Até que ponto o standard global de civilização ajuda a explicar o posicionamento internacional das monarquias do Golfo após a Primavera Árabe? , por Clarice Frazão

Os movimentos percebidos no Oriente Médio e Norte da África desde o início de 2011 receberam a amplamente adotada denominação de Primavera Árabe. São movimentos sociais que se iniciaram na Tunísia e no Egito e estenderam-se por toda a região. Dentre a maioria dos analistas não foi possível prever a formação dos levantes (CARVALHO PINTO, 2011, p. 14), no entanto, importante faz-se ressaltar que a possibilidade do desenrolar desse cenário atual de revoltas foi aventado por aqueles estudiosos e pesquisadores que trabalham no nível de análise do indivíduo. Essa constatação faz-se necessária no sentido de descartar teorias conspiratórias levantadas pelos mesmos regimes desafiados de que essas rebeliões seriam fruto de manipulações externas em curso nos países; afirmação essa que não se mantém uma vez que, ao se analisar fatores externos e internos que embasam os movimentos, despontam com maior destaque anseios sociais de populações jovens por melhoria de condições de vida frente aos seus Estados. Segundo Carvalho Pinto (2011, p.2) a principal questão que se coloca como elemento de novidade não é o por quê desses movimentos terem ocorrido, mas o por quê eles foram bem-sucedidos em certos países mas não dentre as denominadas monarquias do Golfo. É interessante questionar até que ponto o conceito de standard global de civilização pode ajudar a explicar o posicionamento internacional das monarquias do Golfo após a Primavera Árabe, em especial, no caso dos Emirados Árabes Unidos.

Os movimentos sociais referidos foram fomentados por fatores externos e internos. A população que foi às ruas é composta, em sua maioria, por jovens que buscam melhorias de condições de vida, especialmente maiores oportunidade de emprego e condições econômicas, uma vez que isso pode, inclusive, a vir a se tornar, em países como o Egito, um empecilho para que o jovem possa estar apto a se casar. Esses fatores internos foram acompanhados de fatores externos em nível estatal, uma vez que a falta de apoio e pressão sofridas por Hosni Mubarak por parte dos Estados Unidos foram elementos de peso para sua queda (CARVALHO PINTO, 2011, p.4). Um elemento significante dos movimentos foi o amplo papel desempenhado pelas mídias sociais, como facebook e twitter. As revoltas foram em larga medida possibilitadas pela utilização dessas mídias como canal de articulação de movimentos e organização social para fazer frente a regimes opressores e autoritários, mostrando o poder que o fenômeno da globalização passou a exercer como forma de expressão de povos oprimidos ou em busca de maior representatividade. Esses instrumentos são emblemáticos do atual cenário do sistema internacional marcado pela globalização (MOZZAFARI, 2001, p.259), de modo que é imperioso ressaltar que “as reivindicações apresentadas pela Primavera Árabe são de caráter doméstico, mas não podem ser dissociadas do contexto internacional mais amplo em que se inserem, e que lhes conferem tamanha peculiaridade dentro dos estudos de relações internacionais” (AYOOB, 2012, p. 95).

A globalização pode ser entendida como um novo estágio do standard global de civilização. O conjunto de valores, preceitos e normas difundidos hoje ultrapassa o âmbito europeu, centro de difusão do standard europeu de valores, apesar de ainda haver grande convergência entre essas visões de mundo. Segundo Mozzafari (2001, p. 251), o standard global de civilização refere-se a um conjunto de leis, normas, valores e costumes que estabelece oportunidades e constrangimentos para os atores internacionais. No século XIX esse padrão de conduta refletia padrões europeus e era referente somente à atuação desses atores no nível estatal. A partir do standard da globalização valores de interesse comum ao sistema global são aplicados no referente a ações de Estados vis-à-vis seus cidadãos. A relevância desse novo nível de análise relativo à relação entre Estado e indivíduo pode ser percebido na desaprovação por parte da opinião pública internacional de atos de atrocidade perpetrados pelo regime de Bashar Al-Assad, na Síria, face a seus cidadãos quando do uso de armas químicas para manutenção da ordem e repressão de grupos de oposição ao governo que visam à retirada de Assad do poder. Passa-se a exigir-se do Estado conduta civilizada em âmbito internacional e com relação aos indivíduos.

 O standard de civilização clássico é permeado por valores cristãos, coloniais e eurocêntricos, que não desaparecem por completo. No entanto, à medida que o Ocidente de ganha confiança, há maior proliferação e reconhecimento mundial de um conjunto de valores composto pelo reconhecimento de conceitos como liberdade, tolerância e direitos humanos, justiça e prosperidade (MOZZAFARI, 2001, p. 252) em todos os âmbitos da atuação estatal no cenário internacional e face ao indivíduo. Atualmente, percebe-se uma tendência global à convergência em torno de certos valores fundamentais. Esses traços da globalização possuem relevância no processo de construção de identidade nacional dos países ora tratados. Frente aos movimentos da Primavera Árabe, as monarquias obtiveram êxito em manterem-se no poder. Contudo, há a percepção corretamente aventada de que apesar de possuírem recursos de poder de uso de força e repressão, faz-se necessário recorrer-se a outros recursos de legitimidade, não só internamente, mas, também em âmbito internacional, criando uma imagem positiva no sistema global.

As monarquias do Golfo, Arábia Saudita, Bahréin, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Omán são regimes emblemáticos pelo poder de resiliência dessas monarquias frente aos movimentos da Primavera Árabe. Esses países formam um sistema de segurança denominado Conselho de Cooperação do Golfo e são marcados por economias robustas provenientes dos lucros do mercado petrolífero. Os regimes autoritários, como ressalta Carvalho Pinto (2011, p.3), são muito resistentes às pressões populares, pois podem lançar mão de instrumentos como uso da força e de uso de soft power como a concessão de benefícios financeiros ou, ainda, a promessa de maior abertura política, promessa que pode vir a ser esvaziada por utilização de meios fraudulentos em eleições não transparentes (HOLGER, SCHLUMBERGER, 2004, p.372). As monarquias do Golfo sustentaram-se por possuir legitimidade de governantes, compostos por alianças de famílias que se mantêm no poder mais cerca de mais de 200 anos e, ademais, pelo contrato social entre governo e sociedade, resultando na concessão de empregos e moradias, e adoção de reformas econômicas e educacionais (INGO, RUTLEDGE, ALNUAIMI, 2012, p. 54)

Dentre os países ora analisados, destaca-se o caso dos EAU. Os EAU responderam à Primavera Árabe satisfatoriamente (INGO, RUTLEDGE, ALNUAIMI, 2012, p. 64) com a concessão de reformas internas e melhoria de sua imagem em âmbito nacional. O país vem trabalhando no sentido de recuperar tradições, como no reforço da “corrida do camelo” (KHALAFI, 2013, p.243) e, ao mesmo tempo, no fomento de reformas sistêmicas, investimentos vultuosos em pesquisa e ciência para inovação, e construção de regiões culturais e educacionais com filiais dos museus do Louvre e do Guggenheim e, inclusive institutos educacionais americanos. Essa leitura adequada pode ser percebida por uma pesquisa feita, em 2012, pela Pen Schoen Berland entre jovens de 18 a 24 anos no Oriente Médio. O país apontado como o modelo a ser copiado foi o EAU, na frente, inclusive de França e Estados Unidos, e Dubai e Abu Dhabi foram apontadas como as melhores cidades para se viver e trabalhar (INGO, RUTLEDGE, ALNUAIMI, 2012, p. 62).

O posicionamento internacional das monarquias do Golfo após a primavera árabe é também melhor analisado do caso do EAU. Desde sua independência o EAU busca constituir uma imagem atrelada a valores de uma nação civilizada. [1] Nos últimos 40 anos essa posição evoluiu para uma posição de maior confiança e auto-imagem de uma país que quer ser visto como role-model (CARVALHO PINTO, 2012, p. 3) dentro de um processo de formação de identidade que perpassa, dentre outros momentos, aquele conhecido como “Momento do Golfo”, de grande atividade econômica e proeminência da região. Hoje, esse país passa a atrelar sua imagem àquela de um role-model para a região e demostra-se em consonância com a melhoria de sua imagem internacional, na adaptação do atual standard global de civilização, qual seja, da globalização. Dentre as monarquias o Golfo, os Emirados Árabes Unidos destacam-se como o país que se mostra mais apto não só a perceber as características desse sistema global de valores universais, mas como de se adaptar a ele. A construção de uma imagem internacional da construção do seu Estado-nação é compatível com os preceitos ocidentais disseminados pelo standard global de civilização. Essa busca de construção de uma imagem internacional positiva é amplamente perseguida pela política externa do país. Esse processo busca estabelecer credenciais internacionais junto ao Ocidente de um país, e uma região em consonância com os preceitos universais e que se encontram num momento posterior e mais avançado ao momento inicial de busca de credenciais de nação civilizada.

 Referências Bibliográficas

[1] O Brasil também adota ainda hoje discurso que ressalta sua posição de nação civilizada, como pode ser percebido em discursos da presidente Dilma Roussef. “Repito que para mim é uma honra estar na 18ª sessão conjunta sobre uma questão tão relevante para a construção de um Brasil civilizado e desenvolvido.” Disponível em: http://www2.planalto.gov.br/imprensa/discursos/discurso-da-presidenta-da-republica-dilma-rousseff-na-sessao-solene-do-congresso-nacional-para-entrega-do-relatorio-final-da-cpmi-da-violencia-contra-a-mulher. Acesso em 10 nov. 2013.

 AYOOB, Mohammed  (2012). ‘The  Arab  Spring:  its  geostrategic   significance’. Middle  East  Policy,  vol.  xix (3), pp. 84-97.

 CARVALHO PINTO, Vânia (2011). ‘La ola de movimientos pro democracia en Medio Oriente: Análisis preliminar de las consecuencias políticas para la región del Golfo Pérsico’. In: Elisenda Ballesté; Manuel Férez. (Org.). Medio Oriente y Norte de Africa: Reforma, Revolución o continuidad? Ciudad de Mexico: Senado de la Republica Mexicana.

___________(2012b). ‘From follower to role model: studying the variations to the UAE’s self-image.’ Paper presented at the International Workshop: Rethinking the Republic-Monarchy Gap. University of Marburg, 20-21 Sept. 2012 (Unpublished).

 FORSTENLECHNER, Ingo/RUTLEDGE, EMILIE/Alnuaimi, RASHED, Salem (2012). ‘The UAE, the “Arab Spring” and different types of dissent’. Middle East Policy, vol. xix (4), pp. 54-67.

 HOLGER, Albrecht/SCHLEMBERGER, Oliver (2004). ‘”Waiting for Godot”: Regime Change without Democratization in the Middle East’. International Political Science Review/ Revue internationale de science politique, 25 (4), pp. 371-392

MOZZAFARI, Mehdi. (2001). “The transformationalist perspective and the rise of a global standard of civilization.”. International Relations of the Asia-Pacific, vol. 1, pp. 247-264.

KHALAFI, Suleyman (2001). ‘Poetics and Politics of newly invented traditions in the Gulf: Camel racing in the UAE’. Ethnology, vol. 39, No. 3, Summer, pp. 243-261.

 Clarice Frazão é aluna do Curso de Especialização em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (frazao.clarice@gmail.com).

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