Três anos de Primavera Árabe: agendas e cenários, por Aline de Oliveira Alencar

Em seu artigo Upgrading Post-democratization studies, Valbjorn (2012, p. 23-29) propõe uma nova linha de estudos para a política do Oriente Médio após a Primavera Árabe, distinta das que foram desenvolvidas até então. Para o autor, é preciso resistir à tendência de resgatar os estudos centrados na possibilidade de democratização, que caracterizaram a década de 1990 –os chamados “democrazy”, centrados na pergunta “por que não há democratização?”. Mas as revoltas evidenciaram, também, a necessidade de rever os chamados estudos “pós-democratização” que a estes se contrapuseram, com foco na persistência dos regimes autoritários – centrados na pergunta “por que as autocracias resistem?”.

Essa última é a linha assumida por Albrecht e Schulumberger (2004), em seu célebre artigo Waiting for Godot”: Regime Change without Democratization in the Middle East. Nele, os autores encontram as razões para a manutenção dos regimes autocráticos na oscilação entre liberalização controlada e “desliberalização” e emmudanças adaptativas feitas nas seguintes esferas: estratégias de legitimação, cooptação das elites, instituições e reações a influências externas. Conforme o Egito demonstrou, esses argumentos estavam corretos, pois a mudança da liderança representou muito mais uma mudança adaptativa do que uma revolução no sistema político. A deposição de Mursi pelo Exército em atendimento à demanda popular ilustra, também, que o papel do exército continua fundamental para assegurar a continuidade de facto dos regimes no Oriente Médio. Isso comprova o argumento de Valbjorn de que os estudos pós-democratização não ficaram totalmente obsoletos e que se deve resgatar, especificamente, os estudos centrados no papel da instituição militar (2012, p. 33).

Entretanto, o erro dos estudos pós-democratização para Valbjornfoi basearem-se na premissa da estabilidade dos regimes, o que fez que não conseguissem prever a Primavera Árabe. Agora, em um cenário que chamou de “re-politização” da região após os levantes, em que háa coexistência entre atores e canais políticos novos, antigos e transformados, o autor propõe que os estudos sejam reformulados, com foco nas continuidades que perpassam as mudanças (VALBJORN, 2012, p. 30-32). Ele defende, também, que outras dimensões além do regime sejam enfocadas, tanto domésticas, como os desafios à mobilização em massa em sociedades com instituições políticas pouco desenvolvidas (ibid, p. 34), quanto externas, como o contexto regional (ibid. 33).

Com relação ao contexto regional, já é possível visualizar algumas mudanças. Primeiramente, Ayoob aponta para o enfraquecimento das nações árabes, com a possível exceção da Arábia Saudita (AYOOB, 2002, p. 6). Isso ocorrerá, segundo o autor, porque cada país priorizará seus assuntos internos, cenário que Chubin também delineia (CHUBIN, 2012, p. 6): o Egito enfrenta, até agora, instabilidade pela disputa interna de poder; o Iraque, tradicionalmente uma importante nação árabe na região, perdeu essa posição desde a invasão americana e deve continuar assim após a Primavera Árabe; e a Síria, mesmo com uma solução de compromisso para o fim da guerra civil, não deve se projetar na região até que a situação interna fique completamente estabilizada.

Os atores árabes com influência externa na região restringir-se-ão, portanto, aos países do Golfo, especialmente a Arábia Saudita – por causa de sua enorme riqueza petrolífera e porque forças internas e externas demandam uma maior projeção para frear o crescimento da influência iraniana na região– e o Qatar– que não somente emergiu como importante ator no apoio às revoltas anti-regime na Síria e na Líbia, como também desempenhou o papel de interlocutor indispensável entre o Ocidente e o mundo árabe (CHUBIN, 2012, p. 6; COLOMBO, 2012, p. 7). Essas tendências tenderão a reforçar o chamado “momento do Golfo” pelo qual passa a região (ABDULLA, 2010).

AYOOB (2012, p. 7) considera provável a emergência de Turquia e Irã, nações não árabes, como os novos pivores da região. Para o autor, isso correrá por causa da incapacidade dos países árabes projetarem influência e por causa da diminuição da presença americana. Conta a favor da Turquia, ainda, que o país emergiu como possível modelo de democracia islâmica a emular, e a favor do Irã, a queda dos ditadores pró-EUA no Egito e na Tunísia(ibid, p. 8).

Chubin não é tão otimista quanto Ayoob quanto ao futuro da influência regionaliraniana, especialmente por causa da guerra civil na Síria. A aliança Irã-Síria-Hezbollah era essencial para o país em sua oposição a Israel, e a Síria funcionava como espécie de estado-tampão entre o Irã e as monarquias do Golfo (AYOOB, 2012, p. 9; CHUBIN, 2012, p. 36). Com a queda de Assad, é provável que a oposição sunita assuma o poder, constituindo um regime hostil ao Irã em um país que, tradicionalmente, era um aliado estratégico para sua influência na região do Levante.

Com relação à Turquia, Chubin concorda com Ayoob que o país se projetará mais na região após a Primavera Árabe, especialmente porque representa uma antíntese ao Irã: os países têm diferentes modelos de democracia islâmica e assumiram lados opostos nas eleições no Iraque e no conflito sírio (CHUBIN, 2012, p. 42). Ambos concordam que a Primavera Árabe fez exacerbar uma rivalidade potencial entre os dois países, que não ficava evidenciada em seu relacionamento normalmente cordial, motivado pelo crescimento do comércio bilateral e por interesses comuns na questão curda (CHUBIN, 2012, p. 41; AYOOB, 2012, p. 8). A ambição do Irã de se tornar uma liderança regional é uma ameaça não somente para os estados árabes, como Egito e Arábia Saudita, mas também para a Turquia, o que é problemático considerando-se que o Irã deseja ter boas relações com Ankara (CHUBIN, 2012, p. 9).

Cabe, ainda, na caracterização da geopolítica de região, fazer algumas considerações sobre Israel. No momento, é possível estimar que a Primavera Árabe teve impactos dúbios sobre o país. Por um lado, a capacidade de Israel influenciar a política do Oriente Médio deve diminuir, por causa da queda de regimes autoritários pró-Ocidente e pela ascensão de regimes democráticos, mais sensíveis a uma opinião pública que é hostil à presença do estado judeu (AYOOB, 2012, p. 7). A saída dos Estados Unidos do Iraque e do Afeganistão deve reforçar essa tendência. Por outro lado, a queda de Assad e a diminuição da influência regional do Irã são uma vitória geopolítica para Israel, provável de ser anulada apenas pela possível ascensão de um regime islamista sunita ao poder na Síria, que também será hostil a Israel. O futuro das pacíficasColinas de Golã, que no passado já foram palco de acirradas disputas entre israelitas e palestinos, dependerá inteiramente do tipo de regime que emergirá na Síria.

Bibliografia:

ABDULLA, Abdulkhaleq (2010). “Contemporary socio-political issues of the Arab Gulf moment”. The LSE Kuwait Programme on Development, Governance and Globalisation in the Gulf States, n. 11, pp. 1-36.

ALBRECHT, Holger/ Oliver SCHLUMBERGER (2004). ‘”Waiting for Godot”: Regime Change without Democratization in the Middle East’. International Political Science Review/ Revue internationale de science politique, Vol. 25, No. 4, pp. 371-392.

AYOOB, Mohammed (2012). “The  Arab  Spring:  its  geostrategic   significance”. Middle  East  Policy,  vol.  xix (3), pp. 84-97.

CHUBIN, Shahram (2012). “Iran and the Arab Spring: Ascendancy Frustrated.”GRC GULF PAPERS. Geneva, Jeddah, Tokyo: GRC.

COLOMBO, Silvia (2012). “The GCC Countries and the Arab Spring: Between Outreach, Patronage and Repression”.IAI WORKING PAPERS 1209. Rome: IAIS.

VALBJØRN, Morten (2012). “Upgrading Post-democratization Studies: Examining a Re-politicized Arab World in a Transition to Somewhere”. Middle East Critique. Vol. 21(1), pp. 25–35.

 

Aline de Oliveira Alencar é mestranda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (aline.alencar85@gmail.com)

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