IIRSA: Treze Anos Depois, por Leandro Gavião.

O tema da integração física na América do Sul tem ganhado progressiva relevância desde o lançamento da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), nos marcos da Primeira Reunião de Presidentes da América do Sul (2000).

A IIRSA, para além da retórica integracionista, simboliza o primeiro grande esforço prático para a superação das deficiências no plano da infraestrutura, equacionando os meios para efetivar a construção de um espaço sul-americano integrado. Conforme argumenta Celso Lafer,

“estes projetos de infraestrutura de integração são um inequívoco exemplo do processo de transformação de fronteiras-separação em fronteiras-cooperação, e poderão ter um efeito multiplicador sobre o desenvolvimento e ampliar a integração econômica da região” (LAFER, 2009, p. 57).

O modelo proposto organiza-se em dez eixos que englobam o conjunto do subcontinente, muitas vezes gerando uma espécie de interseção entre dois ou mais eixos, conforme podemos verificar na imagem abaixo.

IIRSA

Em vigência até o presente, a IIRSA estruturou-se a partir de um modelo inovador no que tange à edificação de uma visão compartilhada de infraestrutura, alicerçada numa arquitetura institucional flexível e nos esforços sinérgicos de três setores-chave: comunicação, transportes e energia. Reuniam-se no Comitê de Coordenação Técnica: o Banco Interamericano de Desenvolvimento; a Corporação Andina de Fomento; e o Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata. Essa “tríplice aliança” de instituições financeiras empenhou-se em fornecer parte significativa do capital necessário para levar adiante as orientações traçadas pela IIRSA (RODRIGUES, 2012).

Geograficamente, a América do Sul encontra-se bifurcada nas vertentes oceânicas do Atlântico e do Pacífico. Tal condicionante físico, somado ao comércio exterior historicamente direcionado para os mercados centrais, impeliu os seus países a se manterem de costas uns para os outros (COSTA, 2000). Por enfrentar essa realidade e estimular a integração transfronteiriça, a IIRSA figura como o primeiro feito relevante na busca da superação de uma dificuldade perene na região.

Contudo, a IIRSA foi concebida sob os auspícios do regionalismo aberto, em um período em que praticamente todos os governos sul-americanos flertavam com o neoliberalismo. Logo, reconhecia-se a necessidade de um novo ordenamento territorial que permitisse aos Estados da região fazer uso dos corredores de exportação, de modo a ampliar sua competitividade no mercado internacional ao reduzir o custo logístico, incrementando seus fluxos e valendo-se de suas vantagens comparativas.

Os críticos deste modelo afirmam que a IIRSA reproduziu o padrão histórico regional, acentuando a lógica colonial de convergência das economias sul-americanas “para fora”, dependente da demanda dos países centrais e articulada na especialização comercial baseada em commodities. De fato, podemos observar que todos os eixos de integração estão direcionados para a costa, deixando subentendido o predomínio de uma visão puramente geoeconômica da região (COSTA, 2011).

Tais princípios orientadores do planejamento da infraestrutura do subcontinente somente conheceriam alguma mudança durante a presidência de Lula da Silva, no âmbito da III Reunião de Presidentes da América do Sul (2004) e, posteriormente, após a incorporação da IIRSA ao Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento da UNASUL. Até então, os governos eximiam-se de intervir diretamente na elaboração e execução das obras de integração da infraestrutura física, deixando o protagonismo nas mãos dos bancos multilaterais supracitados. Todavia, deve-se ressaltar que se reconhecera o significativo acúmulo de capital institucional da IIRSA, razão pela qual os governos buscaram operar de forma coordenada com a organização.

Considerações finais

A despeito de seus prós e contras, o fato é que a IIRSA, após treze anos de experiência,se perpetua como a mais expressiva medida para a integração da infraestrutura regional. Se traduzirmos alguns de seus resultados parciais em números, constataremos que dos 587 projetos, 30% se encontram em execução e 14.5% já estão concluídos – dados extraídos do sítio: www.iirsa.org. Pode-se dizer que são resultados satisfatórios, principalmente quando avaliamos agrande envergadura das obras e o pouco tempo de existência da IIRSA.

Bibliografia

LAFER, Celso (2009). A identidade internacional do Brasil e a política externa brasileira: passado, presente e futuro. 2ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva.

COSTA, Darc (2000). Estratégia Nacional: A cooperação Sul-Americana como caminho para a inserção internacional do Brasil. Rio de Janeiro:L&PM Editores.

____________ (2011). América do Sul: integração e infraestrutura. 2ª edição. Rio de Janeiro: Capax Dei Editora.

RODRIGUES, Mauro (2012). “Diez años de IIRSA: lecciones aprendidas”. Dossiê CEBRI, vol. 1, ano 11, pp. 2-27.

Leandro Gavião é mestre em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e bacharel em História pela mesma instituição. Atualmente, é pesquisador do Núcleo de Estudos Internacionais Brasil-Argentina – NEIBA-UERJ (l.gaviao13@gmail.com).

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