Mudanças no fluxo de capitais e taxa de câmbio no Brasil: sensibilidade e vulnerabilidade?, por Laís Bueno Sachs

Desde o começo deste ano, a taxa de câmbio vem subindo significativamente no Brasil. Nos últimos dois meses, no entanto, a desvalorização do real superou todas as previsões e expectativas. Mercado e autoridades governamentais foram surpreendidos pela rapidez e pela intensidade com a qual a moeda nacional perdeu valor frente ao dólar. Para muitos, essa alteração cambial está diretamente relacionada a anúncios feitos pelo Banco Central norte-americano, o qual sinalizou a possibilidade de retirar medidas de incentivo à economia daquele país. Isso foi interpretado, por vários analistas e investidores, como um sinal de que aquele mercado voltava a ser uma das melhores opções de investimento ao redor do mundo.

Após o estouro da Bolha Imobiliária em 2008, o governo norte-americano aprovou e implementou algumas medidas monetárias e fiscais para reverter os efeitos negativos da Crise Econômica que começara. Entre essas medidas, encontram-se o “Troubled Asset Relief Program (TRAP)” e o “American Recovery and Reinvestment Act (ARRA)”, os quais buscavam aumentar a liquidez dos mercados, evitar mais falências bancárias, manter e criar novos empregos (U.S. Department of the Treasury, 2013).

Devido às incertezas em relação à saúde do mercado financeiro nos Estados Unidos, muitos investidores retiraram capitais e ativos daquele país, transferindo-os para mercados em países emergentes. Isto, pois os riscos dos mercados emergentes pareciam ser menores do que as incertezas da economia norte-americana. Desse modo, grandes quantidades de dólares adentraram em países como Brasil e Índia por meio de investimentos de curto prazo (hot money). Consequentemente, as moedas locais se valorizaram frente ao dólar, o que aumentou o volume de importações e alterou o balanço de pagamentos do país.

Nos últimos meses, entretanto, esse cenário mudou. Em junho, o Banco Central norte-americano (Federal Reserve – Fed), sinalizou que poderia retirar progressivamente os incentivos à economia dos EUA. Assim, a instituição sinalizava que, pelo menos aparentemente, a economia dos EUA começava a se recuperar.

Esse anúncio feito pelo presidente do Fed, Ben Bernanke, gerou grande alvoroço entre os investidores e afetou significativamente a taxa de câmbio em muitos países, em especial, no Brasil. Desde o momento em que Bernanke fez o anúncio até meados de setembro de 2013, o real sofreu uma grande desvalorização frente à moeda estadunidense. A média do dólar comercial para compra em fim de período variou de R$ 2,1314/US$ 1,00 em junho de 2013, para R$ 2,3719/US$ 1,00 em agosto do mesmo ano (IPEA, 2013).

Por conseguinte, é possível perceber que os “sinais” de recuperação da economia estadunidense alteraram, pelo menos no curto prazo, o fluxo de capital entre diversos mercados.  Nesse contexto, os anúncios da provável redução de incentivos à economia, feitos pelo Fed, incentivaram a saída de “hot money” de alguns países emergentes rumo aos EUA, mudança que tem afetado a economia e a taxa de câmbio brasileiras.

É importante lembrar também que, atualmente, a economia mundial é extremamente conectada, interdependente e muito dinâmica. Além disso, muitos investimentos, como o “hot money”, podem ser classificados como “capitais sem pátria”, no sentido de que não nutrem vínculos com países específicos. Devido a essas características, os investimentos migram de mercados com muita facilidade, procurando sempre o local que garante maior lucro, que assegure os menores custos e que minimize prejuízos.

Enquanto os EUA não apresentavam sinais de recuperação, os investidores dirigiram seus capitais a países emergentes. Isso injetou dólar na economia e incentivou as economias locais. Quando o Fed, através de seu presidente, anunciou que poderia diminuir os incentivos à economia do país, capitais retornaram aos Estados Unidos. Por conseguinte, o Real se desvalorizou, o que mostrou que a economia do Brasil está muito sensível (e, talvez, muito vulnerável) a mudanças no fluxo de capital.

Outro fator que também influenciou a saída de capitais do Brasil foi a onda de protestos que ocorreu recentemente no país. Apesar das manifestações terem sido muito importantes para democracia e para a nação brasileira, elas fizeram com que muitos investidores duvidassem da estabilidade política do país. Em outras palavras, os protestos aumentaram as incertezas dos investidores quanto ao Brasil e quanto a sua economia. Isso serviu como mais um incentivo à retirada de capitais do mercado brasileiro (The Economist, 2013).

Para reduzir a fuga de capitais e a vulnerabilidade da moeda brasileira, o Banco Central do Brasil (Bacen) anunciou que faria sucessivos leilões de dólar no mercado para conter a alta da moeda. Com essa política, Brasília tentou evitar que uma excessiva desvalorização do real prejudicasse a economia.

Apesar dessas políticas do Bacen, a vulnerabilidade do Brasil frente ao fluxo de capitais e às suas consequências tende a persistir. Infelizmente, parte do crescimento econômico do país foi baseado no aumento do consumo interno e na entrada de hot money. Para que o país diminua sua vulnerabilidade a médio e longo prazo, faz-se necessário atrair Investimento Externo Direto (IED) com fins produtivos, que gerem empregos, que criem novas plantas industriais e que valorizem o país e sua população. Do contrário, é provável que a economia brasileira diminua seu ritmo de crescimento à medida que os EUA se recuperem da Crise de 2008-2009 e de suas consequências.

É válido, ainda, ressaltar que muitos empresários encontraram-se em sérios problemas para pagar empréstimos contraídos em moeda estrangeira (especialmente em dólar) devido ao aumento da taxa de câmbio. A desvalorização da moeda nacional também afetou a balança comercial (estimula as exportações e diminui as importações), a balança de renda e serviços e a conta financeira, por exemplo. Ademais, essa desvalorização interferiu na credibilidade do Real e do mercado brasileiro frente aos investidores.

Apesar do Fed ainda não ter retirado os incentivos à economia como havia anunciado anteriormente, os Estados Unidos já mostram sinais de recuperação. Para evitar mais problemas, o governo brasileiro deve rever suas políticas econômicas de modo, por exemplo, a incentivar a entrada de investimentos externos produtivos e de longo prazo. Definitivamente, injetar dólar na economia não diminui, nem diminuirá, a vulnerabilidade do país frente à saída de hot money e à recuperação econômica dos EUA.

Referências

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA – IPEA. Disponível em: [http://www.ipeadata.gov.br/]. Acesso em 02 de out. 2013.

THE ECONOMIST. A rough ride for Rousseff. Disponível em: [http://www.economist.com/news/special-report/21586677-much-could-still-change-year-next-election-rough-ride-rousseff ].  Acesso em 26 de set. 2013.

THE ECONOMIST. Grounded. Disponível em: [http://www.economist.com/news /special-report/21586667-having-come-tantalisingly-close-taking-brazil-has-stalled-helen-joyce-explains].  Acesso em 26 de set. 2013.

U.S. DEPARTMENT OF THE TREASURY. The Financial Crisis Five Years Later response, reform, and progress. Disponível em: [http://www.treasury.gov/connect/blog /Documents/FinancialCrisis5Yr_vFINAL.pdf  ]. Acesso em 23 de set. 2013.

Laís Bueno Sachs é graduanda em Relações Pela Universidade de Brasília; é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (laisbuenosachs@gmail.com).

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