pdf) que visava justificativas para a invasão de americana a Cuba. Naquele momento o discurso era o mesmo de agora, defender o “povo” cubano e o objetivo, a invasão.

Em seu último discurso, o prêmio Nobel da Paz Barack Obama, dá uma demonstração cabal das “justificativas” para uma reação armada em apoio ao povo ucraniano que “ (…) deserve the opportunity to determine their own future”. Além de apresentar-se “deeply concerned by reports of military movements taken by the Russian Federation inside of Ukraine” e que isso seria “deeply desestabilizing, which is not in the interests of Ukraine, Russia or Europe” (“Transcipt of Obama’s Remarks on Ukraine” disponível em http://www.nytimes.com/2014/03/01/us/politics/transcript-of-obamas-remarks-on-ukraine.html?_r=0 acesso em 01/03/2014). Como Kennan em 1947, o meta-discurso é segurança da região, democracia e ameaça russa. Sabemos que a tradição democrática russa é quase tão vasta quanto a tradição pacifista americana, mas nenhum dos lados parece querer ouvir exatamente a quem dizem defender: o povo da Ucrania.

Referências Bibliográficas

LIPPMANN, W. The Cold War. New York: Harper and Row Ed, 1947.

VIZENTINI, P. G. F. A fragmentação da Iuguslávia: paradigma da afirmação das estruturas hegemônicas de poder. Indicadores Econômicos FEE, Porto Alegre, v. 27, n. 2, p. 124-136, 1999.

VIZENTINI, P. G. F. Da crise do socialismo à Guerra ao terrorismo: Os dez anos que abalaram o mundo. Porto Alegre: Leitura XXI, 2002.

WALTZ, K. Structural realism after the Cold War. Internationl Security, v. 25 n. 1, p. 5-41, Summer 2000.

WESTAD, O. A. The global cold war. New York: Cambridge, 2010.

Luiz Fernando Horta é mestre em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB. (moonbladers@gmail.com)

1 Comentário em “There and back again, an East European Tale”, por Luiz Fernando Horta

  1. Não compreendi qual é a definição dos conceitos de “direita” e “esquerda” utilizados pelo autor. Com que critérios pode-se afirmar que um grupo como os Black Blocs são “de direita”? De que modo devemos compreender a condenação desse grupo por parte de todos os representante da direita política ou opinativa e a concomitante defesa do mesmo grupo por parte da esquerda artística, política (do PSOL ao Senador petista Eduardo Suplicy) e opinativa? Do mesmo modo, como podemos ver como sendo de direita grupos tão distintos quanto os mencionados pelo ator? Mesmo o presidente americano Barack Obama dentro do contexto político americano é visto como “esquerda” e não como “direita”.