China, Estados Unidos e Sudeste Asiático: autonomia e crescimento por meio de potências., por André Vicente Pintor

Há diferentes formas de uma hegemonia surgir. Da mesma forma, há diferentes maneiras de ela se manter. Atualmente, a economia desempenha um papel essencial no exercício de poder e na capacidade de coerção de outros países. Um país com grande poder econômico tem grande capacidade de influenciar seus vizinhos através do domínio de sua economia, tornando-os dependentes. Outros desdobramentos da dominação econômica também ajudam um país a exercer poder sobre outro, como será mostrado. A liberdade de ação, porém, compete apenas ao hegemon? Estarão irremediavelmente presos a suas vontades os países nos quais ele se apoia? Possivelmente. Mas isso talvez dependa da existência ou não de outro grande poder, capaz de contestar sua hegemonia. A presença, por exemplo, de uma potência global pode desafiar, como veremos, o exercício da hegemonia de uma potência regional.

Uma taxa de crescimento anual do PIB superior aos 9% desde 2002, caindo abaixo desse nível apenas em 2012, ajuda a ilustrar porque a China se tornou um ator global de saliência e grande importância econômica. A economia chinesa, segunda maior do mundo, permite que o país realize inúmeros investimentos em outros países. Além de maciços investimentos na África, por exemplo, a China tem feito ainda mais expressivos investimentos em seus vizinhos do sudeste asiático.

Um dos recentes projetos chineses envolve 1,6 bilhão de dólares e 365 hectares de terra na capital laociana, Vientiane. Nos brejos de That Luang, um projeto urbano que pretende gerar cerca de 30 mil empregos será desenvolvido em uma zona econômica especial.

A gritante presença da China na economia de Laos leva também a uma influência cultural. Além da grande quantidade de chineses que têm entrado no país, muitos laocianos começam a pautar suas vidas com base na presença chinesa. Principalmente nas províncias próximas à fronteira com a China, diversas escolas chinesas têm surgido. O mandarim se tornou, para os laocianos, propiciador de melhores prospectivas profissionais. Com a possibilidade de aprender a língua chinesa e com melhores prospectivas ligadas à China, muitos jovens saem de Laos para estudar nesse país.

A questão de Laos é apenas um exemplo. A China tem acentuado sua presença em muitos países, e esta presença econômica pode ter outros desdobramentos. Como o caso descrito mostra, a influência econômica é uma via que muito contribui para a influência cultural. Esta, por sua vez, facilita a submissão de países à vontade de outros.

Talvez seja errado dizer que a influência cultural facilita a submissão de um país à vontade de outro, uma vez que as vontades se misturam e a cooperação vem de bom grado por parte do país mais influenciado. Fique aqui ressaltado, entretanto, que os investimentos chineses têm mostrado sua capacidade de influenciar culturalmente aqueles que os recebem, e que as dominações cultural e econômica são um meio muito mais consistente e sutil – e mais aceito moralmente pela comunidade internacional – de exercer hegemonia do que os meios militares.

A influência chinesa é clara, tanto quanto seu poder. Os investimentos, entretanto, têm proporcionado aos países receptores condições econômicas muito melhores. Fica aqui a dúvida, portanto, de até onde a presença chinesa é vantajosa para os países da ASEAN e de até onde eles podem se ligar ao país antes que não tenha volta.

A intenção do governo laociano de construir uma ferrovia para trens de alta velocidade ligando a fronteira com a China à capital e a capital a Bangkok permite a alguns afirmarem que Laos está fazendo uma política astuta, ligando a ASEAN à China enquanto mantém suas próprias relações com o Vietnã. A informação de que a ferrovia custará quase o PIB do país e que será construída através de empréstimos chineses, porém, nos faz pensar se não é a China quem tira o maior benefício dessa relação.

Como já dito, é claro que o investimento chinês é importante para esses países. Todavia, o domínio de seus recursos naturais pelos chineses e a substituição de suas plantações de arroz por plantações de banana, como é o caso de Laos, podem facilmente levar a uma dependência econômica crônica. Apesar de os países crescerem junto com a China, é possível que eles cresçam a ponto de se desprenderem dela? Ou ao alimentarem-na apenas contribuem para que ela os controle?

A questão é complexa, pode ser entendida de diversas maneiras. Podemos, entretanto, ter uma prospectiva positiva do futuro dos países do sudeste asiático ao termos em mente que os Estados Unidos – principal ator global, primeira economia mundial e grande interessado na contenção da China – também investem intensamente nos países da região devido a interesses econômicos e estratégicos que envolvem a contenção da China.

Caso se tornassem dependentes da China, os países do sudeste asiático teriam poucas opções de ação. Da mesma forma que a economia, a política externa desses países se tornaria dependente da chinesa, podendo ser influenciados até mesmo na política interna. Esse cenário seria muito negativo a esses países, que teriam sua autonomia tolhida. A presença dos Estados Unidos na região, entretanto, garante investimentos nos países e, portanto, diminui a dependência deles com relação à China. Assim, ao colaborarem com ela, eles não estariam necessariamente se tornando dependentes ou se vinculando irreversivelmente.

A dominação chinesa, entretanto, não se dá apenas economicamente, como já mencionado. Uma variável importante é a proximidade chinesa com esses países, dando um desdobramento cultural à sua presença econômica. Apesar de o investimento estadunidense prover uma liberdade econômica – e política – a esses países em relação à China, esta é muito mais presente na região, inclusive por meio de chineses que moram em seus países. Assim, apesar de encontrar um concorrente econômico, a China ainda concentra o potencial de influência cultural na região.

A pequena influência cultural estadunidense exercida na região dá espaço para que a China expanda sua cultura pelos países. Esses países, todavia, só agirão a favor da China por vontade própria e caso sejam culturalmente influenciados por ela – assim como a Europa têm agido a favor dos Estados Unidos no caso Snowden. A autonomia dos países será mantida, diferentemente da obrigatoriedade de uma ação cooperativa que existiria se houvesse dominação econômica chinesa.

Bibliografia

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André Vicente Pintor é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL, e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (andre.v.pintor@gmail.com).

5 Comentários em China, Estados Unidos e Sudeste Asiático: autonomia e crescimento por meio de potências., por André Vicente Pintor

  1. Os métodos das Nações Super-Potências usam no Mundo todo são os mesmos, exemplo disso ficou explícito no artigo com o incentivo à “Agricultura Maldita” das bananas como acontece na América Latina.

  2. Este tipo de domínio sócio-econômico, político e cultural infelizmente tem se tornado uma tendência e muito frequente nas civilizações “menores” e infelizmente o mundo seguirá neste rumo; de uma dependência crônica e doentia.