As relações China-Rússia na esfera regional, por Paulo Duarte

Longe de ser recentes, as relações entre a Rússia (outrora chamada União Soviética) e a China têm conhecido altos e baixos ao longo da História. Se as relações entre Moscovo e Pequim se deterioraram entre 1960 e 1980 devido a razões internas, mas também por causa da conjuntura internacional, elas melhoraram rapidamente no fim da Guerra Fria. Em 1992 os dois Estados vizinhos assinaram uma «declaração conjunta sobre as bases das suas relações bilaterais», enquanto em 1996 eles inauguravam «uma nova fase na [sua] aproximação ao estabelecerem uma parceria estratégica»  (Baoyun, 2003). O período que se seguiu compreenderia uma «desmilitarização massiva da fronteira», bem como a «resolução, em abril de 1999, de quase todos os diferendos fronteiriços», sendo que a China e a Rússia «chegaram a acordo sobre as medidas de confiança mútua, comprometendo-se a não utilizar a arma nuclear» (Baoyun, 2003). Uma outra data importante é a da visita do Presidente Putin à China em 2000. Dessa viagem resultou um projeto de tratado de amizade, de boa vizinhança e de cooperação que foi assinado em 2001, no quadro da visita de Jiang Zemin à Rússia (Ferdinand, 2007: 848). Neste novo século, a China e a Rússia pretendem reforçar a sua cooperação, aprofundando o diálogo político e as esferas suscetíveis de colaboração ao nível regional e internacional.

Ilustrativo dessas boas relações foi o ano de 2005, a propósito do qual Isabelle Facon não hesita em afirmar que «as relações entre a Rússia e a China alcançaram um nível sem precedente» (Facon, 2006: 1). É disso exemplo a visita do Presidente Hu Jintao à Rússia (de 30 de junho a 3 de julho de 2005), da qual resultou a Declaração conjunta sobre a ordem internacional no século XXI. De acordo com esta, «os dois países decidiram trabalhar incansavelmente com outros Estados para criar um mundo caraterizado pelo desenvolvimento e a harmonia, e desempenhar um papel importante e construtivo no estabelecimento de um mundo seguro» (Ministère des Affaires Etrangères de la République populaire de Chine, 2007). Mas este projeto comporta uma visão alternativa face às relações de poder na arena internacional. Como sublinha, a este respeito, Sébastien Colin, «a essência da parceria sino-russa reside na oposição dos dois países face à política internacional dos Estados Unidos, cuja influência ameaça, segundo eles, os seus interesses políticos e estratégicos»(2003: 6). Não é, portanto, por coincidência que a parceria de ‘boa vizinhança’ entre a Rússia e a China consagra uma atenção particular às relações fronteiriças.

Apesar da importância da fronteira nas relações sino-russas, não se deve descurar outros domínios de cooperação fundamentais, a saber: a energia e o armamento. No que respeita às questões energéticas, a complementaridade entre uma Rússia rica em recursos e uma China que necessita deles, é o ponto forte da cooperação entre Pequim e Moscovo. Para a  Rússia, a procura chinesa crescente de gás e petróleo permitiu-lhe, por outro lado, revitalizar o domínio da energia, tendo em conta que após a queda da União Soviética, as indústrias petrolíferas e de gás russas se encontravam mergulhadas no caos económico (equipamentos obsoletos, diminuição dos investimentos) (Nogueira, 2006). Estima-se que a China deverá aumentar o seu consumo de petróleo e de gás de modo a alcançar respetivamente 10 milhões de barris por dia e 2500 biliões de metros cúbicos em 2020 (Ding Xi e Li Shuxia: 2002).

Além do gás e do petróleo, a cooperação energética sino-russa engloba também um outro setor dinâmico: a energia nuclear (lançada em 1992 entre Moscovo e Pequim). A este respeito, a construção da central nuclear em Tianwan (província do Jiangsu) revelou-se de extrema importância para Xangai, fornecendo-lhe 14 biliões de quilowatts-hora por ano (Colin, 2003: 9).

Uma palavra acerca do setor do armamento. Como sublinha Isabelle Facon «a indústria russa converteu-se no principal fornecedor de armas e tecnologia militar às forças armadas chinesas (85% das importações chinesas de armamento desde o início dos anos 90) (2006: 2). Enquanto complemento ao comércio de armamento, poderemos também mencionar os exercícios conjuntos e a formação como dois outros elementos da cooperação militar sino-russa. Foi assim, por exemplo, que 60 oficiais do Exército Popular de Libertação partiram para a Rússia, em março de 2000, de forma a seguir uma formação a propósito dos sistemas de defesa anti-míssil, ou que em 2002 e 2005, as forças armadas russas e chinesas efetuaram exercícios conjuntos.

Foram efetuados numerosos progressos nas relações sino-russas, cujo dinamismo tem aumentado a cada ano. Tal vê-se, entre outros aspetos, ao nível da complementaridade entre os dois vizinhos (cujos setores energético e do armamento constituem bons exemplos) ou ao nível dos encontros oficiais e dos projetos de cooperação, cada vez mais numerosos que outrora. Refira-se, igualmente, a importância de uma cooperação que se estende, também, a domínios tão diversos como o transporte aéreo, o aeroespacial, a agricultura, a sivicultura, a tecnologia e as ciências (Colin, 2003: 11). No entanto, embora «a China e a Rússia percebam a sua parceria como ultrapassando o simples quadro bilateral («exemplar a esse respeito é o facto de ambas possuírem uma mesma visão do mundo,defendendo um papel mais importante para a ONU e conferindo mais importância ao mundo não-desenvolvido»), não significa que a desconfiança esteja ausente na sua relação (Ferdinand, 2007 : 856).

Mas a que se deve tal desconfiança? Para Yang Baoyun, o facto de a Rússia se sentir em «estado de inferioridade» relativamente à China, faz com que Moscovo se mostre «mais reticente quanto à possibilidade de uma cooperação bilateral mais avançada»(Baoyun, 2003). De acordo com o autor, é «a inquietude face a um vizinho mais poderoso, tanto no plano económico, como militar, que faz com que as armas russas vendidas à China não sejam as mais modernas e se revelem frequentemente de qualidade inferior às destinadas à Índia» (Baoyun, 2003). Isabelle Facon está inteiramente de acordo com este ponto de vista. Ela confirma, com efeito, que estes últimos anos atestaram «uma intensificação da pressão chinesa sobre o fornecedor de armas russo apelando a uma evolução qualitativa da cooperação militaro-técnico-bilateral» (Facon, 2006: 6). Mas Moscovo parece não querer ceder a tais pressões desconfiando, além disso, dos acordos energéticos que Pequim assinou com os países centro-asiáticos, «nomeadamente o oleoduto Cazaquistão-China e os investimentos chineses no setor dos hidrocarbonetos das Repúblicas da Ásia Central» (Facon, 2006: 8). A Rússia desconfia igualmente do facto de a Organização de Cooperação de Xangai poder servir de plataforma à estratégia chinesa de aumentar a sua esfera de influência na Ásia Central.

Para S. Colin, outros aspetos permitem deduzir os limites das relações sino-russas. Para este autor, «apesar da presença da China e da Rússia no Grupo de Xangai com os Estados da Ásia Central, a Rússia não deixa de suspeitar da crescente influência da China nessa região que ela considera como sua área de influência» (Colin, 2003: 11).Por sua vez, Pequim desconfia também da Rússia. Ilustrativo a esse respeito é o facto de o Império do Meiose mostrar, desde há muito, contra a colaboração de Moscovo a respeito da península coreana. Por outro lado, embora a China  considere que a Rússia é um parceiro indispensável no que concerne à venda de armas ou ao aprovisionamento energético, Pequim procura não se tornar muito dependente do seu vizinho, já que ele teme que Moscovo se aproxime a qualquer momento dos Estados-Unidos e da NATO (Colin, 2003: 39). Um outro fator de mal-estar é descrito por Peter Ferdinand. Segundo este autor, «os comentadores russos queixam-se do facto de a China possuir um grande défice comercial face à Rússia já que esta exporta produtos de alto valor (entre os quais os recursos energéticos), enquanto a China exporta produtos de valor modesto, como vestuário ou brinquedos» (Ferdinand, 2007 : 853).

Em conclusão, constatamos que as relações entre a China e a Rússia oscilam entre a cooperação e a rivalidade, entre a convergência e a desconfiança. Sem repetirmos o já mencionado acima, podemos acrescentar que «como o período entre o 11 de setembro de 2001 e o início da intervenção norte-americana no Iraque mostrou, essa relação pode ser facilmente destabilizada pela influência norte-americana» (Colin, 2003: 11). Por outro lado, a desconfiança torna-se um cocktail explosivo quando se misturam os desafios migratórios e a questão dos recursos energéticos. Certos analistas russos não hesitam em considerar a China como uma «ameaça demográfica» devido «ao caráter potencialmente perigoso, visto de Moscovo, da combinação dos fluxos migratórios chineses, importantes nos territórios siberianos e no extremo-oriente russo, e do aumento das necessidades da China no que concerne aosrecursosenergéticospresentesemabundâncianessesmesmosterritórios» (Facon, 2006: 6). Mas o cocktailperigosofaz-se sentir mais ao plano local. Com efeito, para Yang Baoyun, «os governantes do Extremo-Oriente russoqueixam-se de uma ‘invasão’ de imigrantes de origem chinesa, embora a maior parte destes sejam operários e camponeses qualificados» (Baoyun, 2003).Além de permitir o trânsito de migrantes, a abertura das fronteiras propicia também, como sublinha Thierry Mathou, «o contrabando e o tráfico de toda a espécie(pele, armas, droga, prostituição…)» (Mathou, 2005). Além da desconfiança que este fenómeno desencadeia principalmente do lado russo, ele explica por outro lado que «não exista, assim, praticamente sinergias entre a política de revitalização do nordeste chinês e a estratégia russa no Extremo-Oriente» (Mathou, 2005).

Bibliografia:

BAOYUN, Yang (2003).La Chine et la Russie, no 4, Cairn.Info, www.cairn.info/revue-outre-terre-2003-3-page-181.htm

COLIN, Sébastien (2003). Le développement des relations frontalières entre la Chine et la Russie, Centre d’études et de recherches internationales, n°96-julho

Ding Xi, Li Shuxia (2002). Le Pétrole et les industries de gaz russes dans la coopération énergétique sino-russe, Xiboliyayanjiu (Etude sibérienne), Vol. 3, junho

FACON, Isabelle (2006). Les relations stratégiques Chine-Russie en 2005 : la réactivation d’une amitié  pragmatique, Fondation pour la Recherche Stratégique, 20 de janeiro

FERDINAND, Peter (2007), Sunset, sunrise: China and Russia construct a new relationship, International Affairs 83: 5

Le Ministère des Affaires Etrangères de la République populaire de Chine, www.fmprc.gov.cn/fra/ziliao/topics/hujintiaochufangruss/t202618.htm

MATHOU, Thierry (2005).La nouvelle diplomatie frontalière de la Chine à la reconquête de ses marches continentales, Revue internationale et stratégique, CAIRN, www.cairn.info/revue-internationale-et-strategique-2005-4-p-33.htm

NOGUEIRA, Carolina (2006).Nova parceria entre China e Russia, PUC Minas-ConjunturaInternacional, www.pucmg.br/imagedb/conjuntura/CNO_ARQ_NOTIC20060328120737.pdf?PHPSESSID=7c34fbffd916ef0c12b31e8f29fe3101

 

Paulo Duarte é doutorando em Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa – ISCSP-UTL, Portugal, e investigador no Instituto do Oriente (duartebrardo@gmail.com).

 

1 Comentário em As relações China-Rússia na esfera regional, por Paulo Duarte