O Guanxi chinês como determinante do fluxo de Investimento Estrangeiro Direto (IED) na China, por Aline Tedeschi Cunha

A dimensão continental e a imensa população da China, aliadas às mudanças de alinhamento político-econômico quando da Reforma e Abertura (1978), possibilitaram ao governo chinês combinar as conveniências da industrialização voltada para a exportação – fortificada pelo investimento estrangeiro – com as benesses de uma economia nacional centrada em si e protegida informalmente pelo idioma, por costumes, pelas instituições e pelas redes, aos quais os estrangeiros interessados no grande mercado chinês só tinham acesso por intermediários locais.

Diversas redes de investimentos, pautadas na percepção de “setores sensíveis” e “setores de segurança nacional” como forma de proteger a economia nacional de monopólio de capital estrangeiro, determinam e direcionam o fluxo de Investimento Estrangeiro Direto (IED) na China. Essas redes constituem-se tanto por fatores econômicos como por políticos e culturais, sendo que o aspecto político, ligado e guiado pelos burocratas do PCC em relação às operações econômicas, investe-se de uma lógica específica (SANTILLÀN; SILBERT, 2004). A fim de incrementar a margem de manobra de certas instâncias do Estado e dotá-las de maior personificação, tais como o Exército Popular de Libertação (EPL) e as empresas estatais, tanto os dirigentes do EPL como os gerentes de tais empresas têm aumentado sobremaneira sua influência no setor econômico através de investimentos em joint ventures, realizando contratos de infra-estrutura e obras públicas, tornando-se deste modo “empresários burocráticos” (CASTELLS, 1999).

Destarte, os governos locais também se convertem em atores-chave, cujas políticas as empresas estrangeiras devem considerar quando intencionam conhecer e investir no ambiente local. Logo, acometer boas relações com os governos locais constitui-se numa estratégia necessária para construir uma rede de contatos (network) e para reduzir os custos de transação e facilitar a aquisição de informações sobre o mercado chinês. As redes de negócio chinesas têm dupla característica: (a) são relações informais estabelecidas por atores econômicos e são comumente redes morais por excelência; (b) são também redes pessoais fortes, e se sobressaem em relação às instituições econômicas “fracas”, ou à falta de base legal. (PINHEIRO-MACHADO, 2007).

A respeito da criação de alianças, utiliza-se tradicionalmente no país a prática do guanxi (关系), palavra chinesa que significa, basicamente, rede de relacionamento interpessoal e rede de reciprocidade e ajuda mútua.  Considerado uma das principais características do ‘espírito do capitalismo chinês’ pelo seu reconhecido papel das redes pessoais para o desenvolvimento de certos setores produtivos chineses. No sentido empresarial de investimentos, o guanxi se manifesta como um tipo informal de relacionamento para os negócios. Questões como confiança, fluxo de informações, lealdade, “espírito” de harmonia e obrigatoriedade dos laços são alguns dos aspectos que propiciam o desenvolvimento dos negócios chineses.

Assim, dado que muitas vezes o ambiente formal é rodeado por instituições de funcionamento deficitário, o guanxi é decisivo para que os investidores estrangeiros adquiram conhecimento sobre as regras locais, fortaleçam os negócios comerciais e melhorem a eficiência nas trocas privadas, agindo como “intermediário local”. Muitas vezes, esse tipo de conexão social acaba se assemelhando às práticas de clientelismo, as quais se destacam em muitos países em desenvolvimento, especialmente quando as instituições jurídicas e econômicas não são consolidadas.

 A partir da conexão social, o conhecimento do ambiente local ajuda as empresas a entenderem e conseqüentemente reagirem ao ambiente institucional de modo a reduzirem os custos de transação. Uma característica que se destaca da China é que ela conserva muitos elementos de uma sociedade pré-moderna, revelando-se ainda, em essência, patrimonialista e dependente de uma “oficialização personalizada” de seus acordos: “Sem guanxi, nada significante acontece […] guanxi é tão importante quanto sempre foi.” (REDDING, 1993).

De fato, como resultado da política consciente governamental aliada às práticas do guanxi chinês, os investimentos da região overseas da China são a principal fonte de influxos de IED no país desde o final dos anos 1980 e início dos anos 1990. As redes de financiamento foram, desde esta época, promovidas inicialmente pelos investidores chineses de ultramar (overseas chinese – Hǎiwài Huárén海外华人) – pessoas de nascimento ou descendência chinesa que vivem fora da República Popular da China (RPC)-, que começaram a organizar negócios no continente auxiliados por suas redes de relacionamentos (guanxi) e sua disponibilidade de capital e acesso ao financiamento externo.

Já na fase inicial das reformas de abertura chinesas, as redes de negócios ultramar podiam facilmente transpassar barreiras políticas e não-tarifárias e entrar na China continental a fim de investir nas Empresas de Aldeia e de Municípios (EAMs) por conta de características como pequena escala, vínculos de parentesco e étnicos, eficiência elevada, e informações precisas através de rede de negócios globais. Doravante, com a volta de milhares de estudantes chineses de ultramar voltando à China continental, seja para investir seja para estabelecer empresas intensivas em tecnologia, as redes chinesas de negócios de ultramar têm-se reforçado em paralelo a grandes corporações multinacionais.

Estima-se que os chineses de ultramar – mais de 50 milhões de pessoas – possuam US$ 2 trilhões em ativos líquidos, excluindo os títulos, e desde meados de 1980 três quartos das 28 mil empresas chinesas com capital estrangeiro significativo são financiadas por chineses que não vivem na RPC, e que suas contas de financiamento atingem até quatro quintos do IED no país. Precisamente, de 1979 a 1997, 68.34% do capital estrangeiro na China era originário de chineses de ultramar. Mesmo no final de 1998, o IED atingiu o pico de US$ 45.5 bilhões, sendo que mais de 60% vieram de Taiwan e Hong Kong (SAICH, 2011). Em janeiro de 2014, Hong Kong, Taiwan e Macau somaram juntas US$ 8.4 trilhões em IED na China continental, representando 82,7% do total de investimento das dez principais nações e/ou regiões com fluxos de IED para a China.

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Fonte: MINISTRY OF COMMERCE PEOPLE’S REPUBLIC OF CHINA. Statistics of FDI in China in January 2014. Disponível em: http://english.mofcom.gov.cn/article/statistic/foreigninvestment/201402/20140200498936.shtml. Acesso em 25.fev.2014.

Além de trazer capital para a China, as redes de negócios chineses ultramar fornecem expertise de negócios e acesso à comercialização, dado o fato de que a China, guardadas proporções, foi um país de desenvolvimento tardio na economia mundial e não era de certa forma familiarizada com conexões de marketing e regulamentações internacionais. Logo, as atividades dos chineses de ultramar, aliadas às reformas institucionais do governo e aos fluxos de IED, contribuíram factualmente para a reinserção chinesa à economia mundial.

Em suma, os eventos domésticos ocorreram e se vincularam simultaneamente às transformações que vinham ocorrendo a nível mundial, como o crescimento do papel das corporações no sistema de Estados e na economia-mundo, e a maior integração entre os países no mercado mundial, vide inserção da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) no final de 2001. Tanto o governo quanto as empresas da RPC reconheceram a necessidade de capital estrangeiro, experiência organizacional avançada e tecnologia. Assim, aliada às intenções da reforma, a entrada de IED e de corporações globais na China exerceram significativa pressão na evolução da organização dos negócios chineses para se adaptar às regras do mercado global como o são atualmente.

Referências Bibliográficas

BARABANTSEVA, Elena (2010). Overseas Chinese, Ethnic Minorities and Nationalism: De-centering China. 1. Ed. London: Routledge,  202 p.

CASTELLS, Manuel (1999). “Era da informação”, Fim do milênio, vol. 3, pp. 353-363, 1999.

PINHEIRO-MACHADO, Rosana (2007). Entre dádivas, ganbei e guanxi: o papel das relações pessoais no entendimento do crescimento econômico da China contemporânea. Seminário Temático. ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS, 31. out. 2007, São Paulo. São Paulo: ANPOCS, 2007.

REDDING, S. Gordon (1993) The spirit of Chinese capitalism. 1. Ed. New York: Walter De Gruyter Inc, 267 p.

SAICH, Tony (2011). Governance and Politics of China. 3. Ed. New York: Palgrave Macmillan, 428 p.

SANTILLÁN, Gustavo; SILBERT, Jaime (2005). “Un aporte a la compriensión de la República Popular China hoy: economia, intervención estatal e consecuencias sociales”, Revista Herramienta: Debate y Crítica Marxista, nº 29, jun. 2005. Disponível em: [http://www.herramienta.com.ar/revista-herramienta-n-29/un-aporte-la-comprension-de-la-republica-popular-china-hoy-economia-interve]. Acesso em: 22/01/2014.

Aline Tedeschi Cunha é mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” FFC/UNESP – Campus Marília (aline.tedeschi@gmail.com)

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