A China e a questão energética, por Paulo Duarte

Desde 2002, a China tem sido fustigada por frequentes interrupções no fornecimento de eletricidade, extremamente prejudiciais para a economia do país (Khan, 2008; Boyd, 2012). Daí que as falhas na rede elétrica chinesa tenham suscitado temores acerca de uma ‘insegurança elétricadoméstica’ (Zha Daojiong, 2006). Na verdade, “a cada verão da última década, as províncias mais industrializadas da China foram alvo de interrupções no abastecimento de eletricidade” (Robert, 2011: para. 1). Milhares de fábricas e empresas, situadas em áreas economicamente desenvolvidas, são obrigadas a suspender a sua atividade nas horas de maior produção (Asia Pacific News, 2011). A título de exemplo, na província do Zhejiang – a economia regional que mais rápido cresce na China – mais de metade das empresas privadas ficaram sem eletricidade no primeiro semestre de 2004 (ano em que o país sofreu “os piores cortes elétricos desde o início da década de 90”), cerca de 11 dias por mês, em média (Xinhua, 2011: para. 7). Mais recentemente, como informa Todd Edwards, “nos primeiros quatro meses de 2011, 24 províncias chinesas foram alvo de ‘apagões’”, o que resultou num prejuízo económico de aproximadamente “10.6biliões de yuans” (2012: 22).

Ligado à interrupção no aprovisionamento de eletricidade na China, importa referir a excessiva dependência da indústria chinesa face ao carvão, a partir do qual é produzida cerca de 79% da eletricidade do país(Bloomberg News, 2012). Segundo Kevin Jianjun Tu e Sabine Johnson-Reiser, “a China é rica em carvão, o qual representa aproximadamente 95% dos combustíveis fósseis existentes no país” (Policy Outlook, 2012: 2). Todd Edwards refere que “60% das reservas de carvão, inclusive, o de maior qualidade – isto é, com menos enxofre e cinza – estão localizadas no norte do país” (as principais áreas de extração de carvão são “a província de Shanxi, a Região Autónoma da Mongólia Interior, e Shaanxi”) (2012: 6). De acordo com o Ministério da Terra e dos Recursos Naturais chinês (2013), as reservas comprovadas de carvão – 170 biliões de toneladas – existentes no país, correspondem a 19% do total mundial, sendo as segundas maiores do mundo, a seguir às dos Estados Unidos. Voltando a Jianjun Tu e Johnson-Reiser, estes especialistas indicam que “desde que a economia chinesa se abriu ao mundo, em 1978, o consumo de carvão tem crescido, de forma contínua, em resultado da produção de eletricidade e da utilização industrial” (Policy Outlook, 2012: 2). O 12.º Plano Quinquenal (2011-15) demonstra o papel fundamental que o carvão desempenha no futuro energético, económico e ambiental da China do século XXI. Embora o país possua vastas reservas de carvão, Craig Welsh considera que “o perigo das minas de carvão, bem como a sobreutilização da infraestrutura ferroviária” explicam que seja mais fácil para a China importar carvão, do que explorar as suas próprias reservas domésticas” (Seattle Times, 2011: para. 43).

No entendimento de Edward Chow (2011), o carvão continuará a ser, no caso do Império do Meio, “a principal fonte energética durante as próximas duas décadas”, uma vez que a intensidade da sua utilização, torna bastante complexa a sua substituição”. Por outro lado, Pedro Fonseca (2011) explica que as crescentes necessidades energéticas de uma China em rápida expansão económica “não podem ser supridas nem pelo gás natural, nem pelo petróleo”. Este especialista compara a capacidade de produção de eletricidade, a partir do carvão, na China, à capacidade de produção de eletricidade do Reino Unido, e admite, à semelhança de Edward Chow, que a tendência para a China utilizar carvão, nos próximos anos, deverá manter-se (Fonseca, 2011). Atualmente, o país possui “13 centrais nucleares em operação, outras 30 em construção, e mais 90 em planeamento” (European Council on Foreign Relations, 2013: para. 11). Embora o programa 2005-2020 para o desenvolvimento da energia nuclear, lançado pela National Development and Reform Commission, em 2007, tenha “traçado uma meta para a capacidade de produção do país de 40 milhões de GW até 2020”, o Congresso Nacional Popular decidiu aumentá-la para “80 milhões de GW até 2020” (2011: 3). Contudo, de acordo com Pedro Fonseca (2011), a construção das centrais nucleares planeadas tenderá a suprir “apenas 4% das necessidades de eletricidade na China até 2020, o que é manifestamente pouco para um país com enormes necessidades energéticas”. Dito isto, embora o carvão seja um recurso energético altamente poluente, o especialista argumenta que “este desempenha um papel fundamental nos desígnios da segurança energética”, até porque no caso da China, ele “é um recurso endógeno”, isto é, “o país possui reservas bastante consideráveis de carvão, e, portanto, vai continuar a explorá-lo” (Fonseca, 2011). Por outro lado, Pedro Fonseca (2011) não duvida que “o carvão garanteuma autonomia energética à China”, ou que, pelo menos, “contribui para minimizar [no país] o extraordinário impacto resultante de uma ameaça aos fluxos mundiais de petróleo e gás natural”.

Em resumo, a escassez de eletricidade é um fator crucial no quadro da insegurança energética chinesa. Ela é fonte de insegurança cíclica, na medida em que é “regional, sazonal, ocasional” e afeta setores específicos (China Daily, 2011). Por outras palavras, ela ocorre, principalmente, no verão e no tradicional Ano Novo lunar (em janeiro/fevereiro dependendo do ano lunar), e, sobretudo, nas horas de maior consumo energético (Zhang Jian, 2011; Kong Bo, 2006). Os setores da indústria mais afetados são os que mais energia consomem, como é o caso do “aço, produtos químicos à base de carvão, e unidades de fundição de alumínio” (Koh Gui Qing e Aileen Wang, 2011: 11). Em termos de regiões, as mais prejudicadas são “a costa leste, o sul e o centro da China” (Koh Gui Qing e Aileen Wang, 2011: 9).

Bibliografia

Asia Pacific News, May 30, 2011, http://www.channelnewsasia.com/stories/eastasia/view/1132093/1/.html

Bloomberg News, April 3, 2012, http://www.bloomberg.com/news/2012-03-27/china-beats-u-s-with-power-from-coal-processing-trapping-carbon.html

China Daily, May 27, 2011, http://usa.chinadaily.com.cn/business/2011-05/27/content_12593814.htm

Chow, E. (2011). Entrevista pessoal através de contato telefónico. Estados Unidos da América.

European Council on Foreign Relations, September 12, 2013, http://www.ecfr.eu/content/entry/china_analysis_chinas_missing_energy_debate

Fonseca, P. (2011). Entrevista pessoal. Lisboa.

Jianjun T. e Johnson-Reiser, S. (2012). Understanding China’s Rising Coal Imports, Carnegie Endowment for International Peace

Robert, Bloomberg Business Week Magazine, May 12, 2011, http://www.businessweek.com/magazine/content/11_21/b4229011807240.htm

Seattle Times, March 26, 2011, http://o.seattletimes.nwsource.com/html/localnews/2014609339_exportingcoal27m.html

Xinhua, May 23, 2011, http://news.xinhuanet.com/english2010/business/2011-05/23/c_13889875.htm

Paulo Duarte é doutorando em Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa – ISCSP-UTL, Portugal, e investigador no Instituto do Oriente (duartebrardo@gmail.com).

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