Irã e Primavera Árabe: o revés inesperado de uma potência em ascensão, por Aline de Oliveira Alencar

Nas últimas décadas, nenhuma região do mundo tem sido tão instável e imprevisível quanto o Oriente Médio. E, como parte fundamental das dinâmicas da região, encontra-se a República Islâmica do Irã, importante potência regional que está envolvida na maior parte dos processos que determinam sua geopolítica.

Na década de 1970, no contexto do reavivamento religioso que perpassou o mundo islâmico (LAPIDUS, 1997), o país vivenciava grande tensão entre o regime do Xá Reza Pahlevie uma sociedade descontente em seus mais diversos segmentos, que culminou na deposição do monarca e na instauração de um regime islâmico. A excepcionalidade da revolução determina a impossibilidade de analisá-la de acordo com molduras de pensamento ocidentais, uma vez que não se tratou de uma revolução puramente burguesa ou popular. Em vez disso, toda a população, desde as camadas populares urbanas aos grandes proprietários de terra e à elite empresarial, mobilizaram-se contra o regime do Xá. A alternativa islâmica, que foi a vencedora, era apenas uma voz difusa na multidão revolucionária em um primeiro momento (KATOUZIAN, 2010; IBRAHIM, 2012). Entretanto, uma vez estabelecida, a república islâmica constituiu uma excepcionalidade na região, com um regime religioso instituído via revolução popular. O exemplo iraniano ecoou no mundo islâmico no contexto da ressurgência, constituindo fonte de inspiração para a ondaislamista (DESSOUKI, 1982).

Era objetivo do Irã a exportação da revolução para outras partes do mundo, servindo de inspiração para as massas do mundo lutarem contra seus ditadores e perseguirem a alternativa islâmica (CARVALHO PINTO, 2011, p. 9). O país propaga a ideia de que somente seu modelo de “resistência islâmica” pode garantir os direitos dos “muçulmanos oprimidos”, uma retórica que vem ganhando relativa ressonância numa região que sofre com regimes corruptos e repressivos (CHUBIN, 2012, p. 8). Até hoje, como os debates seguidos à Primavera Árabe demonstraram, o Irã é visto como um modelo possível de se emular: depois das quedas dos regimes, muitos se perguntaram se não ocorreria um “inverno islamista” (SCHENKER, 2012), em que os países onde os islamistas ascenderam ao poder pela via democrática basear-se-iam no regime iraniano (IBRAHIM, 2012). Com o tempo, essas suposições provaram ser equivocadas: o islã moderado que tem prevalecido é mais semelhante ao modelo turco do que ao iraniano (CHUBIN, 2012, p 17).

Além de seu excepcional processo político interno, o Irã é dissonante na região também por suas relações internacionais. O país participou de importante guerra na região (Irã contra Iraque, na década de 1980) e é atualmente um bastião anti-ocidental no mundo islâmico, empreendendo um programa nuclear que incomoda as potências ocidentais e seus vizinhos árabes do Golfo, que olham com desconfiança o vizinho persa e xiita. A rivalidade Irã – Arábia Saudita é estrutural no sistema regional, motivada pelas relações privilegiadas da monarquia saudita com o Ocidente e pela política percebida como “sectária” do Irã de apoiar xiitas em outros países, como Iraque, Líbano e Iêmen (CHUBIN, 2012, p. 8-10).

Com a Primavera Árabe, evento de dimensões sistêmicas na região, nada mais natural que os interesses e o peso geopolítico do Irã se tenham alterado. Sobre a temática, a maioria dos analistas tem apontado que o país saiu prejudicado na nova dinâmica que se configurou, com aliados enfraquecidos (Síria) e adversários empoderados (Países do Golfo).

A intervenção do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) no Bahrein foi emblemática, transformando o país em um palco da rivalidade entre o Irã e as monarquias do Golfo. O Irã, desde o começo, opunha-se à constituição de microestados no Golfo, identificando-os como um plano imperialista do Ocidente (CARVALHO PINTO, 2011, p. 9), e reivindicava a posse do Bahrein, país de maioria xiita. O viés antimonárquico da revolução iraniana (KATOUZIAN, 2010), por sua vez, despertou a desconfiança das monarquias do Golfo. Nesse cenário de verdadeira “guerra fria”, os protestos no Bahrein, em que as demandas mais radicais provinham de manifestantes xiitas (CARVALHO PINTO, 2011, p. 12), foram percebidos como uma ingerência iraniana para desestabilizar as monarquias tribais da região. O fortalecimento da integração dos países do Golfo no contexto da mobilização do CCG para intervenção no Bahrein, quando se falou mesmo na possibilidade de uma Gulf Union e se propôs a extensão da organização para o Marrocos e a Jordânia, pode ser visto como um revés para o intuito do Irã de exercer hegemonia regional.

Na Síria, a Primavera Árabe tem apresentado resultados tão longos e custosos quanto inconclusivos. Entre os fatores que explicam tal fato estão a diversidade étnica do país, a grande quantidade de interesses externos envolvidos e a persistência de um grupo de oficiais alawitas fiéis ao regime (CHUBIN, 2012, p. 30). Nesse país, assim como no Bahrein, ficou evidenciada a divisão sectária das forças políticas na região, numa polarização entre xiitas e sunitas (COLOMBO, 2012, p. 12; CHUBIN, 2012, p. 46-47): Arábia Saudita, Turquia e Qatar têm apoiado os opositores sunitas, e o Irã, o regime allawita. Considerando que a Síria é um aliado estratégico do Irã para seu poder e influência no Levante e que o eixo xiita Irã-Síria-Hezbolah tem sido fundamental para a oposição iraniana à presença Ocidental e ao estado de Israel, a queda do regime alawita e sua substituição por um sunita mudaria toda a distribuição geopolítica da região em direção desfavorável ao Irã.

Do exposto, conclui-se que os resultados da Primavera Árabe têm determinado um rearranjo das relações de força na região. Até o momento, as configurações no Egito e na Tunísia, em que os regimes não buscaram o modelo islâmico iraniano, e no Bahrein, em que a dura repressão teve como pretexto o combate a uma suposta ameaça iraniana, determinam o sucesso momentâneo dos interesses das monarquias conservadoras e sunitas do Golfo. Nessas circunstâncias, o futuro da Síria parece decisivo para determinar se haverá um revés definitivo da posição estratégica que o Irã desfrutava na região antes da Primavera Árabe.

Bibliografia:

CARVALHO PINTO, Vânia (2011). La ola de movimientos pro democracia enMedio Oriente: Análisis preliminar de lasconsecuencias políticas para laregióndel Golfo Pérsico’. In: ElisendaBallesté; Manuel Férez. (Org.). Medio Oriente y Norte de Africa: Reforma,Revolución o continuidad?Ciudad de Mexico: Senado de la Republica Mexicana.

CHUBIN, Shahram (2012). ‘Iran and the Arab Spring: Ascendancy Frustrated.’ GRC GULF PAPERS. Geneva, Jeddah, Tokyo: GRC.

COLOMBO, Silvia (2012). ‘The GCC Countries and the Arab Spring.Between Outreach, Patronage and Repression’.IAI WORKING PAPERS 1209. Rome: IAIS.

DESSOUKI, Ali E. Hillal (Ed.) (1982). “Islamic resurgence in the Arab World”. New York: Praeger.

IBRAHIM, Raymond (2012). ‘Parallel Betrayals: Iranian Revolution and Arab Spring’.MiddleEastForum.Disponívelem: http://www.meforum.org/3264/iranian-revolution-arab-spring(último acessoem 23/09/2012)

KATOUZIAN, Homa (2010). ‘The Iranian Revolution at 30: The Dialectic of State and Society.’ Middle East Critique, Vol. 19, No. 1, 35–53.

LAPIDUS, Ira M. (1997). “Islamic Revival and Modernity: The Contemporary Movements and the Historical Paradigms”. Journal of the Economic and Social History of the Orient, Vol. 40, No. 4. pp. 444-460.

SCHENKER, David (2012). ‘Arab Spring or Islamist Winter?’.World Affairs.Disponível em: http://www.worldaffairsjournal.org/article/arab-spring-or-islamist-winter-0(último acesso em 23/09/2012)

 

Aline de Oliveira Alencar é mestranda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (aline.alencar85@gmail.com).

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