A Rússia e a China na Organização de Cooperação de Xangai: entre cooperação e rivalidade, por Paulo Duarte

Segundo Raquel Freire (2012), “a OCX é muito interessante pelo efeito de dupla contenção que exerce”, quer “face à China”, quer “face à Rússia”, que são “duas grandes potências rivais, competidoras na mesma área”. Com efeito, a especialista esclarece que “estas duas potências colaborarão até determinado momento”, a partir do qual a competição tenderá a prevalecer (Freire, 2012). A cooperação entre Pequim e Moscovo é possível, no seio da Organização, uma vez que “ambas possuem interesses comuns”, como é o caso “da vigilãncia do narcotráfico”, onde “tem havido uma colaboração estreita entre as duas” (Freire, 2012). Porém, “quando falamos, por exemplo, em termos de armamento, há determinado tipo de armamento que a Rússia não vende à China porque não quer paridade estratégica” (Freire, 2012). A ideia aqui subjacente é a de que “ambas colaboram e se interessam em ser parceiras”, mas “há que manter alguma cautela” (Freire, 2012). Um dos fatores que, segundo Raquel Freire (2012), as une é a presença de atores externos na região, “em particular, os Estados Unidos”, havendo, por conseguinte “o entendimento” por parte quer da Rússia, quer da China, de que “a presença dos Estados Unidos é, de certa forma, estabilizadora”, embora “uma presença demasiadamente longa” não seja “conveniente”.

Entre 2006 e 2008, a OCX foi, em grande parte, percebida como uma organização disfuncional, prejudicada por um impasse prolongado, devido ao facto de os seus dois principais membros se encontrarem divididos face ao caminho para o desenvolvimento a seguir (Chiu Chen-hai, 2008).

A Rússia, que tem tradicionalmente considerado a Comunidade de Estados Independentes (CEI) e subsequente estrutura da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) como os seus mecanismos prediletos para exercer influência no que Moscovo ainda considera ser a sua esfera de interesse privilegiado, vê na OCX um complemento ao potencial da OTSC, onde beneficia de um estatuto hegemónico incomparável (Contessi, 2010).

A China, por sua vez, tende a considerar a OCX como ‘estabilizador regional’, em primeiro lugar, como parte da sua ampla estratégia de ‘abertura’ para criar relações amistosas e estáveis nas suas fronteiras, que favoreçam um ambiente propício ao aumento da prosperidade através da reconstituição da Rota da Seda; e, em segundo lugar, como alicerce dos esforços de estabilização, a longo prazo, do Xinjiang (Yong, 2007). Dito isto, sublinhe-se a divergência sobre duas questões cruciais relacionadas com a Organização de Cooperação de Xangai. A primeira diz respeito ao debate sobre se esta é uma organização de segurança ou uma organização económica. De acordo com o ex-porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Mikhail Kamynin (2005), a OCX entende a luta contra o terrorismo e o extremismo como a sua principal missão. À exceção de “uma ou outra reorientação”, Nicola Contessi considera que “o pensamento russo sobre a Organização não mudou muito desde 2005” (2010: 105). Embora a cooperação económica e securitária permaneçam as duas principais áreas de atividade da organização desde os seus primórdios, a Rússia tem-se mostrado “especialmente reticente face à possibilidade de alargamento da cooperação ao campo socioeconómico” (Contessi, 2010: 105).

Devido a razões históricas, Moscovo ainda beneficia de importantes laços económicos e comerciais relativamente às Repúblicas da Ásia Central (Garibov, 2013; Petersen e Barysch, 2011). Além disso, acrescente-se, igualmente, o fator cultural. Segundo Raquel Freire (2012), “um dos aspetos mais interessantes da evolução da política externa russa, reside na dimensão do chamado soft power”, ou seja, na existência de “uma Rússia menos agressiva, menos realista no sentido clássico das relações internacionais”, bem como de uma Rússia interessada em “promover cursos de língua e iniciativas a nível cultural que, de alguma forma, tentam reaproximar identitariamente todas estas comunidades [pós-soviéticas]” que “estiveram sob uma mesma ocupação e influência durante muitos anos”. Por todas estas razões, a Rússia está mais interessada em cultivar o papel de potência ‘pós-imperial, ao invés de compartilhar a sua posição de liderança com a China (Cohen et al, 2012). Por um lado, a Rússia receia perder a [sua] influência económica e estratégica na Ásia Central, e, por outro, teme um afluxo massivo de chineses para as suas vastas e desertas províncias orientais (Pantucci, 2012). Ao invés, a China tem-se empenhado em promover “uma maior cooperação económica face aos Estados-membros da Organização de Cooperação de Xangai”, enquanto a Rússia tem procurado privilegiar “os aspetos políticos e securitários da colaboração multilateral” (Koldunova, 2013: para. 1).

O segundo assunto, alvo de desacordo, diz respeito ao debate sobre se a OCX deve, ou não, assumir um “maior papel geopolítico na região”, ou se deve focar-se, ao invés, nos “aspetos internos da organização”, contribuindo para “a melhoria da cooperação intrarregional no seio desta” (Contessi, 2010: 105). Ligado a este aspeto, está o desejo, por parte de alguns círculos militares russos, de transformar a OCX numa espécie de bloco político-militar (Solovyev e Ivanov, 2007). Não obstante, a China deixou clara a sua visão para a missão da Organização já em 2004, ao declarar que “[esta] não é um bloco político-militar, mas uma organização envolvida numa cooperação multissetorial” (Almaty Express, 2004).

A China tem sido uma acérrima defensora do estabelecimento de políticas e instituições suscetíveis de intensificar os laços económicos no seio da Organização (Tao Wenzhao, 2006; Boland, 2011). Ao longo dos últimos anos, é de salientar três iniciativas que têm reforçado a liderança chinesa em matéria de cooperação económica no quadro da Organização de Cooperação de Xangai. Em primeiro lugar, os 900 milhões de dólares de linha de crédito de exportação preferencial com vista à promoção do comércio multilateral, que Pequim concedeu a vários Estados-membros da Organização, ajudaram a conquistar o apoio destes para a cooperação económica (Xinhua, 2009). Em segundo lugar, o tratado de 2007 sobre Relações de Boa Vizinhança, que resultou de uma proposta chinesa na Cimeira de Xangai de 2006. No entendimento chinês, o tratado representa um esforço para estimular “a cooperação global” em nome do respeito e apoio aos interesses e preocupações dos Estados membros da Organização de Cooperação de Xangai, do reforço da coordenação e cooperação em matéria de assuntos regionais e internacionais, e consultação… nos grandes assuntos regionais e mundiais” (China Daily, 2009: para. 3). Em terceiro lugar, os “10 biliões de dólares” de crédito concedido aos Estados-membros da OCX na cimeira anual de 2009, em Yekaterinburg, destinaram-se, em grande parte, “ao esboço de soluções para a crise financeira internacional” (China Daily, 2009: para. 4).

Por mais que a China procure privilegiar as questões económicas, no âmbito da Organização, a Rússia, por sua vez, manifesta-se mais interessada em reforçar a dimensão securitária (Carrol, 2011; Wishnick, 2009). Segundo Niklas Swanström e Christopher Len, “este aspeto parece levantar a questão da duplicação”, devido à existência da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), na qual “a Rússia pode alcançar resultados mais rápidos sem ter necessidade de se comprometer com a China” (2010: 117). No entanto, cada instituição serve diferentes interesses. Por um lado, em matéria de política externa russa, “a OCX constitui um alicerce à sua estratégia na Ásia-Pacifico”, enquanto “a Organização do Tratado de Segurança Coletiva é, claramente, mais direcionada para o chamado ‘espaço da Comunidade de Estados Independentes’” (Swanström e Len, 2010: 117).

Referência Bibliografia

Almaty Express. (2004). Top Shanghai Officials Set out Policy Priorities, Aspirations, Almaty Express, September 24.

Boland, J. (2011). Ten Years of the Shanghai Cooperation Organization: A Lost Decade? A Partner for the U.S.?, Foreign Policy at Brookings, 21st Century  Defense Initiative Policy Paper.

Carroll, W. (2011). China in the Shanghai Cooperation Organization: Hegemony, Multi-Polar Balance, or Cooperation in Central Asia, International Journal of Humanities and Social Science, 1, n.º 19.

“China offers $10 billion loan to SCO,” China Daily, June 16, 2009, http://www.chinadaily.com.cn/china/2009sco/2009-06/16/content_8289602.htm

Chiu, C. (2008). “Shanghai Cooperation Organization Faces New Challenges as It Ponders Strategic Direction,” Wen Wei Po, August 31.

Cohen, A. (2012). The Future of Russia’s Involvement in Central Asia, N.º 3, Central Asia Policy Forum, December

Contessi, N. (2010). China, Russia and the Leadership of the SCO: a Tacit Deal Scenario, China and Eurasia Forum Quarterly, 8, N.º 4, 101-123

Freire, M. Raquel (2012), Entrevista pessoal, Coimbra.

Garibov, 2013, http://www.turkishweekly.net/news/149055/russia-and-central-asia-do-all-central-asian-roads-still-lead-to-russia.html

 Kamynin, M. (2005), Fight Against Terrorism SCO’s Central Task – Diplomat, Interfax, October 25.

 Koldunova, 2013, http://valdaiclub.com/asia/55101.html

Pantucci, 2012, http://www.scmp.com/comment/insight-opinion/article/1021068/china-and-russia-are-no-more-allies-convenience

“SCO pays much attention to economic, financial cooperation,” Xinhua, June 14, 2009, http://news.xinhuanet.com/english/2009-06/14/content_11540011.htm

Wenzhao, T. (2006). Shanghai Cooperation Organization Enters Stage of Pragmatic Development, Ta Kung Pao, July 11

Wishnick, (2009). Russia, China, and the United States in Central Asia: Prospects for Great Power Competition and Cooperation in the Shadow of the Georgian Crisis, U.S. Army War College, Strategic Studies Institute

Paulo Duarte é doutorando em Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa – ISCSP-UTL, Portugal, e investigador no Instituto do Oriente (duartebrardo@gmail.com).

 

Seja o primeiro a comentar