Diplomacia com conhecimento de causa, por Sérgio Eduardo Moreira Lima

O conhecimento da realidade externa é necessário para compreender fatores que afetam cada vez mais o cotidiano. Não basta entender sua dinâmica, é preciso influir sobre sua evolução para promover e proteger direitos e interesses. A pesquisa de relações internacionais é instrumental nesse processo. Ela incumbe ao Estado e à sociedade civil, por intermédio das universidades, de centros de estudos e da própria mídia.

A reflexão diplomática e a acadêmica podem diferir em propósitos e tempo de ação. A primeira tem seu foco no interesse nacional e na formulação de políticas. Responde a questões mais imediatas e advém da necessidade de definir linhas de ação de curto e médio prazos, bem como traçar estratégias coerentes numa perspectiva mais longa.
Apesar de suas diferenças, ambas podem complementar-se no processo decisório que assegure consistência à política externa na defesa de valores fundamentais e dos princípios que orientam o Estado. O legado do Barão do Rio Branco na negociação das fronteiras do Brasil se deve não apenas às qualidades do patrono da diplomacia, como também a suas pesquisas em História, Geografia e Direito, com apoio de entidades civis.

Com a institucionalização da Fundação Alexandre de Gusmão (Funag) e a criação, em Brasília, em 1987, do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (Ipri), a ela vinculado, o Itamaraty deu um passo para aproximar diplomacia e academia, ao promover interação com a sociedade e conferir maior legitimidade à política externa. Esboçadas nos anos 70, essas iniciativas terão contribuído para reforçar valores democráticos em momento crítico da História do Brasil.

Diplomatas brasileiros já haviam participado do processo de criação em 1974 do primeiro curso de Relações Internacionais no país, na UnB. Com o estabelecimento do Curso de Altos Estudos (CAE) do Instituto Rio Branco (IRBr), em 1977, o Itamaraty lançou as bases para a interação continuada com a Academia. Das teses aprovadas desde então, as de maior interesse público têm sido divulgadas pela Funag.

Seminários sobre temas como o papel dos Brics no sistema internacional e a Diplomacia da Inovação para a Competitividade demonstram como Funag e Ipri contribuem para o esforço de reflexão sobre tópicos que vão da governança internacional à inserção do país nas cadeias globais de conhecimento e produção. O conceito do Itamaraty muito se deve à sua capacidade de pesquisar e inovar na projeção e salvaguarda dos interesses nacionais. É interessante que o Ipri tenha nascido de tese do CAE, defendida, em 1981, por Gelson Fonseca Junior, diplomata e pensador brasileiro.

Desafios atuais à pesquisa em relações internacionais continuam ligados à democracia e à projeção de seus princípios na ordem internacional. Compete ao Estado e à sociedade civil estudar esses obstáculos, cooperando entre si na busca de condições para sua superação, formulação conceitual e tratamento doutrinário. O Ipri tem por missão contribuir para o desenvolvimento do pensamento nacional autônomo acerca das grandes questões e oportunidades com que o Brasil se depara no mundo globalizado. Nesse propósito, complementa, em sua articulação com a academia, o exercício diário de pesquisa realizado por divisões e departamentos do Itamaraty.

Não deixa de surpreender o contraste entre valores e princípios no plano doméstico e sua reduzida projeção externa. Num mundo que se globaliza, esse paradoxo torna-se cada vez mais perceptível como dilema moral e político que afeta a dignidade dos que são “menos iguais”. A estabilidade do ordenamento internacional dependerá de sua legitimidade e de outros atributos que reflitam equilíbrio e coerência entre os valores universais defendidos internamente e sua projeção no mundo.

Em palestra no IRBR, o chanceler Luiz Alberto Figueiredo Machado, após referir-se às questões ligadas à paz e à segurança internacional, ressaltou a crescente importância e atualidade dos temas do desenvolvimento, social e ambiental, na agenda internacional. Para o Brasil, o êxito e o alcance das políticas adotadas no passado recente, que contribuíram para transformações internas notáveis, reforçam as credenciais diplomáticas do país. Recordou o ministro Figueiredo encontro recente com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e a percepção deste quanto à dose de liderança que caberá ao Brasil na implementação da Agenda do Desenvolvimento pós-2015.

Num território tão vasto, com características geográficas e humanas variadas, a reflexão sobre o tema da cooperação e das relações internacionais será cada vez mais relevante ao desenvolvimento do Brasil, à defesa de seus interesses e de suas ideias, bem como à projeção e ao fortalecimento de seus valores no plano externo.

Sérgio Eduardo Moreira Lima é Embaixador e Diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais da Fundação Alexandre de Gusmão – IPRI-FUNAG (semolima@gmail.com).

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