Burkina Faso – Terra dos Homens Justos e Bons de Bola (uma visão brasileira da África), por Paulo Antônio Pereira Pinto

Costuma-se dividir a África em duas partes: a Mediterrânea e a Subsaariana. Hoje, em missão transitória em Uagadugu, capital do Burkina Faso – que se traduz como “a Terra dos Homens Justos” – quase sou levado a crer que este continente se divide entre países que serão classificados para a próxima Copa do Mundo e os que não serão. O noticiário local tem, como ênfase principal, o jogo decisivo, em 12 de outubro, entre burquinabés e argelinos, para a decisão de uma das cinco vagas reservadas aos africanos. Tendo em conta o clima de antecipação futebolística prevalecente também no Brasil, veremos, então, se, além de justos, o pessoal aqui estará também entre os bons de bola.

Nota-se, a propósito, que há fórmulas disponíveis para explicar, ao resto do mundo, a África, o terceiro maior continente, com extensão de 30,1 milhões de quilômetros quadrados, e 1,031 bilhão de habitantes. A grande diversidade paisagística e étnico-cultural exige a subdivisão do continente, em termos muito mais complexos, do que a versão mais disponível, presa ao fato de que parte sua se situa ao norte e outra ao Sul do deserto do Saara. De qualquer forma, não se tratando aqui de elaborar detalhado estudo socioeconômico do continente, vamos considerar que o Norte, correspondendo a 25% do território continental, é formado por apenas Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Egito.

Esta África Mediterrânea foi dominada por povos árabes durante os séculos VII e VIII, com a propagação de sua cultura e religião muçulmana, apresentando semelhanças com o Oriente Médio. A Subsaariana ocuparia a maior parte do continente (75%), com grande pluralidade cultural, que inclui religiões diversas – cristianismo, judaísmo, islamismo e crenças tradicionais – e grupos étnicos distintos.

A complexidade do estudo sobre a África é abordada, por exemplo, por Jacques Maquet, em “Les Civilisations Noires”,[1] quando critica, como “arbitrária”, a divisão do continente “em função do Saara”. Para o autor, “mesmo tendo representado obstáculo enorme para a integração do Norte e Sul, o deserto representou, também, via de comunicação, através das caravanas que o atravessaram, unindo a costa mediterrânea ao Niger e ao Tchad.  O Islamismo, portanto, não se restringiria apenas ao Norte da África”. No mesmo livro, afirma que “é possível identificar traços culturais que podem ser considerados característicos da África e que a diferenciam de outros continentes culturais, como o Ocidente, a Índia, a China e o Islam”.

Para muitos brasileiros, a propósito, a África desperta grande atenção por manifestações de fé distintas, com influência no Brasil. A estes recomendo a leitura de trabalhos do Professor Júlio Braga[2], que, por exemplo, no livro “Ancestralidade Afro-Brasileira”, afirma que: “a especificidade cultural negro-baiana seja interpretada, não como algo estranho ou exótico, circunstância que se verificou, de certa maneira, em alguns estudos antropológicos demasiadamente comparatistas, nos quais dispensou-se pouca atenção à avaliação e análise do processo dinâmico de mudança e reinterpretação a que estiveram permanentemente submetidas as culturas africanas no Brasil. Certo é que a tentativa de compreender e analisar a cultura negra no contexto brasileiro e, mais do que isto, na sua projeção sócio antropológica atual, encontra, frequentemente, certa resistência por parte dos que teimam em ver degeneração ou deformação onde parece existir reelaboração permanente dessas mesmas culturas, em nova ordem sociocultural mais ampla.”

Ainda segundo o mesmo autor: “Os orixás, os voduns e os inquices são, como sabemos, de origem africana. No Brasil, porém adquiriram, ou antes conquistaram cidadania, sendo hoje cultuados por brasileiros. Servem, portanto, a uma comunidade cujos problemas existenciais inserem-se no conjunto maior dos problemas sociais da população brasileira. Em razão desse processo de reinterpretação é que se deve tomar por absolutamente normal que, por exemplo, além da alimentação sagrada de origem africana, Ogum, orixá da guerra, não dispense, em algumas ocasiões, a oferenda de uma grande e rica feijoada, prato tipicamente nacional – a feijoada de Ogum, consagrada como uma das suas iguarias votivas prediletas, em muitos terreiros de candomblé da Bahia.”

Além dos aspectos culturais, religiosos e culinários, contudo, existem os de caráter político, que afetam nossas relações com os africanos. Em exercício de reflexão anterior, publicado em Mundorama, elaborei sobre a evolução das relações de nosso País com o continente, no período entre os anos em que servi em Libreville, Maputo e Pretória, entre 1976 e 1982, e o momento atual em que exerço missão transitória em Uagadugu. Nos últimos onze anos, houve alteração, por exemplo, na prioridade atribuída ao lema de “a luta continua” pelo da “persistência na negociação”, o que coincide com fundamento de nossa política externa.

Há, contudo, tendência recente de definir nossos interesses com respeito ao continente africano, no contexto da cooperação/competição do Brasil com a China, em termos comerciais, científico-tecnológicos e culturais. Cabe lembrar que existem temas políticos, como o conceito de “soberania”, que devem constar de pauta de agenda de preocupações comum nossas com esta parte do mundo e que, também, nos aproximam de Pequim.

 Estaria aí, talvez, criado novo caminho de pensamento estratégico, que nos levaria a considerar interesses compartilhados pelas duas margens do Atlântico, passariam pelo Índico e chegariam à Ásia-Pacífico.

Nessa perspectiva, a disputa através do estreito de Taiwan – entre Pequim e Taipé – transpõe para a África, por exemplo, questões de valores, como o de soberania e não interferência, que nos interessam, na formulação de cenário mundial favorável. Isto é, ao persistir no esforço de seu reconhecimento diplomático, por poucos países africanos, Taipé opõe, neste continente, conceitos como o de “soberania” – desnecessário lembrar a importância que atribuímos ao tema – ao de “interdependência”.

Pequim, como é sabido, baseia-se nos chamados “Cinco Princípios de Convivência Pacífica”, sustentáculo de sua política externa. Reivindica, portanto, absoluto respeito a sua soberania sobre Taiwan, como defesa da noção sagrada de integridade territorial. Enquanto salienta a necessidade da mesma postura em relação a outros Estados, a RPC defende ser este um dos fundamentos de ordem internacional pacífica. Tal política é aplicada pelos chineses, com relação à África, onde mantêm vigorosamente o apoio à soberania e independência de cada país, condenam qualquer interferência externa e, como resultado, pregam o direito de cada nação escolher seus sistemas político e econômico próprios.

Em contrapartida, Taiwan posiciona-se como ator a ser reconhecido em um mundo crescentemente globalizado, onde – parece acreditar – o Estado tradicional teria sua importância reduzida. Ao mesmo tempo em que aparece lutando – com seus cada vez mais reduzidos recursos financeiros – para manter e expandir seus vínculos diplomáticos, Taipé busca também integrar organizações internacionais, como a das Nações Unidas e Mundial de Saúde. Os formosinos acreditariam que a ausência de relações oficiais com o exterior não seria fator impeditivo para sua participação de ordem internacional política e econômica.

 O debate entre não interferência versus autodeterminação tem implicações para o Brasil, na medida em que estão sendo incluídos na agenda de preocupações de países onde existem interesses para nossa ação diplomática, como na África. Por um lado, Taiwan utiliza sua diplomacia financeira, em troca do reconhecimento de seu direito a um Governo independente em Taipé. Junto com o aporte de capital são transferidos, também, conjunto de valores que fortalecem as tendências do processo atual de globalização, no sentido de que o mundo estaria prestes a padronizar-se em função das mesmas formas de produção e de governança. Vínculos econômicos seriam, assim, suficientes para justificar a existência de um estado independente na ilha de Formosa.

 Por outro, a RPC divulga, junto aos africanos em disputa pelo relacionamento com Taiwan, que a introdução imediata na África “de sistema de governança e formas de produção nos moldes ocidentais conduziria a maior desequilíbrio econômico nos países em desenvolvimento”. Os chineses, assim, produzem discurso que contradiz frontalmente a visão prospectiva dos formosinos. Nesse caso, contribuem para uma postura política que leve em conta o fortalecimento da soberania nacional como elemento importante para um novo ordenamento mundial.

 A colocação do problema da reintegração de Taiwan, entre países africanos, afeta, portanto, a interlocução brasileira com o continente. A maioria das capitais do continente alia-se com Pequim, com quem desejamos manter relacionamento estratégico de longo prazo. Sustentam, assim, os princípios de “soberania” e “não interferência”, que poderão contribuir para a estabilidade do ordenamento mundial.

 Finalizando com o tema futebol, cada país deste continente atribui a seu time a identidade de um animal. Assim, o Burkina Faso denomina sua equipe “Les Étalons”, que, no Rio Grande do Sul, onde trabalho no momento, se traduziria por “cavalos selvagens”. No Nordeste brasileiro, onde nasci, talvez fossem chamados de “jumentos arretados”. No Rio de Janeiro, onde me criei, haveria a possibilidade de Homens Justos, Bons de Bola e Cavalos Selvagens acabarem virando enredo de escola de samba, isso tudo regado com a tal feijoada de Ogum, durante os ensaios. Há, portanto, no Brasil, diferentes maneiras de entender a África.

Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata. Em Missão Transitória na Embaixada em Uagadugu, Burkina Faso. Chefe do Escritório de Representação do MRE no Rio Grande do Sul (ERESUL). Foi  Embaixador do Brasil em Baku, Azerbaijão, entre 2009 e 2012, e Cônsul-Geral em Mumbai, entre 2006 e 2009. Serviu a partir  de 1982, durante vinte anos, na Ásia Oriental, sucessivamente, em Pequim, Kuala Lumpur, Cingapura, Manila e Taipé. Na década de 1970 trabalhou, na África,  nas Embaixadas em Libreville, Gabão, e Maputo, Moçambique e foi Encarregado de Negócios em Pretória, África do Sul.  As opiniões expressas são de sua inteira responsabilidade e não refletem pontos de vista do Ministério das Relações Exteriores.


[1] Maquet, Jacques. “Les Civilisations Noires”. 1981. Horizons de France. Paris

[2] Braga, Júlio. Ancestralidade Afro-Brasileira. O culto de babá egum. Editora da Universidade Federal da Bahia. 1995.

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