Feriados nacionais e Políticas Externas sem brilho: uma reflexão histórica e contemporânea sobre o papel dos Estados Unidos nas relações internacionais do Brasil, por Pedro Henrique Verano

O 15 de Novembro tem significados para além do que poder ser considerado como óbvio para a história do Brasil. Para além de concepções acerca de modelos políticos os quais essa data nos remete, tendo em vista que ela significou a mudança de regimes no Brasil, dela é possível depreender questionamentos acerca das relações internacionais do país. A transição que o golpe que o Marechal Deodoro deu no gabinete do então Presidente do Conselho de Ministros do Império, o Visconde de Ouro Preto, além de ter representado o fim da Monarquia brasileira, trouxe consigo uma nova diretriz nos eixos preferenciais de política externa. Tendo como base para isso, os republicanos ancorados em um discurso de cordialidade entre as nações americanas introduziu na diplomacia brasileira o paradigma que ficou conhecido nos meios acadêmicos como “americanismo”.

Ao serem percorridas, en passant, suas transformações ao longo de mais de um século, percebe-se que o referido conceito ganhou apreciações que fazem surgir percepções que invocam mais do que preferências ou mesmo percepções estratégicas para a inserção internacional do Brasil. Estar ou não mais vinculado aos temas hemisféricos, tendo como referência a inquestionável superioridade econômica e política dos Estados Unidos, trouxe consigo aspectos passionais e que, muitas vezes, provocaram celeumas entre acadêmicos, diplomatas, políticos e que chegam até aos ditos “leigos” sobre Relações Internacionais, despertados por pontos que podem ser também atribuídos à condição de potência internacional que os norte-americanos possuem desde a virada do século XIX para o XX.

Nos dias de hoje, ao percebermos até mesmo um esgotamento do debate acerca da existência ou não de um vácuo de poder deixado pelo fim da União Soviética no pós Guerra Fria, estarmos mais próximos ou não (aqui entendido para além de alinhados) com os Estados Unidos implica uma série de consequências para as percepções dos diversos atores que compõem o escopo contemporâneo das Relações Internacionais. Resgatando brevemente o governo Collor, observava-se ainda a existência de uma polarização entre os setores mais liberais e mais a esquerda acerca dos princípios postulados no Consenso de Washington, sendo à  época, vistos pela vertente política vigente como um caminho mais do que possível para a superação do atraso econômico do país. Contudo, tendo em vista os processos ocorridos ao longo da década de 1990, essa visão progressivamente perdeu sua força, por efeito não somente das crises ocorridas, mas também da ineficiência do modelo “neoliberal”  na política econômica brasileira.

O “associacionismo”, que ao longo do período entre 1945 e 1967 fez parte do centro dos debates acerca de como seria alcançado o desenvolvimento nacional, passou de opção para o grande vilão do status de eterno “país do futuro”. Por conseguinte, os âmbitos institucionais nos quais a presença norte-americana mostrava-se mais proeminente, com destaque para o Fundo Monetário Internacional, passaram a ser os grandes alvos das críticas à política externa brasileira, inclusive aglomerando em si perspectivas das ditas “teorias da conspiração”, ao afirmarem que nessas arenas haveria um proposital desinteresse, quase que de sabotagem, no desenvolvimento das periferias, nas quais se inclui o Brasil. Desse modo, mesmo que superficialmente analisado, é possível constatar alguns aspectos formadores do que se tornou e se entende, hodiernamente, como as bases do sentimento antiamericanista no país.

A política externa do governo Dilma Rousseff, ao longo dos quase completos três anos de mandato, a despeito de não ter tido muitas luzes em termos conceituais e seus grandes feitos poderem ser atribuídos à reflexos dos sucessos de seus antecessores (como por exemplo a eleição de Roberto Azevêdo como diretor-geral da OMC), nos proporciona um ambiente propício para uma reflexão acerca do papel dos Estados Unidos na agenda internacional contemporânea do Brasil. Aquele que se mostrou, lá em 1889, como o bastião do republicanismo, posteriormente na chancelaria Rio Branco  (1902-1912) como o parceiro para o país alcançar posições de maior prestígio na arena internacional e, ao longo da Era Vargas como uma parceria para o desenvolvimento, ainda sem mantém como um dos principais eixos da política externa brasileira contemporânea.

A despeito de, inicialmente, essa afirmativa parecer paradoxal com o que foi desenvolvido anteriormente, principalmente ao levarmos em consideração a prevalência do “universalismo” e as ditas parcerias Sul-Sul como os eixos preferenciais da inserção internacional brasileira, percebe-se que na estratégia (se é que ela existe de fato) da política externa de Dilma, os Estados Unidos não perderam a sua centralidade, embora com características antagônicas do que há 124 anos foi pensado. Contrapor-se à política externa norte-americana, notadamente quando levamos em consideração episódios que outrora seriam de menos relevância, mas que tomaram proporções estranhas a História, como os episódios de espionagem, parecem fortalecer a debilidade das estratégias contemporâneas do Brasil, mesmo que não intencionalmente.

Ao ser observado o enfraquecimento, pelo menos da parte que toca o Brasil, de instrumentos como os BRICS e da reticência contemporânea das grandes potências no que se refere à não mais tão badalada Reforma do Conselho de Segurança, faz parecer que qualquer simples oposição a quaisquer iniciativas que partam dos Estados Unidos um ato de extrema soberania e demonstração de poder internacional por parte do Brasil, pelo menos para uma parcela importante da formação de intenções de voto. Desse modo, posturas como o cancelamento de viagens oficiais e tentativas de relacionar a violação das comunicações das elites governantes do país com direitos-humanos (ao invés de ir ao ponto e criticar a morte de civis nas ações militares norte-americanas no Afeganistão e no Iraque), parecem se transformar na tônica que norteia a política externa brasileira contemporânea.

A crítica aos Estados Unidos, ao se tornar praticamente o solitário bastião de uma política externa sem muito brilho, trazem para esse esforço reflexivo o quão a deriva pode ser considerada a inserção internacional brasileira que, na ausência de concepções sofisticadas de política externa, como as de Afonso Arinos, San Tiago Dantas e Azeredo da Silveira, trazem o questionamento de qual nome dar para a política externa do governo Rousseff. Talvez, tendo em vista tudo o que foi aqui dito, “antiamericanismo acidental”, seja uma alcunha apropriada, contudo quase que ofensiva ao nobre passado que deu tanto destaque à diplomacia brasileira.

Pedro Henrique Verano é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (phverano@gmail.com).

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