A personalidade do ano e as mudanças na Igreja Católica, por Elói Martins Senhoras & Maria Sharlynay Marques Ramos

A Igreja Católica Apostólica Romana[1] vem sendo sacudida internacionalmente por uma marcante crise de caráter institucional que não é recente, mas antes, tem dinamização diacrônica nos últimos dois séculos, tanto, por motivos exógenos e de longa duração, com a difusão do racionalismo e de ideologias antagônicas ao cristianismo, quanto, por motivos endógenos e de curta duração, ligados a escândalos políticos, sexuais e financeiros no meio religioso.

Na história contemporânea, a Igreja Católica passou por tentativas de reforma institucional e mudança na inter-relação com a sociedade frente aos desgastes enfrentados, motivo pelo qual surgiram nos séculos XIX e XX, , respectivamente, o I e II Concílio do Vaticano, os quais foram caracterizados para conservar ou renovar a axiologia eclesiástica.

Em um primeiro momento, considerado o evento de maior relevância da Igreja Católica no século XIX, o I Concílio do Vaticano foi a primeira assembléia ecumênica multilateral desde o Concílio de Trento, em 1563, a qual despertou entusiasmo e apreensões quanto aos preparativos, embora, também tenha sido marcada pelo conservadorismo e pela manutenção do status quo eclesiástico frente às transformações da sociedade.

O fracasso do I Concílio do Vaticano pode ser apreendido pelo não comparecimento de representantes protestantes e ortodoxos; uma ampla opinião pública contrária de um sistema internacional crescentemente permeado pelo liberalismo e nacionalismo; bem como por uma acanhada agenda minimalista que se baseava na centralização política pela Cúria Romana do Vaticano e pela instituição da infalibilidade papal e seu primado de jurisdição sobre toda a Igreja, a qual foi amplamente questionada por um movimento antiinfalibilista.

Em um segundo momento, a Igreja Católica passou após o Concílio Vaticano II por duas tendências distintas de recepção das discussões, haja vista que houve, tanto, um posicionamento de renovação trazido pelo próprio Papa João XXIII na convocação do Concílio, e, que persistiu no pontificado de Paulo VI, quanto um posicionamento restaurador que se desenvolveu nos pontificados de João Paulo II e Bento XVI.

Nos pontificados de João XIII e Paulo VI, as deliberações do II Concílio do Vaticano tiveram ampla repercussão, registrando um curto período de transição no qual houve uma compreensão multilateral da Igreja na sociedade internacional, haja vista que foram repensadas as relações com outras Igrejas cristãs e outras religiões; instituídas missas nas línguas de cada pais e não mais em latim; bem como divisão do poder do Papa com outros cardeais no Vaticano.

Nos pontificados de João Paulo II e Bento XVI, a Igreja Católica voltou a estabelecer um embate com valores e estilos de vida da sociedade contemporânea, retroagindo a um conservadorismo doutrinário que passou crescentemente a se colidir diretamente com instituições estatais laicas e movimentos da sociedade civil, por meio da abordagem de questões polêmicas, como aborto, união estável homoafetiva, inclusão de direitos sexuais e reprodutivos no rol dos direitos humanos, ensino religioso nas escolas, e, pesquisas científicas com células-tronco (CAMURÇA, 2013).

Em um terceiro momento, a decisão do Papa Bento XVI de renunciar tornou-se em um marco de inflexão no início do século XXI, pois como braço-direito e posterior continuador da obra conservadora do Papa João Paulo II, Joseph Ratzinger foi incapaz de modernizar a Igreja, embora mereça o crédito de expor os abismos não espirituais do Estado do Vaticano e do sistema descentralizado das igrejas católicas no mundo, mesmo tardiamente, após uma série de acobertamentos que foi crescentemente exposta por denuncias publicizadas pela imprensa (FEBBRERO, 2013).

A inédita renuncia na época contemporânea aconteceu em um contexto em que o Estado do Vaticano[2] se revelou como um reflexo pontual da decadência do próprio sistema descentralizado das dioceses e paróquias, uma vez que foi engendrada por contenciosos relacionados a temas não teológicos que envolviam desde roubo massivo de documentos secretos, escândalos sexuais, corrupção, finanças obscuras, lavagem de dinheiro até guerras internas por poder e manutenção de privilégios que criaram resistência no seio da Cúria contra medidas de transparência.

Em pleno contexto de surpresa com a renúncia do papa Bento XVI e de forte crise institucional no início do século XXI, vindo de uma região periférica para a conformação política e doutrina eclesiástica da Igreja Católica Apostólica Romana, surge o cardeal jesuíta Jorge Mario Bergoglio, eleito para assumir o posto de Supremo Pontífice da Igreja Católica, responsável, tanto, como chefe espiritual do catolicismo, quanto, chefe político do Estado do Vaticano.

A eleição de um novo papa vindo da periferia do mundo tem sido vista como um indicador endógeno à própria Igreja da necessidade de transformação política e axiológica, a fim de se ultrapassar a atual tendência conservadora em direção à retomada do espírito pluralístico e absorvente, originário do II Concílio do Vaticano na década de 1960.

No prisma político, o novo Papa tem se mobilizado com o objetivo de enfrentar a crise institucional da Igreja, por meio da desconstrução da concentração do poder do Vaticano em direção a um padrão de governança mais descentralizado, baseado na colegialidade e na maior aproximação e abertura institucional ao diálogo com a sociedade.

As diretrizes pluralistas e descentralizadoras do Papa Francisco vêm quebrar o paradigma da Monarquia Absolutista, cristalizado pela Igreja até o século XX, tanto, por meio de dogmas que prezam a hierarquia, verticalizada, a partir da figura papal como líder político e religioso dotado de poderes ilimitados e infalível em assuntos de fé e moral, quanto, por meio da institucionalização do Vaticano enquanto Cidade-Estado autônoma, burocratizada e concentradora do poder temporal.

No prisma axiológico, há uma nova orientação focalizada, tanto, nos valores da simplicidade, humildade, comunidade e misericórdia, quanto, na atividade pastoral e na capacidade mobilizadora de missionários católicos a diferentes partes do globo, o que tem motivado uma modesta e lenta mudança nos comportamentos dos católicos e impactado no próprio Vaticano.

As atitudes do Papa Francisco têm contrastado com práticas cristalizadas historicamente no centro institucional da Igreja, caracterizadas pelo elitismo sacerdotal, haja vista que por meio do exemplo da liderança papal, com gestos comedidos, sem regalias e um carisma forte, tem causado uma empatia imediata na comunidade católica mundial.

Ao conciliar o romantismo eclesiástico com o realismo dos discursos, o Papa Francisco tem imprimido não apenas uma estratégia axiológica de recuperação de fiéis, mas também o fortalecimento político para enfrentar as resistências provenientes da própria burocracia do Vaticano e implementar as reformas na Cúria Romana e no Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano (RODRIGUES, 2013).

Considerado a personalidade do ano pela revista TIME (2013) e pelo Jornal EL PAÍS (2013), bem como a quinta pessoa mais poderosa no mundo pela revista FORBES (2013), o Papa Francisco notabilizou-se internacionalmente em muito pouco tempo, ao saber se posicionar em discussões centrais, assimétricas e polêmicas da sociedade internacional, o que restituiu o espírito do II Concílio do Vaticano.

Segundo Domingues (2013), há uma clara reversão da mentalidade restauracionista do pós-Concílio do Vaticano II, quando surgiram estratégias como nomear bispos conservadores multilateralmente, eliminar correntes teológicas questionadoras, bem como implementar no plano dogmático um novo Direito Canônico e um novo Catecismo Católico.

Embora não haja a indicação prospectiva de um III Concílio do Vaticano é possível se observar no campo teológico e na política eclesiástica que há um revigoramento dos elementos pragmáticos do II Concílio do Vaticano a partir dos gestos e decisões do Papa Francisco, caracterizados por uma dimensão programática, pautando-se por uma agenda prospectiva de atividades pastorais e missionárias vis-à-vis a uma dimensão paradigmática, relacionada às mudanças políticas nas estruturas institucionais da Igreja no curto prazo.

Na dimensão programática, tem buscado uma postura ativa para desacomodar a Igreja Católica de sua esclerose bucrocrática, por meio de um estilo simples e uma pastoral aberta à pluralidade que incomodam os setores conservadores e tradicionalistas dentro da própria Igreja, já que surgem discursos de esperança e sobre temas polêmicos e de relevância social.

Na dimensão paradigmática, a política adotada pelo Papa Francisco é essencialmente pragmática e possui uma força de longa duração que é voltada para a continuidade da difusão da religião e dos valores cristãos no mundo, motivo pelo qual foi criado um grupo formado por oito cardeais de todos os continentes para assessorá-lo no governo da Igreja.

Conclui-se que por mais modestas que sejam as mudanças implementadas pelo Papa Francisco, observa-se um célere padrão de transformações em uma organização complexa, como a Igreja Católica, a qual é movida por dogmas e tradições cristalizadas milenarmente, já que em nove meses a frente da Santa Sé, o novo pontífice realizou, tanto, transformações de mentalidade, ao abrir caminhos, quebrar resistências, e implementar novos valores e atitudes, quanto, reformas na Cúria, mudanças nos principais cargos do Vaticano, bem como afastamentos padres e bispos relacionados a escândalos sexuais e financeiros.

Referências bibliográficas

  • CAMURÇA, M. (2013). “A Igreja Católica “una, sancta e romana” e a “circundata varietate” na diversidade contemporânea”. Revista Estudos de Religião, vol. 27, n. 2, julho-dezembro.
  • DALARI, D. A. (1998). Elementos da Teoria Geral do Estado. São Paulo: Editora Saraiva.
  • DOMINGUES, B. O. P. (2013). “Os nove meses do Papa Francisco”. Jornal Público, 22 de Dezembro. Disponível em <www.publico.pt>. Acesso em 29/12/2013.
  • FEBBRERO, E. (2013). “O segredo por trás da renúncia do Papa Bento XVI”. Pragmatismo Político, 15 de fevereiro, 2013. Disponível em <www.pragmatismopolitico.com.br>. Acesso em 29/12/2013.
  • FORBES. (2013). “The world’s most powerful people”. Forbes, October, 10th. Disponível em: <www.forbes.com>. Acesso em 29/12/2013.
  • LIBANIO, J. B. (2005). Concílio Vaticano II. Em busca de uma primeira compreensão. São Paulo: Edições Loyola.
  • NOETHER, E. P. (1968). “Vatican Council I: Its Political and Religious Setting”. The Journal of Modern History, vol. 40, n. 2.
  • RODRIGUES, R. P. (2013). “Cristianismo profético: esperança e utopia em Helder Camara, Henri Desroche e na JMJ do Papa Francisco no Brasil”. Revista Estudos de Religião, vol. 27, n. 2, julho-dezembro.
  • TIME. (2013). “Pope Francis: Person of the Year”. Time Magazine, December 11th. Disponível em: <www.time.com>. Acesso em 29/12/2013.
  • VATICANO – Estado da Cidade do Vaticano (2013). Website do Vaticano. Disponível em: <www.vatican.va>. Acesso em 29/07/2013.

Elói Martins Senhoras é economista e cientista político, especialista, mestre, doutor e pós-doutorando em Ciências Jurídicas. É professor universitário em cursos de graduação e pós-graduação stricto sensu da Universidade Federal de Roraima (eloisenhoras@gmail.com).

Maria Sharlynay Marques Ramos é bacharelanda em Relações Internacionais e pesquisadora do Núcleo Amazônico de Pesquisa em Relações Internacionais (NAPRI) pela Universidade Federal de Roraima (sharlyany@msn.com).


[1] De acordo com Dalari (1998), o último período da história hegemônica romana é o do Baixo Império, conhecido como dominato, quando ocorreu a cristianização do Império, e também a decadência política e cultural. É neste momento que a a Igreja se institucionaliza Católica, (que significa universal), Apostólica (dos apóstolos e missionários), Romana (a igreja oficial de Roma). Por muitos séculos os papas abençoaram os novos monarcas e imperadores, e até hoje o poder da Igreja mantém-se autocrático, absolutista e divino.

[2] De natureza eclesiástica ou teocrático-monárquica, a cidade do Vaticano é considerada um Estado com soberania nacional, cuja origem imediata fora o Tratado de Latrão de 1929, embora na longa duração tenha sido o resultado subseqüente a uma história de Estados Pontifícios na região central da atual Itália entre 756 e 1870. Com reconhecimento internacional, o Vaticano trata-se do menor Estado-Nação no mundo, com uma área de apenas 0,44 km² que é governada pelo bispo de Roma, o Papa, e, administrada por funcionários públicos que são clérigos católicos de diferentes origens raciais, étnicas e nacionais (VATICANO , 2013)

1 Comentário em A personalidade do ano e as mudanças na Igreja Católica, por Elói Martins Senhoras & Maria Sharlynay Marques Ramos

  1. Análise muito interessante de cunho realista e provida do cientificismo necessário que motiva a querer saber muito mais o que se esconde por detrás dos muros do Vaticano.