Notas otimistas do Velho Continente, por Daniel Edler

Ao longo dos últimos anos nos acostumamos com notícias negativas nos jornais brasileiros sobre a União Europeia. Desde outubro de 2009 – quando o então primeiro ministro grego, Georges Papandreou, revelou as fraudes nas contas de seu país -, foram raras as vezes em que manchetes saudaram avanços na integração ou elogiaram resultados políticos vindos de Bruxelas.

Não que a conjuntura seja positiva, mas a imagem do bloco em crise econômica, política e social foi reforçada por notícias sobre a incapacidade de atuação da UE nos principais fóruns internacionais, deixando pouco espaço para narrativas contrárias. Vozes da grande mídia, mas também da academia, reproduziram o mantra da crise, sem olhar para as variadas dimensões políticas que compõe a UE e, principalmente, para os sinais de recuperação cada vez mais evidentes. Não foram raras as ocasiões em que Ana Paula Zacarias, chefe da Delegação da União Europeia no Brasil, participou de painéis de análise de conjuntura em que, cumprindo seu dever institucional, foi a única a destoar das notas pessimistas. Esta situação, graças a três fatos recentes, começa a mudar.

(1) Estejamos satisfeitos com o resultado eleitoral ou não, a grande-coalizão na Alemanha ao menos reduz incertezas sobre os caminhos econômicos que serão trilhados pelo bloco. A difícil costura entre CDU, partido da chanceler Merkel, e SPD, do derrotado Peer Steinbrück, produziu uma agenda de política interna que ainda deve gerar grandes disputas. Contudo, no âmbito europeu, caminha-se para a manutenção dos interlocutores, bem como das linhas de negociação. Os próximos capítulos do debate sobre a união bancária trarão mais evidências sobre a forma que o processo de decisão irá tomar daqui pra frente, mas certamente não haverá mudanças radicais. A redução na dosagem das medidas de austeridade tende a se manter no ritmo atual, e o Banco Central Europeu deve continuar desempenhando papel contundente. Não à toa, a revista Forbes posicionou Mario Draghi, presidente do BCE, como uma das 10 pessoas mais influentes do mundo, colocando-o à frente de François Hollande e David Cameron, mas atrás de Angela Merkel.

 (2) Os resultados positivos (ou não muito negativos) das economias espanhola e italiana, mas, principalmente, da Irlanda devem ser celebrados. No último dia 15, o primeiro ministro Edna Kenny fez um pronunciamento agradecendo o esforço do povo irlandês e anunciando o fim do programa de resgate iniciado pelo FMI e pelas instituições europeias três anos atrás. Falar de prosperidade é prematuro, mas haverá mais flexibilidade na política econômica do primeiro país a concluir tal programa. Se faltava uma história de sucesso para a defesa das medidas anti-crise adotadas pela UE, a Irlanda agora pode ocupar este lugar.

(3) Há ainda outros motivos para celebração, mas o recente protagonismo de Catherine Ashton (Alta Representante da UE para Política Externa e de Segurança) no acordo do P5+1 com o Irã é certamente o principal deles. Durante todo o período de negociações a imprensa retratou o debate como se fosse entre membros do Conselho de Segurança da ONU + Alemanha e o regime dos aiatolás. Parece que só descobriram o papel central desempenhado por Ashton quando esta apareceu no pronunciamento oficial. Ashton tomou a palavra e anunciou o compromisso por uma maior vigilância do programa nuclear iraniano e o afrouxamento das sanções internacionais. John Kerry foi rápido em apontar que o sucesso das negociações se deu, em grande medida, às intervenções da representante da UE.

Dos três pontos, o último é certamente o mais surpreendente e o que abre mais espaço para otimismo.

É certo que ainda há uma série de desafios a serem enfrentados. Os efeitos sociais da crise financeira ainda são imensos e demandam enorme atenção das lideranças políticas; pesquisas mostram que as eleições para o Parlamento Europeu, em 2014, cederão mais cadeiras para eurocéticos; David Cameron reacendeu a polêmica sobre controle interno de fronteiras e barreiras para imigração; Viktor Yanukovych, presidente ucraniano, relembrou à Bruxelas que não há nada de novo no front oriental, onde a Rússia ainda dá as cartas; e o massacre na Síria continua, comprovando que as sanções europeias contra o regime de Assad surtem pouco efeito.

Ainda assim, a UE sairá de 2013 melhor do que entrou e muito disso se deve à recém-descoberta virtude diplomática de Ashton. Apesar de seu importante papel no processo de reconciliação entre Kosovo e Sérvia, foi apenas após os acordos com o Irã que as capitais europeias perceberam o potencial de Ashton e da política externa comum da UE de alavancar os interesses nacionais.

Líderes políticos, jornalistas e analistas europeus, mesmo os franceses, elogiam a baronesa que até poucos meses era vista como uma negociadora inábil e figura apagada em Bruxelas. Escolhida justamente por seu pouco peso político – Tony Blair fora rejeitado para o cargo pois faria sombra à lideranças nacionais – Ashton mostrou que seu perfil pode servir para coordenar as demandas dos 28 Estados-membros.

Desde sua nomeação, Ashton recebera poucas manchetes. Sua viagem ao Brasil em 2012 foi praticamente ignorada pela imprensa. Poucos se importavam com suas visões sobre a Primavera Árabe, o crescimento da China e outros assuntos candentes. A irrelevância, no entanto, parece ter acabado. A embaixadora Ana Paula Zacarias não é mais uma voz destoante, pois há o que comemorar em 2013. A sensação em Bruxelas é de que o pior já passou.

Daniel Edler é mestre em Relações Internacionais pelo IRI/PUC-Rio e Konrad Adenauer Fellow em Estudos Europeus no Centro de Relações Internacionais da FGV. (daniel.edler@fgv.br)

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