A crise na Ucrânia: causalidades globais, regionais e inter-regionais de uma crise (quase nada) doméstica, por Bruno Hendler

Apesar da recente escalada de violência na Ucrânia, que resultou na morte de dezenas de pessoas e na destituição do presidente Viktor Yanukovich, não se pode dizer que a onda de manifestações na Praça Maidan é um fenômeno inesperado. Ao invés de apontar possíveis cenários para o desfecho da crise ucraniana, pretende-se lançar luz sobre as causas deste processo por meio do método desenvolvido por Barry Buzan e Ole Waever (2003), separando as variáveis de acordo com os níveis de análise: doméstico, regional, inter-regional e global.

Ao dividir o mundo em Complexos Regionais de Segurança (CRS), os autores afirmam que, à exceção das grandes potências, os demais países do mundo percebem as ameaças a sua segurança a partir da região em que estão inseridos. Tal tendência teria se intensificado com o fim da bipolaridade da Guerra Fria e com a emergência de temas não tradicionais na esfera da segurança, como meio-ambiente, identidades sociais e relações econômicas.

Um CRS pode ser definido quando os processos de securitização e desecuritização de um grupo específico de agentes estão tão interligados que seus problemas de segurança não podem ser interpretados ou resolvidos de forma separada (2003, p. 44). Em outras palavras, tem-se um CRS quando os dilemas de segurança de uma determinada região são característicos e peculiares aos Estados e aos outros agentes que a compõem.

A partir desse marco teórico, propõe-se a seguinte hipótese: um fator inter-regional (a possível cooperação econômica da Ucrânia com a UE), combinado a um fator regional (o ressurgimento geopolítico da Rússia de Putin), fez emergir ameaças latentes, desde o final da Guerra Fria, no nível doméstico da Ucrânia. Logo, para se compreender este fenômeno, é preciso explorar suas causas.

De acordo com Buzan e Waever (2003), a Ucrânia faz parte do CRS pós-soviético, pois foi uma das repúblicas fundadoras da União Soviética e, assim como as demais ex-repúblicas da superpotência socialista, compõe a esfera de interesses especiais da Rússia atual, sendo alvo de influência política e atração econômica deste país. No momento em que a Ucrânia sinalizou o estreitamento de laços com um polo de poder e riqueza inter-regional (o CRS Europeu por meio da União Europeia), o arranjo de poder no CRS pós-soviético foi abalado. E, ainda que as negociações com a UE não fossem a respeito de adesão plena ao bloco, mas de cooperação econômica, a percepção de ameaça para a Rússia, que é o centro do complexo pós-soviético, elevou-se.

Nesse contexto, um fator de nível global também tangencia a percepção russa de ameaça: a quase sobreposição da UE à OTAN e a projeção de poder, não apenas alemã, mas também norte-americana no leste europeu. Assim, com um misto de recompensa econômica amparada pela tradicional coerção mal disfarçada sobre os países do CRS pós-soviético, a Rússia de Vladimir Putin convenceu Yanukovich a interromper as negociações com o bloco europeu.

A Rússia pouco pôde fazer diante da expansão europeia sobre o leste europeu nos anos 1990 e 2000. Com o fim da Guerra Fria, os países da região foram, um a um, aderindo à União Europeia, e o grande CRS soviético tornou-se um CRS pós-soviético encolhido, com uma Rússia enfraquecida e com pouca projeção sobre seu entorno. Mas, desde a eleição de Vladimir Putin no começo da década de 2000, o país tem demonstrado ambições e condições de retomar o protagonismo em seu cenário regional.

Do ponto de vista russo, a Ucrânia é diferente dos demais países do leste europeu por fatores: a) geopolíticos: a cidade ucraniana de Sebastopol, na Crimeia, abriga a maior base naval russa no Mar Negro, e o país, ao contrário das nações da extinta cortina de ferro, faz fronteira direta com a Rússia; b) identitários: a Ucrânia, e especialmente Kiev, é vista como o centro histórico da cultura eslava; e c) econômicos: o país é uma das principais rotas dos gasodutos russos que abastecem os países europeus.

No contexto de ressurgimento geopolítico da Rússia de Putin, não é de se esperar que o país abra mão dos benefícios da proximidade com a Ucrânia. Portanto, o fator inter-regional (a expansão da UE sobre o leste europeu, que por meio século fez parte do CRS soviético) combinado com o fator regional (o ressurgimento político da Rússia) criou a conjuntura de acirramento de tensões domésticas na Ucrânia.

No nível doméstico, inúmeras ameaças à estabilidade foram ativadas pela combinação das pressões externas. Em primeiro lugar, a questão identitária: em torno de 17% da população da Ucrânia é composta por russos, que vivem majoritariamente no leste e no sul do país. Essa minoria possui laços culturais e familiares com o vizinho e tende a se opor à aproximação com a UE. Diante disso, a mídia ocidental aponta que o Kremlin pode vir a incentivar manifestantes pró-Rússia a pressionar o novo governo ucraniano por concessões (GOMEZ, 2014). Já a mídia russa alardeia que Hungria, Eslováquia, Polônia e Romênia querem aproveitar o enfraquecimento do Estado ucraniano para revisar as fronteiras com este país (Mandrasescu, 2014). Por fim, com o aprofundamento da divisão na sociedade, há uma remota chance de separatismo do lado ocidental – fato que poderia instigar uma invasão militar russa em nome da proteção de seus cidadãos, os quais correriam o risco de ser perseguidos pela maioria ucraniana.

O pífio desempenho econômico da Ucrânia nos últimos anos é outro fator que contribuiu para o acirramento das tensões domésticas. As indústrias estatais dos tempos soviéticos foram privatizadas por grupos ligados ao establishment político e mantiveram-se no ramo das commodities, sem grandes inovações, dependendo do gás importado da Rússia e subsidiado pelo próprio governo (ASSOCIATED PRESS, 2014). Apesar da estagnação tecnológica, a produção agropecuária e industrial garantiu crescimento econômico até a crise de 2008 devido à alta dos preços das commodities, estimulada pela demanda chinesa. Porém, no ano seguinte o desemprego saltou de 6,5% para 10% da população (Trading Economics, 2014). Assim, o movimento da Praça Maidan tem também um forte componente econômico, pois a revolta pró-UE é também a revolta contra um modelo econômico ultrapassado e dependente da energia fornecida pela Rússia.

Por fim, a fragilidade das instituições é outro fator interno relevante. Transparência é uma palavra rara, não apenas no parlamento, mas também no processo de privatização das empresas estatais, que proporcionaram fortunas instantâneas a pessoas ligadas à política do antigo regime socialista. Ademais, a prisão relâmpago da ex-presidente Yulia Tymoshenko em 2011 coloca em dúvida a separação dos poderes do país (a libertação de Tymoshenko – alcançada há alguns dias – tornou-se mais uma das bandeiras da manifestação em Kiev). Portanto, a revolta é também em relação ao sistema político ucraniano, que herdou vícios do socialismo e é identificado com a Rússia, em oposição ao sistema europeu, mais aberto e transparente.

A conturbação política e social na Ucrânia está distante de uma resolução ordeira e pacífica. Não nos cabe aqui, estabelecer quaisquer cenários possíveis para seu desfecho, do mais otimista ao mais pessimista. Busca-se, a partir de um marco teórico bem definido, compreender as raízes regionais, inter-regionais e globais da crise doméstica vivida pelo Estado ucraniano nos últimos meses. E, talvez, a partir da relação entre as variáveis, seja possível compreender mais a fundo as notícias veiculadas diariamente pela grande mídia sobre a questão.

Referências Bibliográficas

BUZAN, Barry; WAEVER, Ole. Regions and Powers: The Structure of International Security. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

GOMEZ, Rafael. Pressão da Rússia mantém risco de instabilidade na Ucrânia. BBC Brasil em São Paulo. 24/02/2014. Disponível em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/02/140224_ucrania_analise_rg.shtml. Acesso em 25/02/2014.

Mandrasescu, Valentin. Vizinhos da Ucrânia preparam-se para dividir seu território. Rádio Voz da Rússia, 31/01/2014. Disponível em: http://portuguese.ruvr.ru/2014_01_31/Vizinhos-da-Ucr-nia-preparam-se-para-dividir-seu-territ-rio-5726/. Data de acesso: 25/02/2014.

Trading Economics: Ukraine unemployment rate. Disponível em: <tradingeconomics.com> Data de acesso: 25/02/2014.

ASSOCIATED PRESS. How Ukraine’s economic decay fueled protests. Disponível em: http://www.financialexpress.com/news/how-ukraines-economic-decay-fueled-protests/1228450/0. Data de acesso: 25/02/2014.

Bruno Hendler é mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – IREL-UnB e professor de Relações Internacionais no Centro Universitário Curitiba – Unicuritiba. (bruno_hendler@hotmail.com)

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