O impasse da recuperação econômica dos EUA, por Victor de Sá Neves

sta análise se propõe a discutir a solidez dos avanços recentes da economia estadunidense e as suas consequências para a economia internacional, de forma que seja possível visualizar melhor os cenários plausíveis frente a um contexto de recuperação iminente ou aparente. Levando em consideração os números macroeconômicos e as estratégias de atuação do Federal Reserve (Fed, Banco Central norte-americano), buscar-se-á compreender o contexto no qual decidiu-se pela manutenção das medidas de ampliação da oferta monetária.

De acordo com os dados sobre o ritmo de crescimento estadunidense nos últimos dois quartos de ano e  as projeções realizadas para os próximos meses, há expectativas de que a economia dos Estados Unidos esteja dando sinais evidentes de recuperação. No Q2 (segundo quarto) desse ano, por exemplo, houve crescimento do PIB real de 2,5%. Antes disso, no Q1, o crescimento havia sido de 1,1%, ou seja, valores substanciais se comparados ao ritmo dos meses anteriores.

Capturar

Fonte: The Economist*

 Outro número bastante considerado pelo Fed é a variação da taxa de desemprego. A porcentagem de desempregados, que esteve na faixa dos 10% ao final de 2009, vem caindo consistentemente desde então, e chegou aos 7,3% de acordo com os últimos relatórios. Todavia, para alguns analistas (ECONOMIST, 2013), essa queda sistemática é mascarada pelo fato de que muitas pessoas estão simplesmente parando de procurar trabalho.

Em função da aparente melhora em alguns indicadores econômicos dos EUA, o presidente do Fed, Ben Bernanke, anunciou, em meados de junho desse ano, que a diminuição na compra de títulos do tesouro e do mercado imobiliário era próxima, sinalizando o otimismo do governo com os resultados de sua economia. Nessa época, havia boas expectativas para o crescimento no Q2 – que posteriormente foram superadas – e já se visualizava que a meta de 7% de desemprego estava relativamente próxima. Mais recentemente, entretanto, a onda de especulações que rondava a última reunião do comitê de política monetária do banco foi contrariada pelo anúncio de que as medidas de afrouxamento quantitativo (os chamados quantitative easing) seriam mantidas por enquanto.

Segundo indica James Clouse (2013), a decisão de manter as medidas de expansão monetária é condizente com a vertente macroeconômica que Bernanke segue com relação aos objetivos de estabilidade financeira. De acordo com essa linha, a retirada das medidas de quantitative easing deve ser gradual e condicionada pela constatação de retomada sólida do desempenho econômico. Caso contrário, o perigo de retorno de instabilidade financeira seria bastante pronunciado e poria em risco os resultados obtidos até então.

Entretanto, outros teóricos (BORIO; LOWE, 2002, apud CLOUSE, 2013) acreditam que fortes instabilidades podem se desenvolver durante o período de expansão monetária, já que o excesso de liquidez e a taxa de juros baixa motiva os investidores a tomarem investimentos de maior risco. Ainda, de acordo com essa corrente teórica, poder-se-ia dizer que a decisão do Fed em manter as medidas de afrouxamento quantitativo pode trazer resultados negativos, pois o forte crescimento recente indica o inchaço do mercado estadunidense.

A partir dessas duas perspectivas teóricas, podem-se discutir prospectivamente os cenários possíveis para a economia estadunidense. Caso se tome como pressuposto o fato de que há indícios claros de recuperação econômica, chega-se a conclusão de que o Fed perdeu uma grande oportunidade de retirar os incentivos monetários e de fazer com que a economia voltasse aos trilhos do crescimento sustentado. Certamente, boa parte dos investidores estrangeiros considerou esse momento oportuno, o que fez com que voltassem a investir nos EUA nos últimos dois meses, causando grande saída de capitais dos países emergentes.

Não obstante, ainda há questões internas e externas que colocam em risco a diminuição imediata de medidas de expansão monetária. Como já supracitado, o número que indica a atual taxa de desemprego pode não ser confiável pelo fato de que muitos americanos simplesmente não estão mais procurando trabalho. Dito isso, basear-se nos aparentes 7,3% como base para diminuir a intervenção de quantitative easing poderia ser precipitado.

Outro ponto a ser observado diz respeito ao aparente conflito entre as políticas fiscal e monetária. Enquanto sob a égide da primeira o governo aumenta os impostos e diminui gastos – o que teria sido responsável por significativa redução no crescimento do PIB -, a intenção da segunda é ampliar a liquidez da economia e aumentar consumo. Esse impasse não parece estar próximo de ser resolvido, principalmente, em função da dificuldade em se chegar a acordos nos debates sobre o teto da dívida pública do país.

Por fim, os economistas do Fed temiam que o momento atual pudesse ser precipitado para a redução da expansão monetária. Caso essa expectativa seja verdadeira, o aperto monetário poderia induzir o passo do crescimento do PIB para baixo novamente.

Ou seja, levando em consideração os últimos cinco anos de severa crise econômica pela qual os Estados Unidos passaram, o Fed prefere adotar posturas mais cautelosas para evitar colocar em cheque a recuperação recente dos indicadores estadunidenses. Mantém-se o discurso de que é necessário atingir a marca de 7% de desemprego para que a compra de títulos seja diminuída, enquanto são necessários 6,5% de desemprego e no mínimo 2% de inflação para que se possa pensar em aumentar a taxa de juros. Para isso, caso as estimativas fornecidas pelo governo estejam corretas, tal alteração ocorrerá apenas em 2015.

Dessa forma, é necessário pensar a retomada de estabilidade da economia estadunidense em termos lentos e graduais. Por mais que as projeções apontem para crescimento substancial para os próximos anos, é necessário ter cuidado ao lidar com a questão. Mesmo que a teoria demonstrada por Borio e Lowe (2002) esteja correta sobre o risco de instabilidades financeiras em função da expansão monetária prolongada, deve-se considerar que apenas muito recentemente começou-se a falar em retomada do ritmo de crescimento. Contudo, ao que tudo indica, ainda falta tempo para que se possa falar efetivamente sobre solidez na economia norte-americana.

Referências bibliográficas:

BORIO, C.; LOWE, P. Asset prices, financial and monetary stability: exploring the nexus. BIS Working Papers, n. 114, 2002.

CLOUSE, J. A. Monetary Policy and Financial Stability Risks: An Example. Washington: Finance and Economics Discussion Series, Federal Reserve Board, 2013. Disponível em: http://www.federalreserve.gov/pubs/feds/2013/201341/201341pap.pdf. Acesso em: 26 set. 2013.

THE ECONOMIST. Taper Tiger: The Federal Reserve surprises everyone by changing nothing. Edição online, 21 set. 2013. Disponível em: http://www.economist.com/news/finance-and-economics/21586562-federal-reserve-surprises-everyone-changing-nothing-taper-tiger. Acesso em: 26 set. 2013.

* imagem disponível no mesmo sítio da notícia referenciada acima.

Victor de Sá Neves é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (victorsaneves@gmail.com).

Seja o primeiro a comentar