Organização de Cooperação de Xangai: Rumo a um clube energético?, por Paulo Duarte

Além das diversas áreas de cooperação regional abrangidas pela Organização (de que destaca a importante questão securitária), à medida que esta tem evoluído, “vários líderes dos Estados membros que a integram confessam que gostariam de ver a cooperação regional ser alargada a outros campos” (Matusov, 2007: 84). Por exemplo, durante a cimeira da Organização, em 2006, em Xangai, o então Presidente russo Vladimir Putin sugeriu a criação de “um clube energético” no quadro desta, com o objetivo de coordenar a política energética e a crescente cooperação na região (Kolchin, 2001: para. 1). Ainda em 2006, numa cimeira que reuniu os Primeiros-Ministros dos Estados-Membros da Organização de Cooperação de Xangai, no Tajiquistão, foi emitida uma declaração favorável a esta proposta (Pannier, 2006). Seguiram-se outras reuniões e cimeiras, as quais têm contribuído para reforçar a ideia da criação de um clube energético no seio da Organização (Ganguly, 2012).

Uma das propostas que tem vindo a conquistar muita atenção é a de promover “uma versão gás”, inspirada na ‘OPEP’, essencialmente através da criação de “um cartel entre os produtores de gás natural”, suscetível de controlar os preços nos mercados mundiais e a produção (Blagov, 2006: para. 4). Esta proposta “terá sido alegadamente avançada, em primeiro lugar pelo ex-Presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad, em 2006” (Sepehri, 2007: para. 17). Na época, o Presidente russo, Vladimir Putin, terá aparentemente reagido ‘com frieza’ à proposta, mas no seio das elites políticas ocidentais gerou-se um certo alarmismo na sequência de uma entrevista dada por Putin em fevereiro de 2007, onde o mesmo afirmara que uma versão gás da ‘OPEP’ era uma ideia interessante, e que a Rússia iria considerar coordenar um tal empreendimento com outros países produtores de gás natural (Sepehri, 2007). Contudo, especialistas como Jonathan Stern, do Oxford Institute for Energy Studies sublinham que “o Exporting Countries Forum, que já existe para servir a funções similares, é uma organização caótica e ineficaz” (2007: 1). Dado que a Rússia e as Repúblicas da Ásia Central escoam a maior parte do seu gás natural através de gasodutos, em vez de o converter em gás natural liquefeito, e operam sob contratos de longo prazo, seria difícil coordenar uma tal iniciativa a nível global, ou mesmo regional (Stern, 2007).

Esta iniciativa de criação de um clube energético alicerçado na OCX possui, ainda, “um longo caminho pela frente”, sendo que os seus objetivos têm-se limitado “à conclusão de projetos-piloto de cooperação energética” (Townsend e King, 2007: 35). Como refere Ajdar Kurtov, “[a ideia do] clube energético no seio da OCX falhou, até ao presente, em proporcionar um modelo de cooperação capaz de atender a todos os Estados-membros” (2009: para. 15). Com efeito, até ao presente “não houve aproximação entre os Estados-membros em matéria de cooperação energética”, embora o conceito de política energética da OCX seja alvo de debate desde há vários anos (Kurtov, 2009: para. 16). Em jeito de conclusão, “a OCX não tenderá, provavelmente, a desempenhar um papel significativo na instituição de uma maior cooperação e/ou coordenação energética na região”, sendo que, além disso, o progresso nesta direção tenderá a ser “lento, instável e incerto” (Matusov, 2007: 97). No entanto, faz pouco sentido isolar, por completo, a energia do amplo contexto económico (Yigit, 2012).

Referência Bibliográfica

 

Blagov, 2006, http://www.isn.ethz.ch/isn/Digital-Library/Articles/Detail/?ots777=4888caa0-b3db-1461-98b9-e20e7b9c13d4&lng=en&id=52134

 Kolchin, S. (2001), Russia Initiates Energy Club, RIA Novosti, June 6.

 Matusov, A. (2007). Energy Cooperation in the SCO: Club or Gathering? China and Eurasia Forum Quarterly, 5, n.º 3, 83-99

 Pannier, B. (2006). Economic Ties the Focus as Shanghai Group Meets, Radio Free Europe, Radio Liberty. September 15, http://www.rferl.org/featuresarticle/2006/09/416d92cb-03f1-4cbe-a9d5-fc6e37321147.html

 Sepehri V. (2007). Iran: Politicians Support Establishment of Natural-Gas Cartel,” Radio Free Europe/Radio Liberty, February 6, <http://www.rferl.org/featuresarticle/2007/02/6FAAF0FE-8FEC-4DEF-B314-B4B474B5A6A7.html>

 Stern, J. (2007). Gas-OPEC: A Distraction from Important Issues of Russian Gas Supply to Europe, Oxford Energy Comment, February, <http://www.oxfordenergy.org/pdfs/comment_0207-1.pdf>

Paulo Duarte é doutorando em Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa – ISCSP-UTL, Portugal, e investigador no Instituto do Oriente (duartebrardo@gmail.com).

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