“Evromaidany” versus “peresichni”: dois projetos econômicos em conflito na Ucrânia, por Bruno Mariotto Jubran

Observar a crise ucraniana com base como se fosse apenas um conflito interétnico (ucranianos versus russos) ou de valores (pró-ocidentais contra pró-russos), como tem sido de praxe nas notícias, é insuficiente para entender o problema. Nesta análise de conjuntura, focaremos nos aspectos domésticos desse problema, acerca do que realmente está em jogo no país, dois modelos distintos de desenvolvimento econômico. O primeiro, mais liberal, tem como meta a Ucrânia como membro ou periferia expandida da União Europeia (UE). O segundo, de teor mais conservador, pretende manter a matriz industrial ucraniana herdada da URSS, ainda que com problemas de competitividade, representado pela União Alfandegária (UA), da qual fazem parte a Rússia, além da Belarus e Cazaquistão.

Desde 21 de novembro de 2013, uma convulsão popular tomou as ruas de muitas das grandes cidades da Ucrânia, em resposta à decisão do governo de interromper as negociações sobre o Acordo de Associação com a UE. A visão geral transmitida pelos grandes meios de comunicação brasileiros, quase sempre reverberando algumas agências ocidentais é a de que os manifestantes, supostamente seriam a “voz das ruas”, demandam maior democracia, combate à corrupção e, evidentemente, a retomada das negociações com a União Europeia. A Rússia, por outro lado, teria feito ameaças ao governo ucraniano a cessar as negociações. Essa é, de fato, a visão que os europeus – e americanos – têm difundido sobre o problema da instabilidade política na Ucrânia, alvo de uma verdadeira guerra de informação, assim como em outras crises internacionais. O que chama a atenção, neste caso, não é apenas o conflito de versões sobre o tema mas também a publicação de fatos de forma distorcida ou equivocada ao público brasileiro, o que prejudica a compreensão sobre o evento.

Alguns dos principais meios de comunicação brasileiros, entre eles os portais Folha Online, valeram-se da mesma fonte, a BBC Brasil (BBC BRASIL, 2013), para explicar o problema em questão. Ao longo deste artigo, questionaremos (e, em alguns casos, corrigiremos) essa versão com base em informações fora desses meios, especialmente dados fornecidos por institutos de pesquisas ucranianos.

O que levou o governo ucraniano a suspender as negociações com a UE? A resposta é incerta, bem como os bastidores desse processo, mas isso não impede os grandes meios de comunicação, ocidentais (e mesmo russos) de especularem os motivos em suas manchetes. Um dos aspectos mais propalados no Ocidente é o de que o Presidente Viktor Yanukovich cedeu à pressão russa e interrompeu as negociações sobre o acordo com a União Europeia. No entanto, como relatam algumas agências russas, a recusa do Parlamento ucraniano em permitir a libertação da ex-Primeira-ministra Yulia Timoshenko para ser hospitalizada na Alemanha, uma condição imposta pela UE, foi um fator decisivo (ADVEENKO, 2013). Os europeus consideram o julgamento de Timoshenko politicamente enviesado, e implicitamente criticam a falta de democracia no país, o que humilha os dirigentes ucranianos. Além disso, os europeus recusaram qualquer compensação econômica à Ucrânia em caso de prejuízos colaterais ocasionados pelo acordo (EVROSOUYZ NE BUDET…, 2013).

Essa mudança, apesar de tomar de surpresa os negociadores da União Europeia, pode ser melhor entendida se observarmos a base de apoio do atual gestão de Viktor Yanúkovitch. A versão sustentada na BBC (e reverberada pelos meios de comunicação brasileiros) sugere que os eleitores de Yanukovitch nada mais são que a parcela que fala russo, habita o Leste do país, é ortodoxa e, logo, tem maior afinidade com a Rússia. Seus opositores estariam no Oeste, têm o ucraniano como língua materna e sentem-se mais “europeus”; neste caso, chega-se a cometer o equívoco de equiparar a Ucrânia à Polônia como nações “católicas”. Uma rápida pesquisa na Internet desmente esse fato, já que os dois maiores grupos religiosos na Ucrânia são ortodoxos (do Patriarcado de Kiev e do Patriarcado de Moscou), ou ateísta. A divisão social na Ucrânia vai bem além das questões étnico-culturais, ao se considerarem alguns fatos: russófonos, especialmente os habitantes de Kiev e das regiões do centro do país, também desejam a integração com a União Europeia.

Os eleitores de Yanukovitch consistem desde oligarcas, como Rinat Akhmatov, proprietário do clube de futebol Shakhtar Donetsk, mas também industriais (inclusive de bens duráveis, que a Ucrânia logrou manter desde o fim da URSS) até pessoas comuns, em ucraniano peresíchni, muitos dos quais são proprietários de pequenos negócios. O temor dos peresíchni, dos industriais e de oligarcas pró-Yanukovitch é a inundação de produtos importados da Europa com a assinatura do acordo, prejudicando a produção doméstica e, logo, o nível de emprego e renda no país. Para o colunista russo Mikhail Rostovskiy, a assinatura do acordo com a UE seria um verdadeiro “suicídio político” de Yanukovitch, que deverá enfrentar eleições em 2015, uma vez que ele estava correndo o risco de perder o apoio de sua base eleitoral (ROSTOVSKIY, 2013). Esse grupo diversificado, que detém a maior parcela no PIB ucraniano, mantém as ligações econômicas com a Rússia desde a era soviética, e se beneficia com os acordos comerciais em vigor no espaço pós-soviético. O acordo com a UE exigiria uma reorientação total da inserção econômica da Ucrânia, que seria obrigada a levantar tarifas contra seu principal parceiro econômico, a Rússia, e possivelmente sofrer uma deterioração de sua balança comercial. Não surpreende o fato de o Partido das Regiões, governista, estar aliado com o Partido Comunista, que defende mais claramente a integração com a Rússia.

O que pretendem os opositores de Yanukovitch? Os autointitulados evromaydany (uma alusão à inclinação pró-Europa e à  Maydan Nezaléjnosti, nome em ucraniano para a Praça da Independência,  importante palco de protestos no centro de Kiev) agregam não apenas a parcela ocidental de fala ucraniana, mas também os setores mais jovens das grandes cidades, incluso Kiev, do setor de serviços e também das chamadas indústrias criativas, os quais têm pouco a perder com a integração europeia, e esperam tornar-se uma “nação democrática” – aspecto integrante do acordo de associação com a EU. Entretanto, assim como a parcela pró-Yanukovitch, os evromaydany são um grupo extremamente diverso, com a participação significativa de facções de extrema direita, como o Svoboda (Liberdade).

Essa divisão na Ucrânia, cabe ressaltar, não é de forma alguma uma novidade. A tensão entre grupos industriais, bastante integrados com Moscou e outras regiões da Rússia, e o setor rural, de tendências nacionalistas, existe há décadas mesmo na era soviética, e manteve-se após a independência do país, com diferentes roupagens. A diferença mais marcante entre passado e presente é a interveniência de poderes estrangeiros, cuja ação tem intensificado o conflito.

Como está a opinião dos ucranianos a respeito de seus principais líderes políticos? De acordo com alguns levantamentos do Razumkov Centre, um importante instituto de pesquisas local, há uma forte rejeição às principais lideranças nacionais. As opiniões são ainda mais críticas em se tratando de políticos tradicionais, tanto os de oposição, como Viktor Yushchenko (82,3% de rejeição em 2013) e mesmo Yulia Timoshenko (58,4% de rejeição), tanto os governistas, como Yanukovitch (56,4% de rejeição, uma piora significativa desde o início de seu governo em 2010, que havia sido de “apenas” 30%) e o Primeiro-ministro Mykola Azarov (59,2%, também com avaliação em queda desde 2010). Alguns novos políticos de oposição ainda mantêm uma taxa de rejeição baixa para os padrões ucranianos, como o caso do ex-lutador Vitaly Klychtko (38%), considerado um forte candidato nas próximas eleições contra Yanukovitch.

Que Ucrânia querem os ucranianos? De acordo com o mesmo instituto, as opiniões estão divididas entre a Rússia e a União Europeia. Entretanto, se visualizarmos as posições desde 2002, nota-se gradual redução na preferência pela União Europeia, que à época era preterida por 65% da população (e rechaçada por apenas 15%). Aqui observamos diferenças entre as regiões, em que a parcela Ocidental (70,1%) e, em menor escala, a Central (50,6%), preferem a integração com a UE, ao passo que as regiões Leste (60%) e Sul (47%) preferem a União Alfandegária Belarus-Rússia-Casaquistão; no computo geral há um empate técnico entre o projeto da UE (38,3%) e da União Alfandegária (36%). No entanto, um fato de grande interesse é o de que, para os ucranianos, as relações com a Rússia são consideradas vitais para a Ucrânia, inclusive nas “críticas” regiões ocidentais, onde a soma dos que querem manter o nível de cooperação (25,9%) ou mesmo aprofundar as relações (22,6%) chega a quase da metade dos entrevistados.

Qual será o futuro político da Ucrânia? Esse é a principal arena de especulações, na qual se visualiza desde a redução gradual do ímpeto das manifestações, sem grandes mudanças na política ucraniana, ou ainda a execução de golpe por parte da oposição (como alega o Primeiro-ministro), ou mesmo as previsões mais alarmistas que apontam para uma guerra civil.

Com os dados até aqui mostrados, observa-se uma divisão clara no país, que representa dois “projetos de Ucrânia”: uma que pretende se integrar à União Europeia, mas sem negar completamente os laços econômicos com a Rússia; e outro que busca consolidar as relações com a Rússia por meio da UA, e a partir daí desenvolver parcerias com a UE. Yanukovitch, político considerado bastante hábil, vem realizando uma política pendular entre essas opções, buscando explorar o máximo de vantagens encontradas em cada um desses projetos e de aumentar seu poder de barganha. A ação das potências externas, cada vez mais impacientes, deverá dificultar e restringir a margem de manobra para os ucranianos, e é provável que as duas opções estratégicas acima descritas se tornem cada vez mais excludentes entre si.

Referências Bibliográficas:

BBC Brasil. Entenda a onda de protestos na Ucrânia, 03/12/2013. [http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/12/131127_ucrania_qea_lk.shtml] (acessado em 05/12/2013).

ADVEENKO, Viktor. Partiya Regionov obvinila oppozitiyu v podgotovke perevorota na Ukraine [Partido das Regiões acusou a oposição de planejar um golpe na Ucrânia]. RIA Novosti, 04/12/2013. [http://ria.ru/world/20131204/981719806.html] (acessado em 05/12/2013).

EVROSOUYZ NE BUDET menyat’ tekst soglasheniya s Ukrainoy [União Europeia não irá modificar o texto do acordo com a Ucrânia] RIA Novosti, 03/12/2013 [http://ria.ru/world/20131203/981711595.html]  (acessado em 05/12/2013)

ROSTOVSKIY, Mikhail. Ogrableniye Evropoy, ili pochemu Kiev razvernulsya k Moskve. [Roubo pela Europa, ou por que Kiev se voltou a Moscou] Ria Novosti, 27/11/2013. [http://ria.ru/columns/20131127/980143841.html] (acessado em 05/12/2013)

RAZUMKOV CENTRE a. Public Opinion Polls. Disponível em: [http://razumkov.org.ua/eng/socpolls.php]

Bruno Mariotto Jubran é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo – USP (mariotto.bruno@gmail.com).

1 Comentário em “Evromaidany” versus “peresichni”: dois projetos econômicos em conflito na Ucrânia, por Bruno Mariotto Jubran

  1. Excelente post! Eu realmente estava acompanhando o desenrolar desta questão ucraniana pela BBC Brasil, e muitas informações estavam incorretas. Não existiria uma maneira de harmonizar os dois lados da moeda, ligando-se tanto à Rússia quanto à UE?