Resenha de “The Globalization Paradox”, de Dani Rodrik, por Gustavo Resende Mendonça

Por mais de quinze anos, a agenda de pesquisa de Dani Rodrik, economista turco que leciona em Princeton, tem sido devotada ao estudo dos efeitos deletérios da globalização. Em 1997, o autor publicou Has Globalization Gone Too Far?, obra aclamada por divergir da ortodoxia do pensamento econômico contemporâneo e criticar abertamente o livre-comércio e a globalização financeira. The Globalization Paradox, livro mais recente do autor, apresenta-se como uma continuação natural de seu trabalho. O objetivo da obra é demonstrar que a globalização não pode avançar no contexto da democracia e da soberania nacional, fato que leva o autor a demandar uma nova forma de capitalismo, calcado na valorização do estado nacional e da democracia.

Os capítulos iniciais de The Globalization Paradox são focados na primeira era da globalização, ocorrida durante o século XIX, e no papel que o Estado desempenhou nessa fase inicial do capitalismo. O Estado foi fundamental para o crescimento exponencial do comércio internacional após a primeira revolução industrial. Os governos asseguraram a liberdade de navegação dos mares, forneceram garantias para empresas de frete e sustentaram a liquidez internacional por meio do padrão ouro. Rodrik avalia que o fim da primeira era da globalização foi ocasionado justamente pela falta de atuação governamental. Após a Primeira Guerra Mundial, a manutenção do padrão ouro passou a impor sérios prejuízos à população doméstica das nações capitalistas. Os governos não forneceram compensações adequadas para os prejudicados pela inflação e pelo desemprego derivados das demandas da globalização. Como consequência das revindicações populares, as nações escolheram  o protecionismo e a autarquia.

Posteriormente, Rodrik refuta a noção simplista de que o livre-comércio sempre é benéfico. A sabedoria econômica ortodoxa enuncia que, ainda que a abertura comercial gere concentração de renda, o livre-comércio é sempre preferível ao protecionismo, uma vez que os ganhos do comércio beneficiam a sociedade como um todo. Rodrik, no entanto, avalia que frequentemente os custos sociais do comércio internacional são proibitivos. Em situações de abertura comercial elevada, esforços adicionais de liberalização geram um efeito de concentração de renda preocupante. Os efeitos negativos do livre-comércio são plenamente demonstrados pela Ciência Econômica, avalia Rodrik. A maioria dos economistas, no entanto, evitar detratar o livre-comércio por paroquialismo ou interesse profissional.

Ao continuar sua análise da história do capitalismo, Rodrik avalia que o sucesso de Bretton Woods, que ensejou os vinte anos mais dinâmicos da economia mundial, foi baseado em um arranjo institucional liberal flexível. As instituições criadas em 1944 e o GATT favoreciam o livre-comércio e a globalização, mas dispunham de diversos mecanismos de derrogação que permitiam aos países-membros ignorar as regras internacionais para perseguir seus objetivos domésticos. Por outro lado, a Organização Mundial do Comércio (OMC), sucessora do GATT, e o FMI, após a década de 1980, passaram a restringir muito mais a atuação de seus membros, especialmente no que se refere a políticas industriais. Como resultado, a cooperação internacional diminuiu, uma vez que as nações receiam limitar ainda mais seu espaço de ação.

As motivações que levaram diversos países em desenvolvimento a cortejar a hiperglobalização também são auferidas por Rodrik. Na década de 1950, a teoria econômica reconhecia que o estado desempenhava um papel vital no desenvolvimento. Trinta anos depois, no entanto, uma narrativa mais simplista acerca do papel estatal na economia passou a dominar o pensamento econômico. Os governos passaram de indutores a algozes do desenvolvimento, enquanto o livre-comércio, a abertura financeira e a austeridade fiscal tornaram-se requisitos vitais para qualquer nação sequiosa de crescimento. Segundo Rodrik, o neoliberalismo tornou-se tão atraente para os economistas porque eles realizaram uma leitura errada do crescimento notável dos tigres asiáticos (especialmente Coreia do Sul, Taiwan e Cingapura). Diversos estudos enfatizaram o papel das indústrias exportadoras e do investimento externo na experiência de desenvolvimento dessas nações, mas subestimaram a relevância das políticas industriais assertivas e da poupança interna. Como resultado da mudança de paradigma na Economia, muita nações em desenvolvimento adotaram o neoliberalismo de forma pouco criteriosa.

Os capítulos finais de The Globalization Paradox são dedicados a avaliar o antagonismo entre a hiperglobalização e a democracia. Rodrik avalia que a integração profunda com a economia internacional gera, necessariamente, graves conflitos políticos insustentáveis em um sistema democrático. No contexto da hiperglobalização, padrões sanitários, direitos trabalhistas e leis tributárias devem ser reduzidos a um mínimo denominador mundial para estimular o livre fluxo de bens e serviços. No entanto, a homogenização derivada da integração econômica profunda gera consequências disruptivas para diversos grupos políticos, desde industriais pouco eficientes até trabalhadores desempregados pela competição estrangeira. A tensão entre hiperglobalização e democracia pode ser resolvida de três formas: pela supressão da democracia, pela restrição da globalização ou pela mundialização da democracia. Rodrik entende que a segunda opção é a mais indicada.

Após mapear os dilemas da globalização e do capitalismo global, Rodrik propõe sete princípios que devem, em sua opinião, orientar a construção de uma vertente mais benigna da globalização. Em primeiro lugar, o autor avalia que os mercados devem ser imbuídos de sistemas de governança. A análise histórica demonstra que mercados auto-regulados geram malefícios sociais que não podem ser ignorados. Em segundo lugar, o Estado nacional  é a principal organização política do mundo, de forma que expectativas acerca da obsolência do nacionalismo devem ser amainadas. O terceiro princípio expressa que não existe um único caminho para a prosperidade. Em quarto lugar, as nações têm o direito de resguardar seus arranjos sociais, instituições e regulamentos. Em consonância com o princípio anterior, o quinto preceito preconiza que nenhuma nação tem o direito de questionar as instituições de outros países. Em sexto lugar, as instituições internacionais devem administrar as diferenças entre as nações, não promover a homogenização internacional. Finalmente, nações autárquicas podem ser discriminadas comercialmente, com o objetivo de combater o trabalho escravo e infantil.

O capítulo final de The Globalization Paradox se dedica a aplicar de forma prática os sete princípios elaborados anteriormente. Do ponto de vista do regime multilateral de comércio, Rodrik argumenta que, mais importante do que aumentar a liberalização do comércio internacional, o objetivo da cooperação deve ser tornar a atual liberdade comercial sustentável. No âmbito do sistema financeiro, regras mais firmes devem ser negociadas, especialmente no nível nacional. Rodrik também avalia que a migração internacional deveria ser mais incentivada, uma vez que beneficia os países emissores e as nações receptoras. Finalmente, Rodrik argumenta que a China deve ser integrada ao sistema econômico internacional de forma harmônica. O Ocidente não deve tentar mudar as instituições chinesas, ainda que o comércio internacional chinês mereça mais escrutínio do que as trocas comerciais de nações democráticas, uma vez que a China ainda desrespeita amplamente os direitos humanos.

The Globalization Paradox é uma leitura oportuna e provocante, ainda que alguns dos argumentos desenvolvidos por Rodrik não sejam plenamente desenvolvidos ou explicados. Um título igualmente apropriado para a obra seria “Os Paradoxos da Globalização”, uma vez que Rodrik aborda diversos aspectos contraditórios da expansão global do capitalismo. A globalização advoga o enfraquecimento do Estado, mas não pode avançar sem ele. A globalização ampliou o escopo das relações internacionais, mas recrudesceu as identidades nacionais. A internacionalização econômica pode ser a ruína de uma nação, mas também é uma ferramenta indispensável para o  desenvolvimento. Rodrik explora habilmente a natureza multifacetada da globalização e é bem-sucedido na tarefa de construir uma narrativa alternativa para a história do capitalismo global. A obra de Rodrik, no entanto, é passível de críticas. Em algumas ocasiões, o autor faz afirmações taxativas sem, no entanto, demonstrar o método que resultou em suas conclusões. Outro problema da obra é advogar medidas que são de difícil aplicação ou que podem gerar novos problemas. Tais falhas, no entanto, não comprometem a utilidade do livro, que capta com competência a crescente valorização do papel do Estado na economia, virtude que deve ser reconhecida mesmo por aqueles que discordam das premissas de Rodrik.

Referência Bibliográfica

RODRIK, Dani. The Globalization Paradox: Democracy and The Future of World Economy. Nova York: Norton, 2012. ISBN 978-0-393-34128-7 pbk.

Gustavo Resende Mendonça é mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (gustavo.mendonca@itamaraty.gov.br)

Seja o primeiro a comentar